Papai disse que precisávamos recepcionar bem o novo padre. Nós realmente amávamos muito o antigo, Francisco. Porém, ele já era velho e tinha muitos problemas de saúde. Graças ao bom Deus a paróquia não vai ficar descuidada, um novo santo virá para zelar por nossas almas.
Tenho certeza que o padre Afonso dará seu melhor e cuidará muito bem da casa de Deus. Com certeza, a paróquia da Nova Guadalupe está em ótimas mãos.
Infelizmente, sua chegada foi marcada por uma noite vermelha, de puro sangue. Para nós que moramos na Rocinha, é comum, mas não para um estrangeiro que não deve ter contato com esse tipo de coisa e tamanha violência. Claro que ele deve ter pesquisado sobre o lugar, visto como nossa favela é uma das mais perigosas do Rio de janeiro. Mas precisava ser recebido assim?
Foram muitos mortos. Em torno de duzentos corpos foram encontrados em toda a extensão do bairro.
Durante o dia de ontem ninguém ousou pôr os pés para fora, mas essa noitinha, meu pai deu a ideia de que eu preparasse um bolo para dar boas vindas ao padre Afonso. Desde a morte de minha mãe, que sofria de doença de chagas e foi morar com Deus há seis anos atrás, eu cuido de tudo na casa, inclusive da cozinha. Foi um período difícil, ainda dói, mas eu aprendi a lidar bem com a dor há muito tempo, seja a dor física quanto a emocional. Com as surras que meu pai me dá desde criança, meu corpo foi acostumado a ser levado ao limite. E com a morte horrível do Samuel, meu melhor amigo, meu coração perdeu uma parte preciosa.
Resolvi fazer um bolo de milho, partindo-o e colocando as fatias em uma tigela de louça ainda quentinho. Cobri com um pano branco e segui para a paróquia depois da autorização do meu pai. Como de costume, não fica trancada até que seja hora de dormir. Como ainda é cedo, dezoito horas, está destrancada. Entro observando os quatro cantos, os bancos de madeira, o palco, a entrada para o confessionário, mas está tudo muito quieto e vazio.
Não entro aqui desde que o padre Francisco morreu. Esse lugar não recebia visitas, então não tinha o dízimo ou nada de valor para a porta ficar trancada nesse período. Me pergunto se o padre Afonso sabe como funcionam os horários aqui, mas logo expulso meus pensamentos bobos. É claro que ele sabe, não viria a um lugar sem pesquisar e conhecer a programação.
Tomo a liberdade de seguir até o quartinho de dependência que fica na parte dos fundos, por um caminho por trás do palco. Eu até já o arrumei e organizei muitas vezes para o padre Francisco, eu e as outras mulheres do bairro revezávamos para ajudá-lo. Depois da sua morte fizemos a última arrumação tanto no quarto quanto na paróquia, uma última vez. Porém, sinto um cheiro forte de alvejante como se o lugar tivesse sido acabado de ser lavado.
Dou batidas leves na porta, um pouco envergonhada. Eu ainda não o conheço e tenho medo do que ele possa pensar por eu vir até o quarto dele assim. Mas se eu voltar para casa sem entregar esse bolo, eu serei castigada por meu pai. Não demora muito para eu ouvir uma autorização vindo de dentro. Uma voz grave e jovem, com um timbre tão rouco que sinto que pode fazer até o chão tremer. Eu o imaginava como um homem mais velho pelos comentários dos lugares onde ele já serviu, mas tudo bem.
Giro a maçaneta, pensando em como esse é o único lugar da Rocinha que pode ficar destrancado sem alguém ser ameaçado ou assassinado. Até os criminosos perigosos do nosso bairro respeitam a casa de Deus. Mas todos os meus pensamentos evaporam, assim como a sustentação em minhas pernas quando meus olhos pairam no homem quase desnudo em cima da cama.
Firmo as mãos na tigela que carrego ou ela despencaria no chão. Engulo seco, encarando com muito choque o homem machucado em minha frente. Ele é grande, terrivelmente grande, grande como eu só vi um homem ser na minha vida. Seu tronco nu está com curativos espalhados pelos ombros, costelas e peito, mesmo assim não é capaz de esconder os músculos formados de muita força. Os cabelos são negros, cheios, despenteados e num caimento único. Ele tem uma barba desenhada em seu rosto, da mesma cor dos fios da cabeça.
Isso é um castigo?
O que eu posso ter feito de tão r**m para merecer tal coisa?
