CAPÍTULO 1

998 Palavras
Um barulho estranho me despertou em um susto, como se eu tivesse acabado de acordar de um pesadelo. Eu sei que era um pesadelo, mas não lembrava sobre o que era. Suava horrores em cima da minha cama. Ao me virar para o lado, notei que estava dormindo sozinha. Alisei o lençol (aparentemente intocado) e reparei a fronha do travesseiro sem qualquer sinal de que alguém havia estado ali e amarrotado o tecido de algodão. Roger outra vez estava varando a madrugada fora de casa. O barulho que me despertou inicialmente retornou. Parecia como se uma pessoa estivesse tropeçando na mobília lá embaixo na sala. Meu coração logo gelou e senti um frio na espinha. A casa que Roger havia comprado para morarmos depois do casamento era extremamente grande e sempre achei um exagero. Pelo fato do imóvel ser gigante, certamente algum ladrão* pensaria haver algo de valor na casa (e de fato há). O problema é que o tamanho dela e o fato de Roger não estar em casa me deixavam com a sensação de estar ainda mais sozinha. Mas passado o medo inicial, meu coração me dizia que não havia nada de perigoso ali. Apenas algo de errado, como eu descobriria. Vesti meu robe de seda ao transitar pelo corredor de casa e o barulho ficou cada vez maior, mas agora não eram mais sons de tropeços ou chutes em algum móvel. Era um burburinho, de conversa. Duas pessoas conversando de maneira muito amistosa, pareciam divertir-se. -- Vem por cima, vem -- disse uma voz grave, de alguém que havia bebido algumas doses de álcool. -- Sua mulher pode escutar -- era uma voz feminina. Meu coração disparou. O suor frio nas costas voltou. Era Roger, e ele estava na companhia de uma mulher. -- Não, aquela lá está dormindo agora, não deve acordar por nada. -- Se você está dizendo, benzinho. -- Agora vem, vamos que eu vou te mostrar o que é bom de verdade, mocinha. Os meus movimentos ficaram mais sutis, e eu segurei a respiração o máximo que pude para não fazer barulho. E queria ver com meus olhos o que acontecia na sala da minha casa. Porém, era uma confirmação, pois até a mais burra e ingênua das esposas decidiam apenas por aquilo ou que de fato Roger fazia com uma desconhecida . -- Vai devagar, bebê -- protestou a moça seguindo-se uma risadinha aguda e irritante. -- Eu vou ser carinhoso, não se preocupa, meu benzinho. O parapeito que separava o corredor de acesso da escada, de uma queda de mais de cinco metros já me era visível, e por entre as grades de madeira, eu via, lá no sofá da sala, algo que meu coração simplesmente não queria acreditar. Roger estava com uma moça loira sentada em seu colo, de frente para ele. Acho que nunca vou me esquecer da cena: Roger subindo com suas mãos pela coxa dela e elevando a bainha do vestido preto. A imagem da nossa aliança de casamento reluzindo na mão esquerda dele me fez querer chorar ali mesmo, mas me contive. Meus pensamentos me levaram até o dia do nosso casamento, a igreja cheia, os convidados felizes e sorrindo para mim enquanto eu caminhava com um buque de lirios em direção ao altar. Eu era muito jovem quando Roger me pediu em casamento aos meus pais, tinha dezoito anos. hoje, sete anos depois, olhando para trás, eu sei que todos os sinais de que ele seria um marido displicente, estavam ali. Mas ele é um príncipe, filha. Só não é perfeito, mamãe me disse quando relatei coisas que o Roger me fez antes de nos casarmos. Homens são assim, mesmo, dizia ela.; Claro, não foi somente o incentivo da mamãe que me fez casar com ele. Eu o amava e continuei amando durante aqueles sete anos. Praticamente o servia. Roger nunca permitiu que eu trabalhasse. sua família tem dinheiro, ele herdou os negócios do pai na empresa de advocacia. Então, acordamos que eu ficaria em casa. Eu quero um filho, ele disse após um ano que tentávamos. Mas o médico disse que vai tudo bem comigo, eu falei. Você precisa fazer seus exames, Roger. Meu ginecologista sugeriu que às vezes um espermograma possa ajudar a elucidar nossa infertilidade. Ele levantou-se impaciente, ainda nu após transarmos*. Suspirou e foi caminhando para o banheiro. O problema está em você. uma ex namorada minha há muitos anos engravidou de mim. Só que ela perdeu a criança. Então não, eu não sou o problema, querida. O problema é você. E desde então eu me sentia culpada. E não somente por isso. Roger o tempo todo reprovava de maneira passiva agressiva as coisas que eu fazia: desde as roupas que eu passava pra ele até a comida. Mas nunca era uma depreciação explícita, era sempre algo sutil, como: tá uma delícia essa massa, mas você salgou um pouco. Será que pode passar essa camisa de novo, acho que você se esqueceu da gola. Querida, você passou aspirador no carpete da sala? Será que era por isso que ele estava me traindo? Por que eu sou infertil? Por que eu não pareço suficiente para ele? -- Ai, calma-- a estranha loira murmurou quando Roger a deitou no sofá. Ele ficou por cima dela. eu via os escarpam caindo no chão, sobre o mesmo carpete que ele insistia que eu precisava passar o aspirador. -- Eu vou te comer todinha. -- Roger enterrou os lábios no decote da moça. Eu sacudi a cabeça, e só então notei que estava em prantos. Com o rosto cheio de lágrimas. Fui me afastando de costas de volta para o quarto. Entrei e fechei a porta, passando a chave. Permaneci encolhida na cama chorando até pegar no sono. Tudo aquilo me levou a um fato: DIVÓRCIO. Mesmo que isso me custasse o conforto que meu marido me proporciona e a aprovação da minha mãe, eu iria pedir a separação tão logo o dia raiasse.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR