Depois de anos, sou obrigado novamente a deixar a Irlanda para voltar ao Brasil. Já resolvi alguns assuntos por lá faz uns anos, mas agora fui informado que as coisas tornaram a se complicar. Isso porque, houve a morte de um padre que as pessoas admiravam na região. Não entendo bem a afeição que as pessoas tem por pessoas que dizem poder aproxima-las de Deus. Mas isso fez até os criminosos da localidade comandarem uma chacina.
Investiguei a morte do enviado de Deus, comprovando que foi de causas naturais. Mesmo assim, os filhos de uma p**a distribuíram balas indiscriminadamente para os moradores usando as nossas armas. Além disso, alguns dos nossos soldados emprestados também foram mortos. Isso nós não podemos perdoar. Novamente, o Rio de Janeiro irá receber a morte. Estou levando comigo um comboio, assim como Mota, meu braço direito.
Assim que o jato estaciona, nós nos separamos. Duas equipes, a minha e a de Mota. Cada um já tem sua missão e sabe exatamente o que precisa fazer.
Tomo meu lugar no banco do motorista de uma BMW preta. Dou partida, apreciando o ronco do motor. Coloco o óculos escuros para proteger minha visão e sigo caminho até a favela que há dez anos não piso os pés. Houve alguns contratempos da última vez que estive lá, eu definitivamente odeio estar fora do meu país, mas mesmo assim eu preciso acertar as coisas. Relembrar quem eu sou.
Eu não sou mais um jovem t**o, com o tempo, eu aprendi um pouco mais sobre manter o controle. Sei que abrigo um monstro perigoso demais dentro de mim, como eu se fosse a casa da própria morte. Por isso, é preciso enjaula-lo as vezes, mantê-lo preso para usa-lo apenas nas ocasiões necessárias. Mas no cotidiano, eu preciso que seja meu cérebro que esteja no controle. Meus dias de imprudência chegaram ao fim.
Minha parte do comboio me segue todos enfileirados, mantendo pouca distância. Repasso a ideia maluca de me tirar de casa para comandar uma missão que poderia ser bem executada sem mim. Por que c*****o o príncipe da máfia tem que abandonar o trono para ir a campo com os “soldados”, por algo tão insignificante? Eles precisam de mim para causar algum estrago? Mesmo assim, foram ordens do meu pai.
Ele ama o caos. E eu sou a pessoa perfeita para causa-lo.
O anel de caveira em meu dedo, presente do Don, é a minha marca. É o que sempre me lembra de manter o foco, quem eu represento e o que eu devo fazer em cada lugar que pisar os pés.
Antes de entrar na favela, nós paramos alguns metros antes. Traficantes sempre fazem guarda nas ruas principais, para verificar cada carro que entra. Eu poderia derruba-los com a quantidade de homens que tenho. Porém, não está na hora certa. Desço o encosto do carro sem muita vontade de fazer esforço, acendo um charuto cubano, ligo o som do carro e coloco os pés no painel. Uma música com uma batida slowed é a trilha. Mas apesar da posição relaxada, mantenho minha atenção nos quatro cantos ao meu redor até escurecer.
Era isso que eu estava esperando, a escuridão. A noite é minha maior companheira. Ligo em uma conexão conjunta com todos os outros carros, confirmando se estão prontos para castigar mais uma vez a favela, para mostrar que não importa onde estamos, de qual lado do mundo, nós somos os donos de suas almas.
Isso acontece porque na Anord, apesar da nossa sede ser na Irlanda, fazemos contrabandos para vários lugares do mundo, é claro. Isso inclui o Brasil, em especial Rio de Janeiro e São Paulo. Porém, a capital paulista não tem nos dado muitos problemas, felizmente. Em compensação, temos dificuldades em manter na linha os associados cariocas.
Como esses filhos da p**a esquecem rápido de onde vem a maior parte do ganha pão deles...
Ingratidão não pode ser perdoada. Nunca. Nós não podemos aceitar baixas em nossa equipe de forma desordenada e desnecessária. Matar os caóticos, incluindo-os em sua vingança descabida, foi como me chamar. Chamar a morte para brincar.
