O cheiro de café fresco se espalhava pela cozinha quando Mariana terminou de arrumar a bandeja.
Pão, frutas, suco, café… tudo impecável.
Ela conferiu mais uma vez, mais por nervosismo do que por necessidade.
Ainda estava se acostumando com aquela casa.
Com aquele ritmo.
E principalmente… com ele.
A noite anterior não saía da cabeça dela.
O jeito que Miguel olhou.
A proximidade.
Aquela sensação de que alguma coisa podia ter acontecido… mas não aconteceu.
E talvez isso fosse ainda pior.
— Respira, Mariana… — ela murmurou pra si mesma.
Pegou a bandeja e seguiu até a sala de jantar.
Assim que entrou, viu Miguel já sentado à mesa.
Camisa social, mangas dobradas, expressão fechada como sempre.
Mas quando ele levantou os olhos e a viu…
Algo mudou.
Foi rápido.
Quase imperceptível.
Mas ela percebeu.
E isso já foi o suficiente pra bagunçar tudo de novo.
— Bom dia — ela disse, tentando parecer normal.
— Bom dia.
A voz dele saiu calma. Controlada.
Como se nada tivesse acontecido.
E talvez fosse melhor assim.
Mariana começou a organizar o café na mesa, evitando olhar muito pra ele.
Mas era impossível não sentir.
O olhar.
A presença.
A tensão.
— Dormiu bem? — ele perguntou de repente.
Ela hesitou por um segundo.
— Dormi.
— Tem certeza?
Ela levantou o olhar.
— Tenho.
Ele sustentou aquele olhar por um tempo a mais do que o necessário.
— Que bom.
Mas antes que qualquer outra coisa pudesse acontecer…
O som de saltos ecoou pelo ambiente.
E Mariana sentiu o corpo inteiro travar.
Ela nem precisou olhar pra saber quem era.
Olívia.
— Que casa silenciosa… chega a ser entediante — disse ela, entrando como se fosse dona de tudo.
Vestido elegante, cabelo impecável, perfume forte.
Tudo nela gritava superioridade.
O olhar dela passou rapidamente por Miguel… e parou em Mariana.
E ali ficou.
Frio.
Cortante.
— Então é você mesmo — disse, com um meio sorriso que não tinha nada de simpático.
Mariana abaixou levemente a cabeça.
— Bom dia, senhora.
— Senhora? — Olívia soltou uma risadinha. — Eu não sou velha o suficiente pra isso.
— Desculpa… bom dia.
Miguel observava tudo em silêncio.
— Eu vim tomar café com você — disse Olívia, puxando a cadeira ao lado dele, ignorando completamente Mariana por um segundo. — Ou isso também virou problema agora?
— Não — ele respondeu, simples.
Mariana continuou servindo.
Colocou o café na xícara de Olívia, depois na de Miguel.
Tentando ser invisível.
Mas Olívia não ia deixar isso acontecer.
— Você serve m*l — ela comentou de repente, olhando pra xícara.
Mariana parou.
— Desculpa?
— O café tá fraco. Ou você não sabe fazer ou não se deu ao trabalho.
— Eu posso fazer outro…
— Claro que pode. É o mínimo.
Mariana assentiu rapidamente.
— Já trago.
— E vê se faz direito dessa vez — completou Olívia, sem nem olhar pra ela.
Mariana pegou a xícara.
As mãos já começando a ficar trêmulas.
Quando virou pra sair, ouviu:
— Impressionante como você consegue colocar gente despreparada dentro da sua casa, Miguel.
Ela parou por um segundo.
Sem virar.
— Ela está aprendendo — ele respondeu.
— Aprendendo? Isso aqui não é escola.
Silêncio.
— E outra coisa… — Olívia continuou, agora olhando diretamente pra Mariana — tenta não ficar andando pela casa como se fosse parte dela. Fica f**o.
Aquilo bateu.
Forte.
Mariana sentiu o peito apertar na hora.
Mas respirou fundo.
— Com licença — disse baixo, e saiu.
