O beijo não diminuiu.
Se aprofundou.
Como se nenhum dos dois tivesse mais paciência pra conter nada, como se tudo que vinha sendo segurado tivesse finalmente encontrado espaço pra sair. Mariana sentia o corpo inteiro responder, cada toque dele mais firme, mais decidido, sem aquela hesitação do começo. As mãos de Miguel não estavam mais testando limites — estavam assumindo controle, puxando ela pra mais perto, como se não existisse mais espaço pra dúvida.
Ela se deixou levar.
Sem cálculo.
Sem freio.
As mãos subindo pelo peito dele, sentindo a tensão, o calor, a respiração descompassada batendo contra a dela. O corpo dele colado, pressionando ela contra a parede, e aquilo arrancou dela um suspiro baixo que ela nem tentou esconder. Miguel percebeu. Claro que percebeu. E isso só deixou tudo mais intenso.
O beijo foi descendo de ritmo por um segundo, não por falta de vontade, mas como se ele quisesse sentir mais, explorar mais, arrastar o momento ao invés de simplesmente atravessar. A boca dele saiu dos lábios dela, descendo devagar pelo canto da mandíbula, pelo pescoço, e o corpo de Mariana reagiu na hora, os olhos fechando, a cabeça inclinando levemente pra dar espaço, como se já soubesse exatamente o que vinha.
— Você ainda acha que dá pra ignorar isso? — ele murmurou contra a pele dela, a voz baixa, rouca, carregada.
Mariana tentou responder, mas o ar falhou no meio do caminho.
— Isso não… — ela começou, mas não terminou, porque o toque dele interrompeu qualquer raciocínio.
Miguel voltou a encarar ela, segurando o rosto dela com firmeza, fazendo ela olhar direto pra ele.
— Você fala que quer parar, mas não se afasta. Fala que é errado, mas responde. — Ele aproximou o rosto de novo, quase tocando. — Até quando você acha que vai conseguir sustentar isso?
O coração dela batia forte demais pra qualquer resposta coerente.
— Eu tô tentando…
— Eu sei.
Mas o jeito que ele disse aquilo não tinha nada de incentivo pra ela parar.
Pelo contrário.
A mão dele deslizou pela cintura dela, puxando de volta, firme, fazendo o corpo dela reagir de novo, sem resistência. O beijo voltou, ainda mais intenso, mais profundo, como se cada segundo aumentasse a necessidade, como se nenhum dos dois estivesse mais disposto a interromper aquilo.
Mariana sentiu o controle escapando de vez.
Não era mais só atração.
Era entrega.
Era escolha.
Mesmo sabendo que não devia.
As mãos dela se prenderam nele com mais força, puxando, sentindo, sem pensar no depois, sem pensar em consequência nenhuma. O corpo dela colado ao dele, reagindo a cada movimento, a cada toque, a cada respiração mais pesada.
E então—
O som.
Passos no corredor.
Próximos.
Muito próximos.
Os dois congelaram por um segundo.
Foi rápido.
Mas suficiente.
Miguel reagiu primeiro.
Se afastou na mesma hora, passando a mão pelo rosto, respirando fundo como se tivesse acabado de sair de uma situação completamente diferente, e segurou o braço dela com firmeza, não pra puxar de volta — mas pra posicionar.
— Fica aqui — ele murmurou baixo, rápido.
Antes que ela entendesse completamente, a porta se abriu.
Olívia.
O olhar dela percorreu o quarto no mesmo instante, atento demais, desconfiado demais.
— Eu bati — ela disse, entrando sem pedir permissão, os olhos indo direto pra Mariana — mas acho que vocês não ouviram.
O coração de Mariana disparou.
Mas ela não abaixou a cabeça.
Não dessa vez.
Miguel já estava completamente diferente. Postura controlada, expressão neutra, como se nada tivesse acontecido segundos antes.
— O que foi, Olívia? — ele perguntou, calmo demais.
Ela cruzou os braços, olhando de um pra outro, claramente analisando.
— Eu podia fazer a mesma pergunta.
O silêncio ficou pesado.
Mariana sentiu o corpo inteiro em alerta, cada detalhe podendo entregar tudo — o cabelo levemente bagunçado, a respiração ainda fora do ritmo, o calor na pele.
Mas Miguel não deu espaço.
— Eu pedi pra ela revisar algumas coisas da casa — ele respondeu, simples, direto, como se fosse óbvio.
Olívia ergueu levemente uma sobrancelha.
— No seu quarto?
— Eu estava aqui.
A resposta veio firme.
Sem hesitação.
Ela não desviou o olhar.
— Engraçado… — murmurou, andando alguns passos pelo quarto — você nunca trouxe funcionária nenhuma pra cá.
Miguel deu de ombros, tranquilo.
— Sempre tem uma primeira vez.
Aquilo fez o olhar dela apertar um pouco.
Mas não o suficiente.
Ela se virou pra Mariana.
— E você? Tá se adaptando bem?
A pergunta parecia simples.
Mas não era.
Mariana sustentou o olhar.
— Estou fazendo meu trabalho.
Olívia ficou alguns segundos em silêncio, analisando, como se tentasse encontrar alguma falha, algum detalhe fora do lugar.
Mas não encontrou.
Ou não o suficiente.
— Espero que continue assim — disse por fim, com um leve sorriso que não chegava nos olhos.
Ela voltou a olhar pra Miguel.
— A gente precisa conversar depois.
— A gente conversa.
Mais um segundo de silêncio.
E então ela saiu.
A porta se fechou.
O ar voltou.
Mas pesado.
Carregado.
Diferente.
Mariana soltou o ar que nem sabia que estava prendendo, passando a mão pelo cabelo, ainda sentindo o coração acelerado.
— Ela quase…
— Não pegou — Miguel cortou, firme.
Ela virou pra ele.
— Mas vai.
O olhar dele encontrou o dela.
Intenso.
Sem negar.
— Só se a gente deixar.
O silêncio voltou.
Mas agora era outro tipo.
Não era só desejo.
Era risco real.
E isso só tornava tudo…
ainda mais perigoso.