Meus olhos se enchem de lágrimas, revendo como um filme as imagens da morte do Samuel. Vejo flashes do carro passando por cima do corpinho franzino do meu amigo, uma criança doce que tinha a vida pela frente. Vejo o homem da tatuagem na mão sair do carro, sorrir para mim e acariciar meus cabelos antes de me mandar embora.
Eu tinha apenas oito anos, era pequena, faz muitos anos. Não me lembro dos detalhes, o choque também pode me fazer confundir as coisas. Mas uma coisa que nunca vou esquecer é como seus olhos transbordavam morte, como ele cheirava a morte, além do sinal marcante que nunca saiu da minha cabeça, a tatuagem de asas na mão direita.
O olhar de morte está aí, para meu horror. O cheiro, também. Mas a última coisa que olho, é sua mão, com medo do que encontraria. Mas não há nada. Nem uma cicatriz, nem um sinal da tatuagem que me marcou da forma mais terrível possível. É quando eu consigo respirar, já sentindo meus pulmões doerem. Lubrifico os lábios, uso uma mão para limpar algumas lágrimas que escaparam e torno a engolir seco.
— Boa noite, padre Afonso. Sou Helena, Helena Bernardi. Vim até aqui para dar boas vindas ao senhor. — Abaixo a cabeça em sinal de respeito, falando com a voz meio trêmula. Depois, levanto meu queixo mas mantenho o olhar baixo. Mesmo não sendo ele, ainda é agonizante ver tamanha semelhança. — Eu sinto muito que tenha chegado num período de tamanha violência, peço perdão em nome do bairro inteiro. Como... isso aconteceu com o senhor?
— Obrigado, Srta. Helena, pela gentileza e pelos seus sentimentos. — A voz grave volta a tomar o ambiente. Seu sotaque é muito carregado, mas é possível entender de início. — Isso... Bom... Eu cheguei na comida errada, acabei encontrando alguns desanimados.
— Como disse? — Franzo o cenho, o encontrando ainda me analisando. Minhas bochechas coram. Eu sei que não há pensamentos impuros nele, mas ainda me sinto estranha sob seu olhar. — Eu não entendi. Comida? Desanimados?
— Perdão. Eu ainda confundo algumas palavras no seu idioma. — Explica. — Eu quis dizer que eu cheguei na... comida errada. — Aponta o relógio em seu pulso. É impossível não sorrir, levo a mão até minha boca, gargalhando baixinho.
— Hora errada, não comida. — Falo pausadamente para ele entender. — Isso é comida, um bolo. — Estendo as mãos apontando, demostrando com a tigela em minhas mãos. — E a outra palavra, acho que você quis dizer bagunceiros ou desordeiros?
— Sim, isso mesmo. — Sorri de si mesmo, apenas curvando os lábios de uma forma que faz meu coração acelerar e eu me envergonhar disso. — Você fez um... bolo? Para mim?
— Espero que goste. — Ainda de cabeça baixa, eu me aproximo da cama e tiro o pano que cobre a tigela, revelando as fatias do bolo ainda quente.
— Que cheiro é esse? — Franze o cenho. — Isso é bom. De que é feito?
— Milho.
— Milho. — Repete mais para si mesmo, me fazendo rir.
— E essa sopa? — Olho para a tigela em cima da mesa de cabeceira, já está fria.
— Tem um médico cuidando de mim, ele traz comida e me ajuda no banho. — Explica. Ele está realmente muito machucado. Mesmo ferido, mesmo ele sendo um homem santo de Deus, é impossível não notar o quanto é um homem bonito.
Eu não estou acostumada com o sexo oposto, muito menos quando é assim, grande, forte, com esses belos cabelos pretos e essa barbinha que só molda mais o rosto dele. O que dizer do seu rosto? Foi esculpido por milhões de anjos. Engulo seco, preocupada com meus pensamentos sobre um homem, principalmente quando minha atenção é da sua boca. Nunca vi uma boca assim, tão rosada e cheia, chamativa. Prefiro pensar que isso é por conta da novidade que ele representa.
— Eu odeio o fato das pessoas serem tão violentas umas com as outras. — Abaixo a cabeça, entristecida e com as feições cheias de dor. — Sinto como se fosse culpa minha, do bairro, entende? Como se isso tivesse acontecido com você por nossa causa. Perdoe-me, padre Afonso. O senhor não merecia.
Ele aperta os olhos, como se doesse ouvir essas palavras. Não consigo conter as lágrimas ao vê-lo assim tão machucado, sem poder levantar, sem poder cuidar de si mesmo sozinho. A favela destrói tudo que entra nela, mesmo que seja santo e puro. A favela destruiu o Samuel e agora, um padre. Me sinto responsável, devendo alguma coisa a ele.