Eu enviei o comboio de Mota para o lado oposto ao meu, onde vamos fazendo uma limpa, deixar um rastro de corpos para a Rocinha acordar amanhã. Pela manhã, todos saberão quem fez isso. Apenas um homem tem culhões suficientes para invadir e massacrar uma favela inteira. Apago o charuto e começo a liderar o caminho, puxando os carros estacionados atrás de mim, que me seguem.
Vemos os homens guardando a entrada da favela, suas feições que pensam ser amedrontadoras o suficiente, rifles na mão e olhar atento. Até que isso é divertido.
Todos os nossos carros estão com os vidros pretos que não os possibilitam ver nada dentro. Sorrio, realmente achando graça da forma que os homens começam a se amontoar na entrada e apontar suas armas para nossos carros. Eles fazem isso sem saber quem está do outro lado, é aí que está a diversão.
— Aguardem. — Ordeno a todos, ainda conectados pela linha conjunta, assistindo atento os movimentos dos alvos em nossa frente. Eles dariam boas telas. Já faz um tempo que eu não faço uma boa pintura.
Os traficantes não perguntam quem são, como de costume. Para entrar é preciso abaixar o vidro e passar lentamente, as vezes responder algumas perguntas, então esperar a liberação deles. Caso isso não aconteça, o chumbo rola solto. Como não fizemos nada disso, não há conversa. Nossos carros são fuzilados por eles, todos nos atingindo ao mesmo tempo.
Para a surpresa deles, todos estamos em veículos blindados. A chuva de tiros não causa efeito nenhum além de algumas marcas na lataria. Continuamos protegidos e em espera, aguardando pacientemente o show deles terminar. Quando eles cansam, direcionam as armas para o chão, ainda engatilhadas, mas dando atenção a nós com os olhos saltados, tentando entender.
— Minha vez. — Sussurro baixinho, com um sorriso animado no rosto. — Preparem-se, rapazes. Vou abrir caminho. Depois, já sabem o que fazer. Sem pena.
Mandei preparar o meu carro de uma forma especial. É uma máquina de matar, como eu. Quando aperto o botão da morte, que aciona as metralhadoras que foram acopladas por dentro do capô, as armas levantam. Os botões no volante, apertam os gatilhos. Aprovo os rostos deles, a forma que as mãos tremem segurando as armas e os olhos crescem. Então, com um sorriso no rosto, eu acelero, pisando fundo no acelerador ao mesmo tempo que trabalho bem com os dedos nos botões, acertando bala para todas as direções – eu sou mesmo muito bom com os dedos.
Será uma noite vermelha na Rocinha.
As pessoas começam a correr, gritar, buscar refúgio e eu dirijo rua adentro, liberando o caminho para os carros que vem logo atrás de mim, se dispersando em variadas direções. Eu sigo reto, atirando sempre, é o caos que prometemos. É a retaliação pelas mortes dos nossos. Matar indiscriminadamente. Mas é quando o carro atinge uma alta velocidade, que noto algo errado.
O carro parece estranho. Franzo o cenho, precisando segurar com força o volante para me manter na linha. Olho para o chão em minha frente e para o céu, não choveu e também não parece que irá. Por que está escorregando tanto? Pelo retrovisor, vejo uma linha úmida, deixada como um rastro por todo o caminho que faço. Há vazamento de óleo no carro.
Como isso pôde acontecer? Esse carro foi submetido a revisão, como sempre acontece todas as vezes antes de eu entrar e depois que eu saio, para minha segurança. Um vazamento de óleo passou despercebido? Não me parece possível, mas o que meus olhos veem é o contrário. Mesmo assim, eu não paro.
Sigo caminho, fazendo o trabalho de aterrorizar o mundo do crime até chegar no destino final. Uma ruazinha sem saída, no fim de linha do bairro. É onde seria o ponto de encontro, mas sou o primeiro a chegar. Ainda não vejo sinal dos carros que estavam em meu comboio e foram por seu próprio caminho, nem do Mota e sua turma. Quando vou chegando no fim, freio, mas nada acontece.
