CAPÍTULO 02 — DEAD

2254 Palavras
Sinto meu sangue abandonando meu corpo, estou deitado em uma poça avermelhada. É como se minhas veias estivessem tão secas que diminuíram de tamanho. Quando abro os olhos, estou deitado nesse beco sem saída ainda. Não há mais ninguém aqui, nem sons, não há nada. Eu sinto a morte que eu levei para tantas pessoas e famílias, chegando para mim. Não tenho mais forças depois de perder tanto sangue. Tenho ossos quebrados, talvez sangramento interno depois da surra que me deram. Os machucados de bala que foram castigados jorram vermelho. Meu corpo inteiro dói. Mas dor não é algo que me paralisa, pelo contrário, me incentiva. É com isso que eu começo a rastejar no chão, literalmente. Mesmo isso magoando mais meus ferimentos e aumentando demasiadamente a dor, eu continuo, continuo até alcançar o meu carro parado a pouco metros de distância. Faço cara feia quando consigo com muita dificuldade ficar de pé me segurando na porta e sentar no banco do motorista. Quando isso acontece, primeiro pego outra arma no porta luvas. Dessa vez, carregada. O peso da minha arma não deu para perceber que não estava com as balas, mas essa, consigo notar. Depois, faço uma ligação para Mota. Eu preciso de ajuda, de cuidados médicos, ou sangrarei como um porco até a morte. Saio ligando de um em um do batalhão oposto, até que um me atende. Falar é difícil, meus pulmões doem até quando eu respiro, quando forço a falar, piora. Ligação on ~ — Owen? — Gemo. — Dead? — Se preocupa. — Por que você está...? — Eu preciso de ajuda, urgente. Se eu não tiver ajuda médica agora eu morrerei. Meu pai começará uma guerra pela morte do filho, dentro e fora da Anord. Você quer uma guerra? — Consegue me passar a localização? — No fim de linha... — Tremo. Meu corpo castigado expulsa as palavras de forma dolorosa. — Beco. É o tempo de completar a frase, para o celular despencar e eu apagar novamente sem conseguir me sustentar acordado. Ligação off ~ ••• — Ele vai sobreviver? — Ouço a voz preocupada de Owen. Minhas pálpebras pesam assim como cada parte do meu corpo. Tudo em mim dói, a ponto de eu continuar sentindo que não há sangue em meu corpo. Respirar também faz cada um dos meus órgãos doer e meu corpo reclamar. Tentando ter mais tempo de alívio, eu permaneço com os olhos fechados, apenas ouvindo. — As balas não atingiram nenhum órgão. As das pernas, entraram e saíram, assim como uma do ombro. Apenas a do ombro esquerdo permaneceu mas eu já fiz a remoção. O problema é a quantidade de sangue que ele perdeu. — Ouço atentamente a explicação do médico. — Eu também já cuidei dos braços quebrados, fiz todos os curativos e limpeza dos machucados. Pelo que eu vi, o homem deveria estar morto. Nunca conheci alguém tão forte. — Ele é. — Owen afirma, parecendo aliviado. — Mas vamos esperar para ver como ele reage a transfusão. — Avisa. — Se eu pudesse levá-lo a um hospital de verdade as coisas seriam mais ... — Fora de questão, eu já disse. — Ouço a discordância. — Então não há mais o que fazer. Vamos monitora-lo de perto até ele receber sangue suficiente e vermos o resultado. Depois disso, ele ainda precisará fazer uso de alguns remédios para garantir que não ocorra nada com os órgãos dele. — Que ladainha insuportável. — Como não fizemos exames, não sabemos o que há por dentro. Por isso, passarei remédios para fígado e pulmões. Mas isso é para depois, vamos... — Você pode ir embora, doutor. Eu não estou morto. — Acho a voz ainda de olhos fechados, mas mantendo uma careta de dor. — Dead! — Owen solta aliviado. — Graças a Deus! — Deus? — Não posso rir mas acabo não aguentando e grito de dor quando uma gargalhada escapa de minha garganta. — Deus não está perto de mim, parceiro. — Eu creio que aqui, ele está. — De que p***a você está falando? — Estamos na pequena paróquia da região. — Eu juro pelo d***o que vou te matar quando levantar daqui. — Rosno. — Por que eu estou na p***a de uma paróquia? — Precisávamos deitar você em algum lugar, de um lugar fechado. Onde mais eu iria? Você não ia aguentar uma viagem de carro e nem podíamos chamar uma ambulância