Eleanor acordou cedo, bem antes do seu horário de costume. A casa estava silenciosa, apenas o som suave do vento batendo nas janelas. Seus avós estavam dormindo, como de costume, no quarto deles, mas seu pai parecia já ter acordado. A porta dos fundos que dava para o quintal estava aberta, deixando entrar a brisa fresca da manhã. Ela se espreguiçou na cama por alguns segundos antes de se levantar, puxando o cobertor para o lado e vestindo um par de chinelos. O piso frio da casa contrastava com a maciez do edredom que ela acabara de abandonar.
Passou pela cozinha, onde o cheiro do café ainda não estava no ar, e seguiu em direção ao quintal. O espaço era amplo e tranquilo, um lugar onde ela gostava de passar algum tempo, especialmente nos dias em que precisava de um pouco de paz. O quintal tinha uma hortinha com legumes que seu avô cultivava com muito zelo, sempre se gabando das cenouras e tomates que colhia. Além disso, havia uma pequena cabaninha com bancos, um local simples, mas cheio de charme. No canto, um pequeno galpão parecia guardar várias coisas, como ferramentas antigas e itens que ninguém mais usava. O aroma da terra e do verde a envolvia, trazendo uma sensação de acolhimento.
— Bom dia, filha. — Darin disse ao sair do galpão. Ele estava com um casaco grosso de frio, suas bochechas vermelhas como se tivesse passado um bom tempo no ar gelado.
— O que você está fazendo aqui tão cedo? — Eleanor perguntou, surpresa. Ela não estava acostumada a ver seu pai fora de casa a essa hora, especialmente em um dia como aquele.
— Estava vendo se tinha algo seu aqui, seu avô tem mania de colocar tudo o que vê pela frente neste galpão. — Darin disse, rindo baixinho.
Eleanor apenas deu de ombros, sorrindo, e disse:
— Ah. Não se preocupe com isso, ainda é muito cedo, pai.
— Caramba, são cinco e quarenta da manhã. — Ele olhou para seu relógio de pulso com uma expressão de espanto. — Acho que estou ficando mais velho. Nunca imaginei acordar tão cedo assim.
Eleanor sorriu levemente, imaginando se ele realmente estava sentindo isso ou apenas tentando se convencer de que o tempo estava passando rápido. Ela sabia que seu pai estava sempre cheio de energia, ainda mais depois de ter assumido um novo cargo na universidade.
— Você não dormiu bem, não é? — Eleanor perguntou com um tom suave, como quem percebia a exaustão no rosto de seu pai.
— Não. — Ele respondeu, com um suspiro. — Foi uma noite difícil. Mas tudo bem, já passou. Vamos seguir em frente.
Os dois entraram em casa e fecharam a porta que dava para o quintal, sentindo o calor aconchegante do interior da casa. O contraste entre o frio lá fora e o calor ali dentro fez com que Eleanor se sentisse ainda mais acolhida. O ar estava perfumado com o cheiro do café que começava a se espalhar pela cozinha. Ela olhou para seu pai, que se movia com naturalidade, como sempre fazia, quando estava na cozinha.
— Vou preparar um café para a gente. Tenho aula na universidade às dez. Vou te deixar na escola primeiro e depois vou para lá. — Darin comentou, mexendo nas cápsulas de café com uma leve concentração.
— Tudo bem, eu posso esperar. — Eleanor respondeu, sabendo que o café de seu pai era uma espécie de ritual matinal que ela apreciava, mesmo não sendo uma grande fã de café. No fundo, ela gostava de vê-lo cuidar das pequenas coisas.
— Como anda o trabalho? — Ela perguntou curiosa. Sabia que seu pai era apaixonado pelo que fazia, e sempre ficava interessada em saber como estavam indo as suas aulas e pesquisas. Ele era professor de história na Universidade de Miami e sempre parecia saber sobre fatos inusitados e tinha uma memória excepcional para datas. Às vezes, ela se perguntava como ele conseguia lembrar de tanta coisa.
— Está ótimo, agora sou coordenador da disciplina de História da Arte. Sabia? — Darin respondeu, com um sorriso de satisfação no rosto.
— Não acredito! Desde quando? — Eleanor disse surpresa. Era por conta do seu pai que ela havia desenvolvido uma paixão tão grande pela arte. Ela se lembrava das tardes em que ele lhe mostrava livros e quadros famosos, fazendo-a ver o mundo de uma maneira completamente diferente.
— Tem umas duas semanas. Eu não te disse pelo telefone, porque estava planejando passarmos um fim de semana juntos, mas acabei não falando sobre isso. — Ele explicou, com um tom de desculpas, mas também com uma expressão carinhosa.
— E isso aconteceu. — Eleanor sorriu sem graça, lembrando-se do fim de semana que ela havia passado sozinha com seus avós enquanto seu pai estava ocupado. Ela sentiu uma ponta de culpa por não ter dado mais atenção ao que ele estava dizendo.
— Pode me levar em casa hoje à noite? Preciso conversar com Rae. — Ela disse, mudando um pouco de assunto, mas com um sorriso esperançoso no rosto. Rae era sua amiga de longa data, e elas sempre se encontravam para discutir tudo o que acontecia em suas vidas.
