Eu achei que a primeira noite como divorciada seria um verdadeiro pesadelo regado a muita angústia. Porém, para a minha surpresa, eu quase não senti diferença. Eu lembrava que o meu ex-marido quase não dormia mais em casa, então, indiretamente ele me preparou para sua ausência. Nem tudo precisa ter só um lado r**m*.
Já se aproximavam das quatro e meia da tarde quando eu me sentei no sofá, me repudiando por ter aceitado o convite de uma desconhecida que conheci no parque. Um convite para tomar café na CoffeBreath.
Mierra me parecia muito agradável, espontânea, aquele tipo de pessoa que se gosta facilmente. Contudo, a CoffeBreat é um point na cidade, onde quase toda a cidade vai, incluindo advogados do escritório do meu ex-marido. As chances de esbarrar com Roger por lá seriam enormes. Eu não queria encontrá-lo. Talvez ele até já estivesse perambulando por aí apresentando sua nova mulher na roda de colegas.
Estou saindo de casa. Passo aí em meia hora para te buscar. Então, não há como desistir do nosso café.
Eu li a mensagem no meu celular e sorri, como se Mierra tivesse lido meus pensamentos. Eu disse, Mierra era o tipo de pessoa fácil de se gostar.
Essa mensagem me deixou com algum ânimo. Eu não posso me resguardar só porque meu marido pediu o divórcio e porque temo encontrá-lo por aí. Eu já havia dito a mim mesma que não deixaria amizades de lado por conta de Roger. Logo, nada de quebrar a primeira regra que estabeleci para mim mesma no meu primeiro dia livre.
Aliás, por falar nisso: divorciada é um termo muito démodé. Eu prefiro: liberta.
Ajeitava meu pingente no pescoço quando ouvi o barulho de um motor de carro parando em frente de casa. Olhei pela janela do meu quarto e a vi parada lá embaixo dentro de um carro conversível vestindo óculos de sol. Mierra me viu na janela. Fiz sinal de que iria descer ao primeiro piso para recebê-la.
"Entra" eu disse.
"Uau. Você tem uma casa e tanto" Falou ela tirando seus óculos para pendurar na gola da camisa.
"Obrigada"
"Mora sozinha aqui?" Mierra olhava para o entorno.
"Agora eu moro. Estou em um processo de divórcio"
Na verdade, nem tem vinte e quatro horas, mas minha nova amiga não precisava saber disso.
"Ah, desculpe. Parece ser um tema delicado para você"
"Tranquilo"
Gostei da sensibilidade dela ao notar meu desconforto.
"Vamos?"
"Não quer tomar nada?" Perguntei.
'Tá de brincadeira? Eu quero beber meu capuccino e ver se essa cafeteria é tudo isso que você disse. Bora"
'Vamos. só deixa eu ver se tranquei a porta dos fundos"
Faz todo sentido me preocupar com coisas desse tipo. Não queria nenhum maníaco* na minha casa me esperando quando eu voltasse.
A CoffeBreath é um desses lugares pequenos com uma decoração colorida e aconchegante. Não estava cheia (para o meu alívio) e meus pulmões se expandiram com mais facilidade quando não havia qualquer sinal de Roger por ali.
"Eu levo vocês a mesa"
Uma atendente que vestia uma espécie de cap e avental com flores, nos levou até uma mesa para duas pessoas perto da janela.
"O que vão querer?"
Ela retirou um bloco de notas do bolso do avental.
"Cappuccino, tradicional sem açúcar" Mierra não hesitou correndo com o dedo pelo menu.
"Eu quero o chá gelado de hortelã e gengibre" Falei.
"Pode colocar algumas gotas de limão?"
"Claro, por favor" Respondi.
Pela janela eu podia ver o sol se escondendo atrás de uma pequena cadeia de montanhas que cercavam minha cidade. Os raios de sol tingiam o céu de laranja e amarelo. Um crepúsculo agradável.
A atendente recolheu os cardápios e de maneira gentil disse que nossos pedidos sairiam em breve.
-- Mas não é só você que deixou um homem para lá, Sam.
Era o contrário, Roger me deixara, mas também se tratava de um detalhe que não faria diferença ali.
-- Está se divorciando? -- Perguntei, não dando espaço para que ela fizesse algum questionamento e eu virasse o foco do assunto.
-- Na verdade, já me divorciei. Pedi para fazer esse trabalho ao meu chefe porque sabia que poderia viajar pelo interior de São Paulo, deixando meu ex-marido bem longe lá no Rio de Janeiro. Ele não aceitou muito bem o nosso término.
As nossas bebidas chegaram.
-- Como assim não superou o término? -- Traguei um gole do meu chá.
Sem açúcar e sem nada. O gosto de gengibre com hortelã refrescou a boca e depois a garganta. A leve acidez do limão dava um toque especial
-- Ele me segue nos lugares. Precisei até de uma medida restritiva contra ele. Estava demais - Respondeu.
O capuccino de Mierra exalava um odor suave de canela. Ela elogiou a bebida logo após o primeiro gole.
-- Psicopata?
-- Não -- disse ela rindo do meu exagero -- Bem, longe disso. Ele é um cara bom. Mas precisa aceitar o fim.
-- E porque terminaram?
Mierra balançou a cabeça com certa indecisão, de quem pensava em uma boa resposta.
-- Hummm... Acho que vou me abster de uma resposta... como você fez mais cedo.
-- Justo -- eu disse.
-- Mas por hora, aqui eu acho que vou ter um pouco de paz.
Ao dizer isso, eu ouvi o sininho tocar quando alguém empurrou a porta ao entrar.
Um homem alto, de cabelos pretos na altura dos ombros estava parado com um olhar perdido. Ele vestia uma camiseta preta e calça jeans. Ele é forte e bonito. Mais de trinta anos, talvez.
Ele olhou para um lado. Nada. Para o outro, nada também. Até que sua visão acertou a nossa mesa e um entusiasmo fez o estranho tomar impulso, caminhando para onde estávamos.
-- Encontrei você finalmente -- disse ele olhando Mierra com um sorriso.
-- Hum... -- Mierra bebeu o chá -- Marcos. Dessa vez foi mais rápido do que eu esperava-- Ela parecia nem um pouco surpresa -- Sam, esse é meu ex-marido de quem há pouco eu falava.
Tentei evitar um ar de espanto. Quais as chances daquilo acontecer?
-- Oi ´Falei o cumprimentando.
-- Oi -- disse ele. Depois voltou a atenção para a Mineira -- Podemos conversar?
-- Não.
-- Sabe que precisamos, Mierra.
-- Medida restritiva em todo território nacional. Está quebrando -- ela disse com toda calma.
Eu estava ali, entre os dois. Sendo menos sutil, eu sobrava ali.
-- Com licença, vou fazer uma ligação. Volto em um instante.
-- Não precisa sair se não quiser, Sam -- Disse Mierra.
-- Eu preciso mesmo fazer uma ligação. Fica tranquila.
Assim que saí, eu vi Marcos se sentar em meu lugar., Mierra não alterou o tom de voz e nem a fisionomia um segundo sequer.
Pensando bem, um pouco de ar fresco me faria muito bem. Deixaria os dois se resolverem. Diferente de mim e Roger, Marcos e Mierra pareciam ter uma química interessante.