Ignorei este inclemente e gritei bem alto emanando toda minha fúria, rugir como leão para demonstrar minha força, em sua frente ainda mais obstinado a matá-lo a qualquer custo. Minha força se sobrepôs a dele, cantei minha vitória com o sorriso mais sádico que tinha, mas ele me atirou contra as almas ferozes e saiu com um arranhão em sua face, quase no olho. Os monstros que nos rodavam me seguraram, outros ainda mordiam minhas pernas para me imobilizar, assim como os que mordiam meus braços. Gritei libertando minha fúria, e isso foi minha cartada final quando outro serzinho veio de algum lugar e me perfurou pelas costas, adentrando com suas garras bem em meu coração. Fiquei com meus braços estendidos, com meus pulsos segurados pela boca dos monstros: um em cada lado. Estava de joelho suspirando pela última vez com um belo sorriso de triunfo, sádico e crente de que fiz algo maior que qualquer um. Fitei o indigente pela última vez, e disse:
— É tarde demais... Ela conseguiu, seu b****a!
Caio olhou para trás e se deparou com Cecília flutuando com Victor trêmula, inquieta; sendo ofuscada por uma escuridão que vinha dela agora, e saía de Victor. Quando Caio correu até eles, uma voz calma que se alastrou como o raio por todo canto, tal como a que ouvi no depósito, dizendo: AFOGUEM-SE!
O chão estremeceu, o círculo se desfazia e as criaturas corriam em direção a Victor. Caio apenas olhava em volta, buscando algo com seus olhos desamparados, que logo avistou algo assustador o suficiente para fazê-lo colocar suas mãos contra os olhos e gritar “m***a!”. De relance, vi uma grande onda cobrindo casas com suas águas sepulcrais, prestes a nos levar com os demais corpos. Levou nada menos que segundos para nos atingir e nos afundar. Fiquei boiando como tanto os outros corpos que estavam por lá, nadando, se afogando, se debatendo sem parar. Não enxergava muito as coisas, exceto a luz acima que antes não tinha, mas não tive potestade para nadar até lá, nem para me manter a salvo. Ainda localizei em meio aos corpos, Cecília cintilando entre os cadáveres, com sua mão em Victor, mas logo se desprendeu. Nadei até ela com meu resto de determinação, sem titubear e remoendo minhas dores. Como afortunado, e para meu alívio, ainda alcancei ela e segurei sua mão. Não pude disfarçar meu alívio ao estampar meu sorriso para esfalecer ao seu lado, por ter lutado com todas as nossas forças. Abracei meu amor, me envolvi com seu calor intenso emanando na água fria, imunda e vazia. Olhei bem em sua face e proclamei a mim mesmo “estamos prontos para ficar em paz”, dei um beijo de despedida — algo que sempre detestei, demonstrar o melhor sentimento em uma despedida. Torcendo para que em algum mundo jamais ela aceitasse isso como uma v******o. Jamais ousaria profanar seu corpo sem seu consentimento, nem descansaria sabendo que isso foi ultrajante para você. Fiz isso na esperança de que caso questionasse minha atitude covarde, viria até mim e reclamar o quão indignada estar por eu profanar seus lábios, minha amada Cecília. Fechei meus olhos enquanto degustava pela primeira e última vez seus lábios doces como mel, carnudos e tão bem desenhados que instigava meu desejo de tê-los. Vedei e reproduzi o filme curto, mas com tanta história e cobiça, que vislumbrei do que tinha de felicidade no caos. Eram nossos momentos de planejamento, de piadas e até quando eu estava com Caio. Ele questionando e ela rebatendo de forma feroz e perspicaz, sem hesitar. Dando de ombros para que sua vontade inabalável andasse sem impedimentos, mas minha parte favorita, foi nossa promessa e o quanto ela estava determinada que selasse dizendo “prometo!”. Seus olhos esverdeados emanando sua força, sua esperança e trazendo a luz que brilhou mesmo na morte. Nossa promessa foi minha vontade para tudo porque desde então tive a certeza do que queria, e era além da minha vida. Se baseava em nós. A noite no bar foi perfeita, até nas minúsculas imperfeições incorporam mais nossa noite. Sua voz e animação contando aqueles contos, sua ousadia ao enfrentar Victor viveu e morreria comigo agora. Não somente essas singelas lembranças profundas se afogariam comigo ou se eternizariam enquanto eu relembrasse. Até mesmo minha expectativa de rever ela em algum outro lugar morreria, mas renasceria com a eterna fênix. Esse é o mais alto cume da minha felicidade desemaranhada do pudor, do medo de viver. Esse é o fim que desejei mais que minha sobrevivência, porque nada foi em vão. A faísca do nosso beijo e nosso amor, resplandeceu pela última vez e então eu disse e encerrei nosso destino: — Agora podemos descansar, minha amada.