— Claro, vou te deixar em casa. — Seu pai respondeu prontamente, já mexendo na cafeteira. — Depois, vou direto para a universidade. As aulas começam às dez, e eu preciso chegar a tempo.
Enquanto o café estava sendo feito, Eleanor se dirigiu ao seu quarto para se arrumar. Ela sabia que o dia seria longo e cheio de atividades, mas também estava ansiosa para conversar com Rae. Ela sempre adorava essas conversas, que pareciam aliviar a mente e trazer novas perspectivas sobre as coisas que aconteciam em sua vida.
***
Eleanor chegou uns vinte minutos mais cedo na escola e foi direto para a sala onde teria aula de inglês, ela precisaria lidar com Cameron no primeiro horário, mas pelo menos não teria que encarar Rae.
Depois de alguns minutos a sala foi se enchendo de alunos, quase todos a encaravam quando passavam por sua carteira e ela já estava começando a ficar incomodada.
— Ei. — Um garoto magricela usando óculos maiores que seu rosto sentou atrás de Eleanor e a cutucou. — Estão todos sabendo do seu namoro com Cameron. — Ele sorriu mostrando os dentes com aparelho.
— Não estamos namorando!
— Todos viram vocês saindo da festa juntos.
— Isso não significa que estamos namorando. — Eleanor disse nervosa.
A sala foi ficando mais cheia e ela apenas abaixou sua cabeça torcendo para que o professor chegasse logo.
— Oi, Eleanor. — Cameron passou a mão nos cabelos de Eleanor, ela ergueu a cabeça e sorriu gentilmente. Ele sentou na carteira ao seu lado e os burburinhos só aumentaram.
Por sorte, o professor chegou instantes depois e a sala se aquietou, a aula seria para tirar dúvidas sobre o trabalho e começar a fazê-lo.
— Você já leu esse livro? — Cameron perguntou.
— Por incrível que pareça sim, eu posso começar a fazer a minha parte enquanto você lê e depois você faz o resto. Pode ser?
— É, pode ser.
— Vou compartilhar um documento com você e a gente vai editando junto.
— Aham. — Cameron disse mas ele não parecia estar prestando muita atenção nela, parecia querer se aproximar de Eleanor para impressionar a sala. Por que ele estava tão convencido?
— Cameron, o que você está fazendo? — Eleanor perguntou impaciente quando Cameron começou a enrolar uma mecha do cabelo dela.
— Ah, nada. — Ele soltou a mecha do cabelo dela e se ajeitou na carteira.
Eleanor entendia o que estava acontecendo, Jane contou por alto que Cameron nunca tinha namorado e ele parecia querer gabar para todo mundo que aquilo estava acontecendo com ele.
***
Quando o sinal tocou indicando o final da terceira aula, Eleanor enrolou para sair da sala como sempre fazia. Rae passou por ela sem a encarar e depois Jane foi até à sua mesa.
— Ah, Jane. Você está ouvindo o que estão dizendo? — Eleanor disse, as duas saíram da sala e começaram a caminhar pelo corredor da escola, Rae estava um pouco a frente delas e era estranho que Blake não estivesse ao seu lado.
— Infelizmente sim, você precisa dar um fim à esses boatos.
— Eu já disse que não estamos namorando, mas eles simplesmente me ignoram quando eu falo.
— Então fala com o Cameron. — Jane apontou para Cameron do outro lado do corredor, ele estava com alguns colegas do time, incluindo Liam. — Eu vou almoçar com a Rae, se entendam.
— Ok.
Eleanor viu Jane e Rae caminharem rumo ao campo de futebol e ela foi em direção à Cameron, agora o corredor já estava quase vazio.
— Olha ela aí! A namorada do Cam! — Liam disse quando Eleanor se aproximou.
— Oi Eleanor! — Cameron disse sorrindo.
— Hey, a gente pode conversar a sós, por favor?
— Ah, ok. — Ele disse surpreso e seus amigos se afastaram cochichando. Os dois caminharam para o jardim da escola que ficava próximo à biblioteca, eles se sentaram em um banquinho de cimento. Havia algumas pessoas por perto, mas eram apenas nerds inofensivos, Eleanor constatou.— E então?
— Estão correndo boatos pela escola de que estamos namorando e eu não estou gostando disso.
— Eleanor, pensei que... — Cameron ficou sem jeito.
— Pensou que estávamos namorando?
— Mais ou menos, eu pensei que estava claro depois daquela noite.
— Não, Cameron. — Eleanor suspirou. — Eu amei aquela noite, amei estar ao seu lado, mas não isso não significou que tínhamos algo sério. Pensei que fôssemos só amigos.
— Eu deixei claro que queria algo a mais com você, o tempo todo. Por que não me disse desde o início?
— Eu não queria te magoar.
— Está magoando agora. — Cameron disse chateado.
— Me desculpe, Cameron, mas eu precisava te dizer. Eu não poderia continuar com isso, estar em um relacionamento com alguém que não estou apaixonada de verdade. Eu gosto muito de você, mas como amigo.
— Está tudo bem. Não posso te obrigar a gostar de mim.
— A gente pode continuar a amizade? Você é muito especial para mim.
— Eu preciso processar tudo isso primeiro, Eleanor. — Cameron se levantou. — Nos vemos por aí.