para te levar para o hospital. — Como se isso fosse explicação. — E sua ideia foi levar o d***o para a igreja, meus parabéns! — Eu o encaro, abrindo os olhos com muita dificuldade. Ao lado dele está o médico, tremendo de medo o coitado. É um homem baixinho e careca, ao lado de Owen parece ainda menor. O meu parceiro nisso é um homem alto também, mais baixo que eu, porém alto. É loiro, tem olhos verdes e um porte físico bom. Todos na Anord somos bem preparados fisicamente, então é normal. Também está todo de preto, inclusive com luvas de couro como as que eu usava antes . — Não é uma igreja, é uma paróquia. E era o lugar mais perto e sem complicações. Não tinha tempo para invadir uma casa e começar a matar as pessoas ou chantageá-las, já basta esse aqui. — Eu? — O médico questiona, quase borrando as calças. Frouxo do c*****o. — Fique na sua, seu mela cueca. — Ordeno, fazendo-o abaixar a cabeça. — Igreja ou paróquia, tanto faz. — Você não está em condições de exigir nada, Dead. Eu salvei sua vida, então faça o favor de parar de querer controlar tudo. O que pode dar errado aqui? Por acaso esse puto virou católico? O que pode dar errado aqui? Tudo. Se é que Deus existe, ele com certeza mandará um raio explodir esse lugar com nós dois dentro. Olho ao meu redor, estou numa espécie de quartinho, com espaço apenas para uma cama de solteiro que nem me cabe inteiro, deixando meus pés para fora, uma mesa de cabeceira e um guarda roupas de duas portas minúsculo. Ao lado da cama estão os dois de pé, uma bolsa de sangue e outra de soro penduradas em improvisação. Mas não tenho tempo de analisar muito. O motivo de minha preocupação acaba de entrar pela porta. O que poderia dar errado? Aí está a resposta. Um homem entra pela portinha do quarto. Seus olhos crescem olhando por longos segundos para cada um de nós, primeiro Owen, depois para o médico ao seu lado, e por último, seus olhos param nos meus. Entrego a ele um cruzar de lábios quando com a mão livre, tiro disfarçadamente a arma que peguei no carro e atiro em sua testa a sangue frio. O sangue espirra no quarto. Não há tempo de ninguém me parar antes de eu explodir os miolos do padre. O médico grita alto, me fazendo olhar feio para ele, que levanta as mãos em sinal de rendição e começa a chorar como um bebê. — Seu louco do c*****o! — Owen solta, me olhando como se desejasse terminar o serviço que os outros começaram. — Você é totalmente descontrolado. — Pelo contrário. Eu pensei rápido, não havia outro jeito. — Solto sério. — Você faz isso por diversão, seu doente. — Vou me divertir em estourar os seus miolos também se não parar de falar comigo desse jeito. Eu ainda não estou morto e ainda sou o seu chefe. O que acha que ia acontecer, inteligente? Que o homem de Deus mentiria por nós? Você o matou no momento que me trouxe para essa droga de lugar. Eu avisei, p***a! Eu avisei. Se eu não o matasse o homem daria com a língua nos dentes. Eu não estou em condições de lutar e nós dois estaríamos fodidos se nos encontrassem aqui, em especial depois do que acabamos de fazer com a gente deles. — Precisamos ir embora daqui, agora. Temos que sair desse lugar, desse país. — Passa a mãos nos cabelos, começando a entender a gravidade da situação. — O que você ainda faz aqui? Não mandei ir embora? — Relembro ao bebê chorão, encolhido e tremendo no canto. — Você salvou minha vida, então eu te deixarei ir por hora. Mas a dívida está paga. Apenas três pessoas sabem onde estou, as três nesse quarto. Uma está morta, a outra me mostrou ser de confiança. Se a informação de onde eu estou vazar, você vai preferir encontrar o d***o que a mim. Vá e mantenha essa sua boca fechada. Você não me conheceu e eu vou esquecer que te vi. — E...eu... Nunca o conheci. — Gagueja, recolhendo as coisas e saindo correndo do quarto, desviando do corpo estirado na porta. — Onde estão os outros? Mota? — Questiono. — A essa altura, longe. — Explica. — Quando você me ligou eu desviei da rota e cheguei o mais rápido que pude. Tentei falar com o Mota mas ele não atendeu, assim como os outros. — Já devem estar fora. — Penso alto. Começo