O sol da manhã lambendo* meu rosto era como se meu rosto fosse um ovo sendo frito em uma frigideira pelando.
Meu ímpeto foi me levantar e sair praguejando até fechar a cortina que eu mesma esquecera de puxar antes de dormir. A culpada era eu por meu quarto estar banhado em uma luminosidade clara e quente logo às oito da manhã.
A culpada sou eu.
Culpa.
Roger.
Como uma fita sendo rebobinada ou um vídeo acelerado, as memórias da noite anterior desceram pela minha mente, como uma comporta de uma represa aberta. Até a imagem do meu marido transando* com uma estranha na sala de nossa casa ficar estática em meu campo de visão imaginário.
Não era a claridade que me incomodava, ou o calor dos raios de sol bronzeando a pele do rosto. Era o fato de ter despertado naquela manhã que me causava um verdadeiro nó no estômago. Despertar significava que eu deveria encarar a verdade.
Olhei para mim mesma no espelho de corpo ao lado da porta do banheiro. Meu cabelo solto desgrenhado, com fios revolto. Dormira de robe. O laço estava frouxo, então desfiz a amarração e atei um nó outra vez, deixando firme em volta da cintura.
Alguma hora eu deveria descer até a sala, para comer algo. Mas estava com medo de ver Roger preparando um lindo café da manhã para sua amante nova. O que eu diria?
Havia um completo silêncio na casa. Nada pelo corredor até acessar o parapeito da escada. Uma breve olhada para o nosso sofá: vazio. Eu suspirei aliviada.
Ao descer os degraus em direção ao andar inferior, sentia o cheiro de nicotina impregnado no ar. Roger nunca me disse que fumava (e eu nunca o vi fumando). Talvez fosse a amante. Bem provável que fosse. Eu até conseguia criar na minha mente a imagem dela oferecendo um cigarro ao meu marido e ele aceitando apenas para agradá-la. Um trago desajeitado, boca cheia de fumaça e depois tosse devido a falta de hábito de Roger em fumar.
Sacudi a cabeça afastando esses pensamentos. Se eu pediria o divórcio, Roger não era mais problema meu.
Um certo asco ou nojo tomava conta de mim conforme caminhava pela mobília da sala, como se tudo ali fosse muito sujo, eu me sentia acessando um esgoto no centro da cidade, onde todo o tipo de dejeto ia parar. E a alusão não é de toda r**m*: Roger havia vilado* um espaço que sempre considerei sagrado: o nosso lar. O lar que juramos proteger no dia em que nos casamos. E se tivéssemos filhos? Como eu poderia me sentar no chão daquela sala sabendo que o pai das crianças transou* com outra bem ali?
DIVORCIO.
Era a palavra que piscava em minha mente.
Ao lado do nosso sofá branco estava um prato de vidro transparente sobre o piso. Era um cinzeiro improvisado. Havia muitas guimbas ali dentro, alguma caída ao lado do prato rodeado por cinzas salpicando o piso de madeira marrom envernizado. Me agachei perto do prato e notei um dos filtros da guimba marcados com batom vermelho ou rosa. Estria de lábios impressos como digital no papel branco do filtro.
Me sentindo uma perita criminal do CSI (aquela série de TV), eu peguei a guimba por entre meus dedos feito pinça, e estudei o artefato do 'crime'. Era uma prova, caso meu marido quisesse mentir, o que imaginei que ele faria. A separei com todo nojo do mundo pondo em cima da mesinha de centro.A mesa de centro, por sua vez, estava repleta com garrafas de cerveja long neck, algumas ainda cheias pela metade.
As juntei próximo ao cinzeiro improvisado para quando retornasse da cozinha e recolhê-las.
Em seguida caminhei pela sala, no sentido de acesso a cozinha. Perto da estante senti um cheiro suave de perfume feminino. Uma breve olhada pelo móvel foi o suficiente para encontrar um sutiã de renda preto enroscado em um quadro que ficava na terceira prateleira.
Da distância do sofá até onde o sutiã se encontrava, deveria ter sido necessário um arremesso e tanto.
Acho que eu comecei a pensar nessas coisas e calcular distâncias para afastar das minhas ideias o fato de que eu fui traída dentro da minha própria casa. Quem, pelo amor de Deus, pensaria sobre as leis da física em uma arremesso de sutiã?