Na cozinha, ela colocou a xícara na pia com mais força do que queria.
O coração batendo rápido.
A garganta apertando.
— Não… não agora…
Ela respirou fundo, tentando segurar.
Mas as palavras voltavam.
“Gente despreparada.”
“Fica feio.”
“Não é lugar pra você.”
Aquilo doía.
Mais do que deveria.
Mais do que ela esperava.
E quando percebeu… os olhos já estavam cheios.
Ela passou a mão rápido, tentando limpar.
Mas não adiantava.
— d***a…
A respiração começou a falhar.
E ela odiava aquilo.
Odiava se sentir fraca.
Mas era demais.
Ela saiu da cozinha e voltou até a sala de jantar, tentando manter o controle.
— Senhora… — começou, com a voz levemente falha — eu posso me retirar por alguns minutos?
Olívia ergueu uma sobrancelha.
— Já?
Mariana engoliu seco.
— Eu… não estou me sentindo bem.
Olívia revirou os olhos.
— Sensível.
Miguel olhou diretamente pra Mariana.
E viu.
Claro que viu.
Os olhos vermelhos.
O esforço pra não chorar.
E aquilo mudou completamente a expressão dele.
— Pode ir — ele disse, firme.
Mariana assentiu.
— Obrigada.
E saiu rápido.
Antes que não conseguisse mais segurar.
Assim que chegou na cozinha, não deu mais.
As lágrimas desceram.
Ela apoiou as mãos na bancada, abaixando a cabeça.
— Eu não vou chorar por causa dela… eu não vou…
Mas já estava chorando.
Baixo.
Contido.
Mas estava.
Alguns minutos se passaram.
E ela nem ouviu quando alguém entrou.
— Mariana.
A voz dele.
Ela fechou os olhos na hora.
— Eu tô bem…
— Não está.
Ela limpou o rosto rápido, virando de costas.
— É só… foi só um momento.
Miguel se aproximou.
Sem pressa.
— Olha pra mim.
Ela hesitou.
— Mariana.
Dessa vez mais firme.
Ela virou.
Os olhos ainda brilhando.
O rosto vermelho.
E completamente exposta.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
Observando.
— Ela não tem o direito de falar com você daquele jeito.
Mariana soltou um riso fraco.
— Tem sim. Esse é o mundo dela.
— Não dentro da minha casa.
Aquilo fez ela olhar direto pra ele.
— Mas eu sou só a funcionária.
— Não.
Ela franziu a testa.
— Não o quê?
— Não “só”.
Silêncio.
O ar mudou de novo.
Mas dessa vez… mais suave.
Mais próximo.
Mais… íntimo.
— Você não precisa aguentar tudo calada — ele continuou.
— Eu preciso desse emprego.
— E vai continuar tendo.
Ela abaixou o olhar.
— Eu não queria chorar por isso.
— Mas chorou.
Ela respirou fundo.
— Eu odeio isso.
— Por quê?
— Porque parece fraqueza.
Miguel se aproximou mais.
Mas dessa vez não tinha tensão pesada.
Tinha cuidado.
— Não é fraqueza.
Ela levantou os olhos devagar.
— Não?
Ele balançou a cabeça.
— É reação.
Silêncio.
Ele levantou a mão.
E dessa vez…
Tocou.
De leve.
No rosto dela.
Secando uma lágrima que ainda tinha ficado.
O corpo dela arrepiou na hora.
Mas não se afastou.
— Não deixa ninguém te fazer sentir menor do que você é — ele disse, baixo.
Mariana sentiu o coração apertar.
De um jeito diferente agora.
— O senhor fala como se fosse fácil.
— Não é.
Os olhos dele ficaram presos nos dela.
— Mas eu não vou deixar isso acontecer aqui.
Ela não sabia o que responder.
Não sabia o que sentir.
Só sabia que…
Aquilo estava ficando perigoso.
De outro jeito agora.
Mais profundo.
Mais difícil de sair.
E quando percebeu…
Já não era só tensão.
Era algo começando a crescer.
E nenhum dos dois parecia disposto a parar.