Reação e cuidado

1190 Palavras
O cheiro de café fresco se espalhava pela cozinha quando Mariana terminou de arrumar a bandeja. Pão, frutas, suco, café… tudo impecável. Ela conferiu mais uma vez, mais por nervosismo do que por necessidade. Ainda estava se acostumando com aquela casa. Com aquele ritmo. E principalmente… com ele. A noite anterior não saía da cabeça dela. O jeito que Miguel olhou. A proximidade. Aquela sensação de que alguma coisa podia ter acontecido… mas não aconteceu. E talvez isso fosse ainda pior. — Respira, Mariana… — ela murmurou pra si mesma. Pegou a bandeja e seguiu até a sala de jantar. Assim que entrou, viu Miguel já sentado à mesa. Camisa social, mangas dobradas, expressão fechada como sempre. Mas quando ele levantou os olhos e a viu… Algo mudou. Foi rápido. Quase imperceptível. Mas ela percebeu. E isso já foi o suficiente pra bagunçar tudo de novo. — Bom dia — ela disse, tentando parecer normal. — Bom dia. A voz dele saiu calma. Controlada. Como se nada tivesse acontecido. E talvez fosse melhor assim. Mariana começou a organizar o café na mesa, evitando olhar muito pra ele. Mas era impossível não sentir. O olhar. A presença. A tensão. — Dormiu bem? — ele perguntou de repente. Ela hesitou por um segundo. — Dormi. — Tem certeza? Ela levantou o olhar. — Tenho. Ele sustentou aquele olhar por um tempo a mais do que o necessário. — Que bom. Mas antes que qualquer outra coisa pudesse acontecer… O som de saltos ecoou pelo ambiente. E Mariana sentiu o corpo inteiro travar. Ela nem precisou olhar pra saber quem era. Olívia. — Que casa silenciosa… chega a ser entediante — disse ela, entrando como se fosse dona de tudo. Vestido elegante, cabelo impecável, perfume forte. Tudo nela gritava superioridade. O olhar dela passou rapidamente por Miguel… e parou em Mariana. E ali ficou. Frio. Cortante. — Então é você mesmo — disse, com um meio sorriso que não tinha nada de simpático. Mariana abaixou levemente a cabeça. — Bom dia, senhora. — Senhora? — Olívia soltou uma risadinha. — Eu não sou velha o suficiente pra isso. — Desculpa… bom dia. Miguel observava tudo em silêncio. — Eu vim tomar café com você — disse Olívia, puxando a cadeira ao lado dele, ignorando completamente Mariana por um segundo. — Ou isso também virou problema agora? — Não — ele respondeu, simples. Mariana continuou servindo. Colocou o café na xícara de Olívia, depois na de Miguel. Tentando ser invisível. Mas Olívia não ia deixar isso acontecer. — Você serve m*l — ela comentou de repente, olhando pra xícara. Mariana parou. — Desculpa? — O café tá fraco. Ou você não sabe fazer ou não se deu ao trabalho. — Eu posso fazer outro… — Claro que pode. É o mínimo. Mariana assentiu rapidamente. — Já trago. — E vê se faz direito dessa vez — completou Olívia, sem nem olhar pra ela. Mariana pegou a xícara. As mãos já começando a ficar trêmulas. Quando virou pra sair, ouviu: — Impressionante como você consegue colocar gente despreparada dentro da sua casa, Miguel. Ela parou por um segundo. Sem virar. — Ela está aprendendo — ele respondeu. — Aprendendo? Isso aqui não é escola. Silêncio. — E outra coisa… — Olívia continuou, agora olhando diretamente pra Mariana — tenta não ficar andando pela casa como se fosse parte dela. Fica f**o. Aquilo bateu. Forte. Mariana sentiu o peito apertar na hora. Mas respirou fundo. — Com licença — disse baixo, e saiu. Na cozinha, ela colocou a xícara na pia com mais força do que queria. O coração batendo rápido. A garganta apertando. — Não… não agora… Ela respirou fundo, tentando segurar. Mas as palavras voltavam. “Gente despreparada.” “Fica feio.” “Não é lugar pra você.” Aquilo doía. Mais do que deveria. Mais do que ela esperava. E quando percebeu… os olhos já estavam cheios. Ela passou a mão rápido, tentando limpar. Mas não adiantava. — d***a… A respiração começou a falhar. E ela odiava aquilo. Odiava se sentir fraca. Mas era demais. Ela saiu da cozinha e voltou até a sala de jantar, tentando manter o controle. — Senhora… — começou, com a voz levemente falha — eu posso me retirar por alguns minutos? Olívia ergueu uma sobrancelha. — Já? Mariana engoliu seco. — Eu… não estou me sentindo bem. Olívia revirou os olhos. — Sensível. Miguel olhou diretamente pra Mariana. E viu. Claro que viu. Os olhos vermelhos. O esforço pra não chorar. E aquilo mudou completamente a expressão dele. — Pode ir — ele disse, firme. Mariana assentiu. — Obrigada. E saiu rápido. Antes que não conseguisse mais segurar. Assim que chegou na cozinha, não deu mais. As lágrimas desceram. Ela apoiou as mãos na bancada, abaixando a cabeça. — Eu não vou chorar por causa dela… eu não vou… Mas já estava chorando. Baixo. Contido. Mas estava. Alguns minutos se passaram. E ela nem ouviu quando alguém entrou. — Mariana. A voz dele. Ela fechou os olhos na hora. — Eu tô bem… — Não está. Ela limpou o rosto rápido, virando de costas. — É só… foi só um momento. Miguel se aproximou. Sem pressa. — Olha pra mim. Ela hesitou. — Mariana. Dessa vez mais firme. Ela virou. Os olhos ainda brilhando. O rosto vermelho. E completamente exposta. Ele ficou em silêncio por um segundo. Observando. — Ela não tem o direito de falar com você daquele jeito. Mariana soltou um riso fraco. — Tem sim. Esse é o mundo dela. — Não dentro da minha casa. Aquilo fez ela olhar direto pra ele. — Mas eu sou só a funcionária. — Não. Ela franziu a testa. — Não o quê? — Não “só”. Silêncio. O ar mudou de novo. Mas dessa vez… mais suave. Mais próximo. Mais… íntimo. — Você não precisa aguentar tudo calada — ele continuou. — Eu preciso desse emprego. — E vai continuar tendo. Ela abaixou o olhar. — Eu não queria chorar por isso. — Mas chorou. Ela respirou fundo. — Eu odeio isso. — Por quê? — Porque parece fraqueza. Miguel se aproximou mais. Mas dessa vez não tinha tensão pesada. Tinha cuidado. — Não é fraqueza. Ela levantou os olhos devagar. — Não? Ele balançou a cabeça. — É reação. Silêncio. Ele levantou a mão. E dessa vez… Tocou. De leve. No rosto dela. Secando uma lágrima que ainda tinha ficado. O corpo dela arrepiou na hora. Mas não se afastou. — Não deixa ninguém te fazer sentir menor do que você é — ele disse, baixo. Mariana sentiu o coração apertar. De um jeito diferente agora. — O senhor fala como se fosse fácil. — Não é. Os olhos dele ficaram presos nos dela. — Mas eu não vou deixar isso acontecer aqui. Ela não sabia o que responder. Não sabia o que sentir. Só sabia que… Aquilo estava ficando perigoso. De outro jeito agora. Mais profundo. Mais difícil de sair. E quando percebeu… Já não era só tensão. Era algo começando a crescer. E nenhum dos dois parecia disposto a parar.
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