Capítulo Dezessete

1151 Palavras
O resto da semana se arrastou lentamente. Eleanor só via Rae durante a escola, o que era frustrante, pois elas não podiam se beijar tanto quanto queriam e não tinham tempo para conversar de verdade. O cansaço e a saudade começavam a pesar. Ela até cogitou a ideia de voltar para casa, mas Colette havia praticamente a expulsado. E, apesar de não ser uma pessoa orgulhosa, Eleanor não queria dar o braço a torcer tão facilmente. Sua mãe estava passando por alguma coisa, e isso a incomodava mais do que queria admitir. Por um momento, passou pela sua cabeça o aviso de Rebecca, as palavras enigmáticas que agora pareciam ecoar com mais força em sua mente. — Eleanor, seu celular está tocando. — A voz de Darin a arrancou dos pensamentos. Os dois estavam sentados no chão da sala, jogando xadrez. O tabuleiro já estava pela metade, e Eleanor não fazia ideia de qual era a última jogada. — Ah... — Pegou o celular e olhou o nome na tela. — É a mamãe. — Pode ir lá atender. — Ok. Ela se levantou e foi para seu quarto, fechando a porta atrás de si antes de atender a chamada. — Oi, filha. Você está bem? — A voz de Colette soou embargada do outro lado da linha. Eleanor franziu a testa, imediatamente alerta. — Estou, e você? — Não muito. Estou com saudades de você, me desculpe por ter agido daquela forma. O tom arrependido pegou Eleanor de surpresa. Ela não esperava um pedido de desculpas tão rápido. — Desculpas aceitas, mãe. Eu também não agi da melhor forma. Um silêncio pairou por alguns segundos antes de Colette continuar. — Volta para casa, por favor. Você faz falta aqui. Aquela súplica fez o coração de Eleanor apertar. — Tá bom, vou falar com o papai. Do outro lado da linha, ela ouviu a respiração trêmula da mãe, um fungado discreto que não passou despercebido. — Ok. Até amanhã, filha. — Até, mãe. Eleanor ficou parada ali por um momento, olhando para o celular como se esperasse que alguma resposta surgisse na tela. Algo estava errado. Ela voltou para a sala ainda segurando o aparelho, a expressão séria. Seu pai a olhou com curiosidade enquanto movia uma peça no tabuleiro. — Ela quer que eu volte para casa. — Que bom que vocês se resolveram. Eu disse que era questão de tempo até ela te pedir desculpas. — Darin a encarou, mas logo franziu a testa ao perceber que a filha não parecia tão animada quanto deveria. — Por que não parece muito alegre? Eleanor se sentou no sofá, perdida em pensamentos. — Ela está estranha, pai. — Sua voz saiu mais baixa do que pretendia. — Como assim? — Darin sentou-se ao lado dela, agora atento. — O modo como ela fala, a voz dela... — Eleanor hesitou, tentando organizar seus pensamentos. — E tem outra coisa. Rae sempre fica estranha quando eu menciono o nome da minha mãe em uma conversa. Algo aconteceu. Darin ficou em silêncio por um instante, analisando as palavras da filha. — O que acha que pode ser? — Não tenho ideia, mas amanhã vou descobrir. — Eleanor suspirou. Depois de terminar o jogo de xadrez com seu pai, ela deu boa noite aos avós, bebeu uma xícara de leite quente e foi se deitar. Mas o sono não veio facilmente. O que poderia ter acontecido com sua mãe? Ela tentava afastar os pensamentos, mas só conseguia se lembrar da imagem de John, seu padrasto, nervoso ao telefone. Da forma como seu rosto mudava quando estava irritado, a expressão dura e sombria que ele assumia. Eleanor nunca quis admitir para si mesma, mas, às vezes, sentia medo dele. *** Eleanor arrumou todas as suas coisas e encarou seu quarto vazio novamente. Àquele patamar, ela já tinha se acostumado a fazer e desfazer malas, a esvaziar ambientes e levar consigo apenas alguma parte deles e as memórias. Era difícil, no início, se adaptar às mudanças, mas aquilo se tornou rotineiro, quase mecânico. Ela passou os olhos pelo quarto uma última vez, registrando cada detalhe na memória: os móveis antigos, o cheiro suave de madeira envelhecida misturado ao perfume floral que sua avó costumava borrifar pela casa. As lembranças da infância voltaram em um turbilhão, junto com uma leve pontada de melancolia. — Vou sentir sua falta, Eleanor. — Sua avó a abraçou apertado, com aquele carinho acolhedor que só ela sabia dar. — Também vou, vovó. Mas prometo que vou visitá-los sempre. — Eu vou te cobrar, hein? — Ela sorriu, piscando os olhos marejados. — Ah, minha neta. Boa sorte. — Seu avô, de expressão serena, foi abraçá-la também. O calor do abraço dele era familiar, trazendo um conforto imediato. — Vejo vocês em breve. — Eleanor disse, engolindo a emoção enquanto caminhava até a porta. Não queria se despedir por mais tempo. Era doloroso demais. Uma semana naquela casa tinha feito ela relembrar de muitas coisas do passado, e a sensação nostálgica era quase sufocante. O tempo parecia correr em um ritmo diferente ali, como se o presente e as memórias se misturassem o tempo todo. — Não vou demorar. — Darin disse, abrindo a porta de casa e pegando as chaves do carro. Os dois caminharam juntos até o veículo. Eleanor colocou sua mochila cheia no colo e se acomodou no banco do passageiro. Assim que Darin deu a partida, ela suspirou, observando a casa se afastar pelo retrovisor. A viagem foi tranquila, e o barulho constante do motor embalou Eleanor em um sono leve. De vez em quando, ela abria os olhos e via a estrada coberta por neve, as luzes dos postes piscando de forma quase hipnótica. Não demorou muito para que o sono a vencesse por completo. Quando chegaram à casa de Rae, Eleanor despertou com um sobressalto leve. Esfregou os olhos e olhou para o pai, que a observava com um sorriso de canto. — Chegamos. — Ele disse baixinho. Ela assentiu e abriu a porta do carro, sentindo o ar frio da noite bater em seu rosto. Antes de sair, virou-se para Darin e o abraçou com força. Ele cheirava a café e livro velho, uma mistura que trazia uma sensação de pertencimento. — Eu prometo não sumir, filha. — Promessa feita. — Ela sorriu, apesar do aperto no peito. Seus olhos estavam começando a lacrimejar, e ela decidiu que era hora de entrar em casa antes que começasse a chorar de verdade. — Até mais, papai. — Até, filha. Darin esperou Eleanor entrar em casa antes de partir. O som do motor se afastando ecoou pela rua silenciosa, e logo apenas os rastros dos pneus ficaram para trás. Eleanor suspirou e fechou a porta atrás de si, sentindo o calor do ambiente lhe envolver. Ela estava de volta, mas algo dentro dela ainda parecia preso ao passado.
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