Era como se tudo na minha mente tivesse travado feito uma tela de computador cheio de vírus, escrito "loading". Pisquei algumas vezes para ter certeza de que meu casamento havia acabado mesmo. E de fato o carro de Roger não estava lá. Ele se fora.
Meu celular começou a tocar no meu quarto. As garrafas de cerveja dentro da sacola poderiam esperar um pouco até jogá-las no lixo.
A palavra Mãe escrito no visor da tela (identificando a chamada) não foi a coisa mais agradável de se ler. Mamãe adora Roger e ela foi uma das -- senão a maior -- incentivadora do meu casamento com ele. E preferi acreditar por todo esse tempo que não era por causa do dinheiro dele aquela vontade* toda da mamãe em fazer meu casamento com Roger acontecer (e pensando bem, não haveria outra razão). Roger e mamãe tem a mesma conexão que um fã de crepúsculo e uma ávida leitora de Machado de Assis.
-- Alô.
-- Que demora. O que estava fazendo que não atende esse celular?
-- Ajeitando a casa. Aconteceu algo?
-- Se esqueceu de que eu estarei aí amanhã cedo para o nosso almoço?
Me esqueci completamente daquela visita. E não poderia vir em pior momento.
-- Ah, claro. Lembro. Claro que lembro.
-- E Roger? Como está?
Meu coração acelerou. Eu sou uma péssima mentirosa.
-- Ele está no escritório do pai dele, eu acho.
-- Em um sábado?
-- Ele não costuma me dizer muito quando sai. Eu já te disse! -- Essa parte não era mentira.
-- Ah, então não o amole com isso. Roger é um genro exemplar, um marido que qualquer mulher gostaria de ter.
A imagem dele me traindo dentro da nossa própria casa voltou como um vulto em slide na minha mente.
-- É.
-- Você tem sorte, minha filha.
-- Não sabe o quanto.
-- Amanhã nos vemos. Devo chegar pela manhã.
-- Eu espero a senhora.
-- Beijos.
-- Tchau, mãe.
Eu deveria ter dito tudo. Todavia, estava na mesma situação que sempre me deparei em diversos momentos da minha vida: eu precisava da aprovação da minha mãe para quase tudo. E pior: não sabia até quando duraria aquela ligação. Apenas posso dizer que ela ficaria extremamente desapontada ao saber que Roger e eu não éramos mais casados.
Conforme a adrenalina pela ligação da mamãe fora diminuindo, eu sentia um certo vazio, uma sensação de abandono. Amava meu marido, e aos poucos a ficha caia de que de agora em diante seria apenas eu naquela casa gigante, onde antes eu acreditei que envelheceria com Roger ao meu lado após ver nossos filhos crescerem. Tudo acabado,
Aceite, oh, Samantha.
Ou não!
O que há de errado em mim?
Ajeitei o espelho de corpo e uma análise minuciosa foi iniciada mirando minha aparência. Talvez uns quilos a mais após todos esses anos casada sem fazer atividade física fosse uma bela razão para meu marido decidir me deixar. Não posso dizer que Roger me proibia de frequentar uma academia ou sair para correr, mas ele sempre mudava de humor quando eu experimentava algo do tipo, de modo que não foi necessário ele me dizer diretamente que não aprovava. Respirei fundo e fiz uma associação direta.
Nada de academia ou exercício por enquanto, pensava.
Os cabelos estavam com as pontas longas e precisava de um corte urgente. A raiz castanho escura já estava uns quatro dedos avançando sobre a tinta de um ruivo desbotado que tingia os fios. Há alguns meses que o mantinha preso em um r**o* de cavalo para evitar vê-los daquele jeito. Claro que eu pensava em dar um t**a* no visual, porém quando comentei com Roger, ele não fez muita questão, disse que não era preciso. Contudo... Caso eu quisesse era só pegar o cartão de crédito dele e ir ao salão mais próximo.
Roger era sempre sutil. Ele se fazia ser entendido (e por que não obedecido?) sem precisar dizer muita coisa. E eu era uma ótima leitora de linguagem não verbal.
Por fim, mas não menos importante, em uma análise minuciosa a que eu me submeti, terminei por avaliar as minhas roupas. Um casaco leve bege por cima de uma regatinha branca. Jeans levemente folgado no quadril. Jeans gasto, claro.