— Entendo, minha querida. — Mesmo forçando uma voz calma, seu timbre não ajuda muito. Limpo com os dedos finos as lágrimas que escaparam. — Mas você não tem culpa de nada, acredite em mim. De qualquer forma, isso poderia ter sido muito pior. Graças ao nosso bom Deus que me protegeu, eu estou aqui. Não temos do que reclamar, apenas a agradecer.
— Perdoe-me, senhor. — Abaixo os olhos, envergonhada. — Pela minha pouca fé.
— Poderia parar de me chamar de senhor, por favor? Isso... Não está ajudando. — Cerra o maxilar, agora ele evitando olhar para mim.
— Perdoe-me novamente. — Ouço um “Isso vai ser mais complicado do que eu pensava” escapar baixinho dele. — Como? O que será complicado?
— Nada, eu estou com fama. — Acabando momentaneamente com a tensão ele consegue me arrancar um riso novamente.
— Seria “fome”?
— Sim, isso. — Ele sorri, acredito que sinceramente, enquanto olha para mim com um olhar desconhecido.
— Eu irei esquentar a sopa para você, está bem? — Não espero permissão, já colocando o bolo ao lado do prato e segurando a sopa. Mas sinto que vou desmaiar quando sinto a mão dele tocar a minha, cobrindo-a por inteiro.
Ninguém nunca me tocou antes desde que eu era uma criança, além do meu pai em seus golpes. Então, quando a mão grande, pesada e firme está sobre a minha, eu sinto algo acontecer em meu coração. Meu corpo treme de leve e eu cometo o erro de olhar nos olhos dele, eu vejo mais que a morte que eu temi quando entrei e mais que a pureza que deve haver em um padre. É... Intenso.
— Não precisa. — Diz, com as feições duras, sem demonstrar a menor reação. Eu estou quase derretendo só por sentir sua mão na minha.
— Não haverá incômodo, acredite. Será bom para mim poder te ajudar, irá aliviar o meu pe...pesar. — Gaguejo, dividindo a atenção entre seu rosto e nossas mãos. Ele a mantém, como que me segurando.
— Eu tenho p***o de você. — Coro e abro a boca, chocada. Puxo minha mão da dele imediatamente sentindo uma eletricidade se espalhar pelo meu corpo. Santa Maria mãe de Deus!
— Pena? — Sugiro.
— Sim, é isso. O que eu disse? — Se preocupa.
— Uma forma de chamar o órgão s****l masculino. — Com meu rosto ardendo como uma pimenta e sentindo meu coração quase explodir, eu tento explicar o mais natural que consigo. Padre Afonso parece prender o riso, achando graça da minha situação provavelmente.
— Que bom que não foi na frente de toda a congregação. — Brinca. — Perdoe-me, eu quis dizer que tenho pena de você.
— Isso também não é bom.
— Não é? Isso não significa um sentimento de preocupação?
— Na verdade, é ver a pessoa como uma coitada. Ninguém quer ser visto como um coitado, como alguém digna de pena. Entende?
— Sim, eu entendo agora. Não é algo que eu me agrado muito também. — Raciocina. — É por isso que não quero que me veja como um coitado que precisa de tanto cuidado.
— Mas você precisa, no momento. — Lembro a ele. — Porém, o coitado não é você, sou eu. Eu realmente preciso cuidar de você para me sentir um pouco melhor, foi assim que eu fui criada.
— Seus pais devem ama-la muito, eles tem muita sorte. — Apenas sorrio, imaginando o quão bom seria se isso fosse verdade. — Eu aceito seus cuidados então.
Aliviada, eu saio do quarto e vou para uma espécie de corredor que fica entre a paróquia e a dependência. Apenas duas bocas de um fogão de ferro, a gás. Em cima, um balcão de porta única que só tem o suficiente para viver. Do lado oposto, duas pias, uma de roupa e outra de pratos, com poucos matérias de limpeza. Pego a panela, despejo a sopa e após ligar a boca do fogão com um fósforo, mexo até amornar.
Despejo de volta ao prato, pego a colher e levo novamente até o padre Afonso. Entro um pouco tímida, sabendo que terei que sentar ao seu lado para ajudá-lo a se alimentar. Coloco um sorriso amarelo no rosto quando me aproximo dele, que apenas me assiste.
— Com licença. — A presença dele deixa tudo menor e toma todo o espaço da cama. Curvo meu corpo por cima dele e com minhas mãos trêmulas, toco suas costas largas e nuas.