a mentalizar o que pode ter acontecido, quem foi o traidor. Traição é o pior que se pode acontecer na máfia. O pior. Somos criminosos, mas temos apenas um código e os filhos da mãe o quebraram da pior forma possível. Quem? Apenas o Mota eu considero como braço direito. Mas e o batalhão dele, ou o comboio que me seguiu? Até o homem que está comigo, pode ser confiável? Eu não tenho nenhuma certeza nesse momento. Tudo bem, Owen poderia facilmente ter me matado ou terminar agora o serviço. Mas e se o plano dele foi justamente esse? Ser o meu salvador para estar fora de suspeita. Estou perdido em meus próprios pensamentos quando o telefone dele toca. Owen pega o aparelho e se afasta para atender, me dando as costas. Pelo tamanho do quarto, não faz diferença alguma. Só não consigo ouvir o outro lado da linha. — Pode falar. — Atende. — Estou sozinho, o comboio se separou. Diga logo o qu... E então ele se cala, paralisando. Não posso ver seu rosto, mas a forma que ele perdeu a fala e pareceu também perder as forças alguns instantes, me faz lutar para sentar na cama. Demoro, sinto dor em cada machucado meu, os ferimentos parecem ficar cada vez piores, mas provavelmente há morfina nesse soro e me permite não sentir tanto. Quando eu consigo firmar meu tronco o mais ereto possível, estreito minhas sobrancelhas, encarando-o. — Você tem certeza absoluta disso? Confirmação visual? — Sua pergunta me faz estranhar ainda mais o que está acontecendo. Owen não diz mais nada, não responde ou se despede de quem quer que esteja do outro lado da linha, apenas desliga a ligação e vira para mim. Seus olhos estão em choque, sem nem piscar. Ele parece longe ao mesmo tempo que sua cabeça aparenta ter um nó gigantesco, formado dos seus próprios pensamentos. — Desembucha. — Solto, mas ele não responde. Está pálido, com os olhos vermelhos de tanto não piscar. Parece que o homem perdeu a alma, se é que tem. — Loira do banheiro! Estou falando com você, desgraça! — Dead... — A voz está distante. — O chefe, seu pai... está morto. — De que c*****o você está falando? — Forço o corpo para ficar de pé, mas não consigo, não tenho forças suficiente para isso. Só consigo mais dor, me fazendo gritar e despencar deitado. — Retire essa mentira agora! — Há confirmação visual. — Quando ele responde, seu celular apita. Um pouco mais calmo, ele abre a tela, encara a mensagem e vira a cabeça para o lado fechando os olhos. — Eu quero ver. — Aviso. — Me mostre, Owen. E assim ele o faz, ainda com a cabeça para o lado, sem conseguir olhar para tela ou para mim, Owen me mostra a imagem que acabou de receber. Meu pai, sentado em sua cadeira grande e confortável, com uma bala na testa. O pouco sangue que restou em meu corpo parece ter terminado de se esvair. Reviro os olhos, quase perdendo a consciência. Meu coração continua paralisado, morto. Todos nós esperamos algo assim no meio que vivemos, mas parece que nada me preparou para isso, não agora. Tudo que sinto é raiva. Minhas veias são preenchidas por ódio, puro, vermelho, doentio. Como Owen disse, eu sou doente. E como eu disse, deviam ter atirado em minha cabeça quando tiveram a chance. — O que acontece agora? — Puxa o celular de volta. — Essa imagem já deve ter chegado no submundo inteiro. Com seu pai morto... — Nós dois estamos mortos, Owen. — Eu o interrompo. — Foi um ataque conjunto, percebeu? Quando pensaram ter me matado, mataram meu pai. Com nós dois mortos, o caminho para a liderança da Anord está livre. Isso vai ser mais fácil que eu pensava. — Isso o que? — Descobrir o rato entre nós. Só precisamos esperar para ver quem vai assumir o comando agora, quem vai se mostrar como o salvador para proteger a máfia irlandesa dos nossos inimigos. — Explico. — Então, você tem que continuar morto por um tempo. — Eu não estou em condições de combate, também não podemos fazer isso sozinhos sem um plano em mente. — Penso. — Eu preciso ficar fora do radar, me esconder. Minha morte assim como do meu pai tem que ser espalhada, confirmada visualmente. — Eu cuidarei de tudo, Dead.
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