"Você não é f**a, apenas se veste m*l*, meu bem" Dizia minha mãe sempre que podia. "Se não der um jeito nessa aparência seu marido acabará traindo você"
Eu não acho que um homem vá trair sua esposa pelo simples fato dela não se vestir como uma modelo de capa revista (e no caso de Roger, ele parecia realmente não se importar). Mas quando sua mãe -- de quem você busca aprovação desde muito nova -- diz isso, essa ideia martela na sua cabeça e aos poucos vai parecendo ser uma justificativa muito convincente para seu marido te deixar.
"Eu deveria ter insistido. Eu deveria ter mudado meu visual mesmo ele me dizendo que não era preciso. Eu não entendi nas entrelinhas"
Ao pensar nisso, meu bateu um arrependimento por algo que eu não fiz, como se a culpa fosse somente minha.
Sentei na cama e comecei a chorar, como se o ar fosse faltar. Apesar de ser uma grande casa, ali dentro eu começava a me sentir completamente sufocada.
As tarefas domésticas não foram suficientes para me fazer parar de sentir a garganta estrangular*. Separei as guimbas de cigarro e varri as cinzas do assoalho. Todo o lixo foi muito bem colocado na lixeira maior do lado de fora.
A casa estava limpa, e isso me deixou mais incomodada. Estava do jeito que meu marido gostava. Meu ex-marido, agora.
Não há mais nada para fazer, não há jantar com que se preocupar. Não precisaria esperar por um marido e tentar agradá-lo. Roger não chegaria do trabalho jogando os sapatos sociais de couro pelos ares enquanto desatava o nó da gravata e ia para o banho após me pedir que preparasse algo para ele comer.
Sozinha.
Fiz um pequeno lanche antes de pegar meu livro e chamar um carro de aplicativo em direção ao parque central, perto de onde fica um dos hotéis Monroe.
O parque era muito bem cuidado desde que o atual prefeito assumiu o cargo no começo do ano. Fazia tempo que não ia até ali. Por ser um sábado de tarde, estava cheio, com várias famílias reunidas sob mantas estendidas no chão, ou com crianças correndo para todos os lados e seus pais os perseguindo em uma brincadeira divertida.
A princípio eu ri enquanto assistia a cena. Pisquei algumas vezes ao confundir um dos homens que corria atrás do filho com Roger, a angústia voltou como uma dor aguda, latejante. Reconsiderava a ideia de ter ido ao parque como sendo boa. Porém, pondo na balança, a sensação de tristeza seria pior dentro de casa (onde qualquer coisa lembraria Roger) que naquele parque.
Eu sou do tipo que me apego a pequenos gestos bondosos que o universo pode te dar diante de uma situação como aquela que me encontrava. E esse gesto era um banco vazio todinho para mim embaixo da copa de uma árvore alta, uma sombra convidativa. Conseguir um banco daqueles em um sábado não é uma tarefa simples, até me aproximei com receio, temendo que alguma pessoa me interrompesse, dizendo que o banco já estava ocupado.
Mas ninguém surgiu. Eu me sentei com estranheza. Passei algum tempo observando o movimento no parque até abrir meu livro e retomar minha leitura de onde havia parado.
-- Oi, licença!
Uma moça alta, esguia, vestindo uma saia xadrez, blusa de gola alta e coturno nos pés sorria largamente. Seus cabelos curtos a faziam parecer uma parisiense de filme.
-- Desculpe, você estava aqui? -- Perguntei.
-- Não, fica tranquila -- disse a estranha -- Na verdade eu queria saber se posso me sentar aqui também. Eu não achei nenhum banco livre"
-- Ah claro -- suspirei aliviada -- Fique a vontade*.
Cheguei mais para a esquerda liberando espaço para que a moça se sentasse.
-- Mierra, prazer! -- Ela estendeu a mão.
-- Como?
-- Mierra. É diferente, eu sei. E nem me pergunte de onde meus pais tiraram esse nome que eu não faço a menor ideia.
-- Mierra. Um... é bonito. Prazer*, eu sou Samantha. -- Apertei a mão dela.
-- O que você está lendo?
Ela inclinou a cabeça para ver a capa. Eu fechei o livro usando o dedo para marcar a página que eu estava.
-- Asaloom! -- eu disse.
-- Que nome estranho. Igual ao meu. Fala de quê?
-- Xii... -- Ri constrangida -- É sobre um bruxo e uma professora de biologia recém separada do marido.
