Intensidade

841 Palavras
Mariana ainda estava tentando sustentar o próprio argumento quando percebeu que Miguel não tinha recuado um centímetro sequer. Pelo contrário, a proximidade parecia proposital, calculada, como se ele soubesse exatamente o efeito que causava e decidisse usar isso a favor dele. O corpo dele estava perto demais, o calor atravessando o espaço mínimo entre os dois, e aquilo tornava cada palavra mais difícil de manter firme. — Isso não é justo — ela disse, mas a própria voz já não tinha a mesma força de antes. Miguel inclinou levemente a cabeça, observando ela com atenção, como se estivesse desmontando cada defesa que ela tentava levantar. — Justo seria eu fingir que nada aconteceu? — ele perguntou, baixo, mas firme. — Porque eu não vou fazer isso. Mariana respirou fundo, tentando ignorar o quanto o corpo dela reagia só com a proximidade, só com o jeito que ele falava, só com o olhar preso nela sem desviar. — Você devia pelo menos tentar. — Eu tentei — ele respondeu, aproximando ainda mais, a voz descendo um tom — hoje de manhã. Aquilo fez o estômago dela revirar, porque ela lembrava. Lembrava do jeito que ele segurou ela sem nem estar totalmente acordado, como se fosse instinto. — E não funcionou — ela disse, quase em um sussurro. — Não — ele confirmou, sem tirar os olhos dela — porque você saiu. O silêncio que veio depois não era vazio. Era carregado. Cheio de lembrança, de tensão, de vontade que nenhum dos dois estava conseguindo ignorar. Mariana tentou dar um passo pra trás, mas não tinha espaço suficiente. As costas encontraram a parede antes que ela conseguisse se afastar de verdade, e aquilo só piorou tudo, porque agora não tinha mais pra onde ir. Miguel percebeu na hora, claro que percebeu, e o jeito que ele olhou pra ela naquele momento mudou completamente. Ficou mais intenso, mais escuro, mais… decidido. Ele levantou a mão devagar, sem pressa, dando tempo pra ela recuar, mas ela não recuou. Não conseguiu. O toque veio leve primeiro, os dedos passando de forma lenta pelo braço dela, subindo até o ombro, como se testasse cada reação, como se quisesse sentir exatamente até onde ela aguentava. O corpo dela respondeu na hora, um arrepio claro, impossível de esconder, e isso foi o suficiente pra mudar algo nele. — Tá vendo? — ele murmurou, a voz baixa perto demais. — Você fala uma coisa… mas o seu corpo responde outra. Mariana fechou os olhos por um segundo, tentando recuperar o controle, mas quando abriu de novo ele ainda estava ali, ainda mais próximo, ainda mais presente. — Isso não prova nada — ela disse, mesmo sentindo que provava. Miguel aproximou o rosto devagar, sem tocar ainda, só deixando a respiração bater na pele dela, criando uma tensão que parecia pior do que qualquer contato direto. — Prova que você também quer. O coração dela disparou. — Isso não muda o fato de que é errado. — Você já disse isso. — E continua sendo verdade. Ele inclinou levemente a cabeça, o olhar descendo pelos lábios dela por um segundo antes de voltar. — E mesmo assim você não me mandou sair. Aquilo travou ela por um instante. Porque era verdade. Ela não mandou. Não conseguiu. Miguel deslizou a mão pela lateral do rosto dela, agora com mais firmeza, segurando de leve, o polegar passando devagar perto da boca dela, num gesto que não era inocente, que não tinha nada de distraído. Era intencional. Era provocação. — Você tenta manter distância… — ele continuou, a voz baixa, quase arrastada — mas não consegue sustentar. Mariana engoliu seco, sentindo o corpo inteiro em alerta, cada toque ampliado, cada segundo mais intenso. — Talvez eu esteja tentando não piorar a situação. — Ou talvez você só esteja adiando. O ar ficou pesado. Muito pesado. E dessa vez ela não respondeu. Porque não tinha resposta. Miguel inclinou o rosto mais um pouco, agora perto o suficiente pra que qualquer movimento mínimo virasse contato. Ele não beijou. Não ainda. E aquilo era proposital, ela percebeu na hora. Ele estava testando o limite, esticando o momento, fazendo com que a espera fosse quase insuportável. — Diz pra eu parar — ele murmurou, a voz quase um desafio. Mariana ficou em silêncio. Respiração irregular. Coração acelerado. E sem coragem nenhuma de dizer aquilo. — Diz — ele insistiu, ainda mais perto. Mas ela não disse. E foi isso. Foi o suficiente. Miguel fechou a distância de vez, beijando ela com intensidade, sem hesitação, como se já esperasse aquilo, como se soubesse que ela não ia impedir. Mariana respondeu na mesma hora, sem pensar, puxando ele pela camisa, o corpo colando no dele com uma necessidade que ela já não estava mais conseguindo esconder. O beijo não era leve. Não era controlado. Era quente, urgente, carregado de tudo que vinha sendo segurado até ali. E quando finalmente se separaram por falta de ar, nenhum dos dois deu um passo pra trás. Porque naquele ponto… ninguém mais queria parar.
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