Finalmente fui à cozinha. Peguei duas ou três sacolas de supermercado do bolo de outras muitas que haviam acumuladas ali na gaveta abaixo da pia, procurei pelo pegador de macarrão e voltei à sala. O sutiã eu pincei com o pegador de macarrão. Após inspecioná-lo (como mais uma prova) o coloquei dentro de um dos sacos plásticos. Dei um nó e deixei sobre a estante. Depois o deixaria na lavanderia dos fundos de casa. Talvez a amante fosse querer de volta.
As garrafas eu coloquei todas dentro de uma sacola. Calculei que não fosse aguentar o peso, então revesti com mais uma.
Dei uma balançadinha no ar, e tive certeza que duas sacolas eram suficientes para sustentar todas as garrafas.
-- Oi.
Eu me virei e vi Roger parado perto da soleira da porta de casa. Ele tirava a mão do trinco. Estava com os cabelos desgrenhados, a gola da camisa social azul, levantadas feito a capa de um vampiro e uma cara de quem aparentava não dormir há dias (e como ele raramente parava a noite em casa talvez fosse isso mesmo).
-- Oi -- Respondi dando um nó na sacola com as garrafas.
-- É... Como você está?
Eu teria uma centena de palavrões para falar. Seria inútil gastá-los com meu futuro ex-marido.
-- Dando um jeito na sala. Talvez eu passe o aspirador no carpete hoje. Você gosta dele muito bem limpo, não é?
Roger sentiu minha alfinetada como se fosse uma ponta de agulha espetando o dedão do pé.
-- Precisamos conversar.
-- Diga -- eu disse impaciente caminhando para a cozinha.
-- Eu quero o divórcio.
Isso doeu. Doeu mais do que ser traída, talvez. Eu havia separado o sutiã e a guimba de cigarro com o batom. Eram vestígios que usaria contra Roger quando ele fosse implorar pelo meu perdão, dizendo que eu sou o grande amor da vida dele e que quer que eu seja a mãe dos seus filhos. Eu sairia triunfante, dizendo que o perdoava, mas que cada um deveria seguir seu caminho.
Era meu golpe de misericórdia. Ao menos me restava esse resquício de dignidade,
Que Roger me tirou facilmente.
-- Hum... Pode ficar com a casa, Sam. Ela é sua. Tudo que tem aqui é seu também. Meu advogado vai te ligar para resolvermos tudo. Não vai ficar desamparada.
Roger dizia isso diante do meu silêncio enquanto eu parava no meio do caminho em direção a cozinha.
-- Ok. -- Eu teria gaguejado se tivesse dito algo além disso.
-- Certo. Vou recolher algumas coisas e... Boa sorte, Samantha. -- Disse saindo apressado pelos degraus rumo ao andar superior.
Roger não levou mais do que dez peças de roupa dentro de uma pequena mala de mão que ele usava para viajar entre São Paulo e Rio, ou outra cidade de distância menor (Roger é advogado na empresa do pai dele, por isso viaja muito).
-- As chaves.
-- Que chaves? -- Perguntou ele parado na porta de saida.
-- Da casa, Roger.
Ele sorriu, com estranhamento.
-- Eu ainda vou precisar buscar algumas coisas aqui. Será mais fácil se eu ficar com uma cópia.
-- Eu embalo tudo o que quiser. Só me mandar mensagem. Se a casa é minha e você vai embora, eu quero que me dê as chaves.
-- Não precisa ser assim, Sam.
-- As chaves.., -- Estendi a mão para ele, bancando a irredutível.
Impaciente, Roger enfiou a mão no bolso, e tirou um molho de chaves. Em seguida destacou a chave da porta.
-- Aqui está. -- ele colocou na palma da minha mão.
-- Falta a da porta dos fundos. -- Lembrei sem encará-lo.
Se eu cruzasse meu olhar com o dele, desabaria em choro.
-- Está na porta. Eu não levei ontem. Mais alguma coisa?
Sacudi a cabeça.
-- Não.
-- Então Adeus, Sam.
-- Adeus, Roger.
A porta se fechou rapidamente. Meu marido desapareceu por ela. Sete anos da minha vida indo pelo ralo. Sete anos que me dediquei a um homem que acordou um belo dia e resolveu que eu não servia mais para ele.
Corri para a janela da cozinha. O carro dele estava lá. Roger ligou os motores e saiu uma fumaça cinza pelo escapamento. Ele não me viu. Pisou no acelerador e sumiu na primeira curva. Talvez para sempre.