Só quando a estranha me perguntou que eu me dei conta de retomar aquela leitura me causaria gatilhos.
-- Tem cara de ser sombrio.
-- Um pouco. -- disse.
Sombrio. Minha vida estava sombria naquele instante.
Eu contei um pouco mais sobre a leitura e do meu fascínio por coisas místicas e esotéricas. Mierra pareceu animar-se.
-- Vou até anotar aqui. A sinopse parece interessante e a capa... Meu Deus, se for esse o bruxo que tá na capa, eu devo dizer que tô até chorando e não disse por onde. -- Mierra a notou o nome do livro em seu bloco de notas pelo celular.
-- Você não é daqui, não é? -- Perguntei
-- Não. Culpa do meu sotaque. Me entrega de cara.
-- Muito. -- Eu ri.
-- Sou do Rio de Janeiro. Cheguei há duas semanas aqui. Eu sou repórter de um jornal de lá. Estamos fazendo uma matéria sobre grandes hotéis. Aí eu vim pra cá cobrir um evento que vai ter nesse hotel aí. -- Ela apontou com a cabeça para o Hotel Monroe suntuoso logo a nossa frente.
-- Ah sim. Interessante. Eu nunca entrei nele. só gente muito rica vai ali.
-- Eu sei, Samantha. Sei bem. E acho que não teria como ir se eu não fosse da imprensa. Mas sabe o que mais me estranha? É ter um hotel de luxo desse porte em uma cidade pequena como essa.
Meus olhos brilharam. Alguém disse algo que eu sempre pensei. Havia feito essa observação uma vez ao Roger, mas ele apenas disse que era algo irrelevante, dando a mínima importância.
-- Nossa, eu sempre olho pra ele e penso exatamente isso: pra que um hotel dessa proporção? Aqui?
-- Ah, mas sabe, Samantha? Não é só aqui não, viu?
-- Pode me chamar de Sam -- Falei.
A conversa com Mierra estava agradável. Roubou minha atenção da leitura.
-- Então, Sam. Eu andei viajando e essa rede de hotéis Monroe tem vários espalhados pelo Brasil, a maioria em cidades pequenas.
-- Alguma explicação? -- Indaguei.
-- U-um. Nenhuma. É assim porque é. Vai ver esses CEOs milionários estão vendo algo que a gente não tá, pra gastarem milhões em hotéis que não devem atingir nem dez por cento de ocupação em alta temporada.
-- Gente rica tem cada uma, não é?
-- E como, Sam. Escuta, eu tenho um total de zero amigas aqui. Sabe me dizer se aquela cafeteria no centro da cidade é boa?
-- A CoffeBreath?
-- Tem outra?
-- Acho que não. Não mesmo. Só essa.
-- Então, É boa?
-- Eu sou suspeita para falar. Adoro o chá gelado deles.
-- Hum, eu tô pensando em ir lá amanhã pela tarde. Por que não vem me fazer companhia?
-- Eu?
Minha pergunta era no sentido de que não saio de casa com alguém que não seja o Roger tem sete anos. Seria automático pra mim dizer não.
-- É, você. Ou seus pais não deixam? -- Brincou.
-- Eu... Moro sozinha. -- Disse brevemente -- Que horas está pensando em ir, Mierra?
-- Pode me chamar de Mi . Bem, acho que umas cinco horas. Pegar o pôr do sol. O que acha?
-- Fechado -- assenti com a cabeça -- Te encontro lá.
-- Passa seu telefone. Eu te chamo no whats, pode ser? Eu não vejo problema em passar na sua casa e pegar você. Meu chefe me deu uma grana extra para que eu pudesse alugar um carro.
-- Ah, que chique. Anota meu número.
No final, eu não li o livro mesmo. Fiquei conversando uma infinidade de coisas banais com Mierra, o que me permitiu esquecer o fardo que seria a separação do meu então marido.
Amizade. Eu havia me esquecido de como era bom ter alguém para falar de coisas femininas e alguém que me entendesse. Mierra em pouco mais de uma hora parecia ser essa pessoa. Inclusive, uma pessoa mais interessante que Roger conseguiu ser esse em todos aqueles anos.
Investir mais em amizades e sobretudo não abrir mão delas em prol de um relacionamento, como fiz durante meu casamento com Roger.
Era a minha nova meta de vida.