Olho para baixo, onde meu pé força o pedal, que claramente foi sabotado como todo o carro. Tudo estava errado, desde a necessidade da minha vinda para algo tão medíocre. Olho para frente, encarando o fim da linha, a parede que o carro se choca com tudo.
O impacto é forte graças a velocidade, mas o carro não fica pior por causa da blindagem. Mesmo assim, a frente é amassada devido a tamanha velocidade e força. Além disso, sou atingido pelos airbags, vindo de vários lados. Minha cabeça dói, a pressão foi grande. Mesmo assim, ignoro a dor, pego minha faca em meu bolso o mais rápido que posso e começo a tentar esvaziar o ar.
Eu preciso sair desse carro, imediatamente. Se isso explodir eu não terei chances. Eu não irei descobrir nunca quem me traiu, quem foi o filho da p**a que sabotou essa droga de carro e tentou me matar. Está aqui no Brasil comigo ou o mandante está na Irlanda, com meu pai?
Sempre tive muitos inimigos e sempre soube que meu sangue faria uma grande quantidade de pessoas felizes. Comigo fora, um novo sucessor seria indicado ao trono do crime, o poder de toda a maior máfia irlandesa passaria para outro.
Após atingir os airbags com a faca e eles esvaziarem, abro a porta, lançando meu corpo ao chão. Quando fico de pé, pelas costas, sou atingindo com um tiro na altura do ombro imediatamente, como se esperassem apenas eu sair do carro para atirar. Com certeza miraram em meu coração mas nem isso foram capazes de acertar, fora que estou de colete. Olho para trás, desejando olhar nos olhos do corajoso que me acertou por trás.
O desgraçado cobre o rosto com uma máscara, assim como as outras vadiazinhas que o seguem. Coloco uma mão no meu ferimento para pressiona-lo, meio zonzo ainda com a pancada da batida, antes de usar a outra mão para arrancar a arma destravada do coldre de minha perna. Aponto como consigo, mirando para o único que está armado também e abriu fogo contra mim.
A p***a da arma não dispara! Alguém removeu as balas também, mesmo depois de eu conferir no avião e prepara-la. Como o filho da p**a conseguiu? Quantos estão nisso?
A máscara preta de tecido cobre o rosto todo, até o pescoço e os cabelos. Toda a roupa preta inclusive luvas não torna possível reconhecer nenhum deles. Mas é possível notar o sorriso satisfeito nos lábios do que parece comandar, mas não o suficiente para eu saber quem é. O riso foi silencioso e eu não costumo prestar atenção no sorriso dos machos o suficiente para reconhece-los. Se houvesse algum som em sua risada, ou minha cabeça não latejasse tanto...
Ria alto, droga, só um riso!
Tento pegar o maior número possível de detalhes, o menor que seja, para a possibilidade de eu ter a chance de usar um dia.
Caminho, sem medo de andar para a morte. Diferente deles, eu não sou um covarde de merda.
— Querem que eu vire de costas para facilitar o trabalho, seus merdinhas do c*****o? — Rosno, sentindo minha cabeça rodando ainda e o ferimento sangrar. Minha tentativa de fazê-los falar para reconhecer a voz de algum dos malditos, falha.
Eles permanecem em silêncio, o som que ouço vem apenas antes do impacto contra meu outro ombro, que me faz largar a arma inútil e o outro lado ferido que eu pressionava. Sinto a droga da bala caminhar dentro da minha carne, meus músculos, até atravessar meu corpo. Puxo o ar com força. Mas não tenho muito tempo de folga e nem para pensar. Outro tiro me atinge e depois desse, outro. Cada um em uma coxa, até eu perder a sustentação nas pernas e cair de joelhos.
É o início de um m******e, onde dez homens começam uma sessão de felicidade para eles. Eles se divertem muito em usar meu corpo como um saco de pancadas, atingindo meus ferimentos, cortando minha pele, adorando cada momento. Eles castigam cada pedacinho, dedos, pele, torturando cada machucado. Não sei quanto tempo dura até me deixarem como um saco de sangue e pele no chão, desacordado.
Deviam ter atirado na minha cabeça.