Uma onda quente se espalha em mim, espalhando vibrações. É ainda pior que estar perto da boca quente do fogão. Fecho os olhos, meus dedos sentindo a temperatura de sua pele macia. Perdoe-me, meu Deus, pois isso com certeza é um pecado. Meus pensamentos me traem, levando meu corpo consigo. Eu o ajudo a sentar, desejando tirar minhas mãos dele o mais rápido possível para tentar impedir que eu continue adorando a sensação de toca-lo.
Nós dois continuamos em silêncio, enquanto ajeito o travesseiro nas costas dele e sento na borda da cama. Ele me ajuda, se esforçando em ficar mais para a parede que para perto de mim. Seguro a tigela com uma mão e começo a alimenta-lo, colher por colher. O pior é o barulho que o talher faz se chocando contra a louça, porque minha mão não para de tremer sem que eu possa evitar. Envergonhada, eu tento fingir que não estou percebendo os barulhos da minha humilhação. Padre Afonso vai aceitando as colheradas até acabar, mantendo sempre os olhos em mim.
— Eu gostaria de experimentar o bolo de milho que você trouxe. — Rompe o silêncio quando a sopa termina.
Para piorar minha situação, aqui não tem guardanapo e eu preciso limpar a boca dele. Com certeza eu não aguento levar esse homem até a pia. Então, levo a minha mão trêmula a sua boca com o maior cuidado possível, e lentamente, toco seus lábios com meu polegar. Padre Afonso permite, mas seu olhar para mim é tão carregado que me causa umas coisas que fazem eu odiar meu corpo. Sinto seus lábios macios na ponta do meu dedo, até retirar todo o excesso do líquido que escorreu.
— Eu já trago seu bolo, espere. — Com os olhos piscando mais que deveria, a voz não tão firme, o rosto corado e respirando com dificuldade, eu fico de pé e praticamente corro para o banheiro.
Olho meu reflexo no pequeno espelho sobre a pia, meu rosto e pescoço avermelhados, os olhos saltados como se eu fosse um filhotinho presa com um predador e ansiasse por uma fuga. Só que aqui não há predador, há apenas um homem de Deus que eu estou pecando sem conseguir controlar a forma que meu corpo reage a um mísero olhar dele, ao som da sua voz e até com a proximidade.
Lavo minhas mãos e com elas úmidas, tento aliviar o ardor em meu rosto por dar umas batidinhas com a água gelada em minhas bochechas, testa e pescoço. Uso a barra do meu vestido longo, pela parte de dentro, para secar o excesso. Respiro fundo, fecho os olhos e olho em direção ao teto.
— Perdoe-me, meu Deus. — Sussurro baixinho. — Não tenho intenção.
Após puxar o ar com força, saio do banheiro. Dou a ele um sorriso educado e vou direto para a tigela, pego uma fatia de bolo, já não tão quentinho e coloco perto da boca dele. Após a primeira mordida, eu espero atenta e ansiosa pela reação dele, cada mastigação é uma tortura para mim.
— E então, o que achou? — Não resisto em perguntar, ele ainda mastigando.
— Elote. — É a primeira palavra que sai da sua boca. — Eu comi quando estive no México mas faz muito tempo e foi bem diferente. Acabei de descobrir que... Eu adoro milho.
• Elote: milho mexicano.
— Isso é muito bom. — Respiro aliviada. — Eu farei mais vezes.
— Eu gostaria muito. — Sorrio com sua resposta.
— Está ficando tarde. Termine, por favor. Papai não vai gostar que eu fique fora por tanto tempo. — Continuo a alimenta-lo.
Depois, faço questão de pegar a escova de dentes que vi no banheiro e confirmei ser dele, junto com dois copinhos plásticos que estavam perto e creme dental. Eu o ajudo a escovar os dentes, usando um copo com água e o outro para ele cuspir. Após secar sua boca com uma toalha de rosto, sob seu olhar atencioso, eu lavo tudo que usei e termino meu serviço.
— Eu odeio estar te dando terremoto.
— Trabalho. — Explico. — E não é trabalho algum, é um prazer servir a um homem de Deus.
— Trabalho. — Repete, como que aprendendo a palavra. — Obrigado por isso.
— De nada. Tenha uma boa noite, senhor, durma bem. Eu irei trazer algo para você beber também amanhã. — Eu não vou conseguir chamá-lo de você sempre.
As vezes eu lembro sobre seu pedido de não chamá-lo de “senhor”, mas as vezes isso sai automaticamente. É algo que não estou acostumada e não me sinto bem em trata-lo sem o título respeitoso.
— Você virá amanhã?
— Sim, eu cuidarei do senhor.