Fechei meus olhos, nem ousei abrir mais uma vez, tampouco pensar mais uma vez. Decidi que tudo acaba nesse mar fúnebre, foi minha escolha. NOSSA escolha.
Senti um leve toque em meu rosto, como se não quisesse incomodar e vozes distantes, ou pareciam distantes. Só ficava mais esquisito porque não estava no fundo daquelas águas avassaladoras, nada mais doía de forma constante após o pique de adrenalina passar com o efeito da noradrenalina. Estava dormindo? Estava numa espécie de conforto para partir? Hesitante por completo para abrir meus olhos e enxergar o próprio inferno, ou só algo do qual me arrependeria. Abri devagar, hesitante, com muito medo do que eu veria agora. Fui apenas um medroso, isso não estava nem perto do que vi. Fiquei incrédulo e nervoso, e muito assustado. Respirei fundo para aliviar-me, mas minha respiração estava rápida, assim como meu coração ao se deparar com o quarto que eu dormi. O mesmo quarto de hóspede que Cecília arrumou no início de tudo, só que com um detalhe diferente: ela estava do meu lado, intacta e como se tudo fosse um sonho, uma ilusão, e ela estava muito feliz. Estava segurando minha mão enquanto me encarava aliviada, trazendo a obra prima que era seu sorriso consigo. Seus olhos saltitaram e brilharam quando me viu acordar. Infelizmente não pude responder de forma equivalente; eu estava assustado e confuso ainda, tentando entender como saí de lá e vim para cama, como se nada tivesse acontecido.
Cecília mudou seu semblante quando notou meu assombro, ficou preocupada e apertou minha mão como se estivesse dizendo “ei, estou aqui”. Indaguei um pouco ríspido:
— Que p***a acabou de acontecer?! Tipo... Estávamos mortos, não é? Pode explicar o que é isso tudo?!
Cecília levantou-se e deixou seu chá na cômoda que estava no quarto, se aproximou de novo e se sentou na cama comigo:
— O chá é uma p******o. Toda vez que bebemos, temos a chance voltar para cá, mas Sombra garantiu que se encarregaria de nos trazer.
— Então estávamos protegidos? Podemos morrer quando quisermos?
— Na verdade, é uma possibilidade... Por isso devemos tomar cuidado, senão podemos nos perder. Ah! Cecília olhou de um lado para o outro, como se buscasse algo, depois mostrou toda eufórica, tentando me confortar: nosso passe para irmos ao mundo que queremos; está aqui. Eu consegui... Na verdade, conseguimos. Espero que esteja pronto para dizer adeus e usarmos o Seteálem pela última vez. Agora é para valer e digo... Nada foi em vão, e logo estaremos livres para vivermos e descansar.
Contemplei-a desconfiado e confuso com o rumo de toda essa situação. A meu ver, talvez estivéssemos mortos afundado naquele lamaçal de cadáveres. Isso seria apenas minha mente voltando para cá tentando confortar minha passagem pro próximo mundo. Como eu poderia descobrir se era real ou não? É possível que eu esteja trancafiado na minha mente ou, sei lá, passando por um teste. Testei do meu jeito para garantir que ela e esse mundo era real:
— Fiz uma viagem com Caio, sabe onde foi?
Cecília ficou confusa, serrilhou seus olhos confusa contra os meus. Ela pensou, mas questionou:
— Como posso saber de algo assim? — redarguiu com um sorriso descontraído.
— Sabe o que aconteceu lá?
— Seja mais específico, meu bem!
— Quando estávamos no fundo do mar, do rio, sei lá. O importante é que nos afogamos, pelo menos, foi o que pareceu.
— Está falando de quando agiu feito um p********o?
— Ahn...! Na verdade.
Cecília caiu na risada de forma súbita, e por mais que eu quisesse rir, estava confuso ainda. Então apreciei sua felicidade em silêncio e envergonhado, porque sei o que ela lembrou.
— Apenas brinquei com você. Teria feito a mesma coisa, se eu fosse você. Fomos atrapalhados, afinal.
— Foi como um adeus, não é legal.
Me levantei ainda estonteado, indo em direção à porta. Cecília falou comigo um pouco aborrecida, me questionando:
— Ouviu o que eu disse antes? Pegamos o passe.
— Achei que eu estaria pulando de alegria quando soubesse disso, para ser ainda mais honesto, jurava que estaria aprontando tudo para partir. Se você entrasse na minha cabeça, entenderia minha “indiferença”.
— Ok. O que você precisa saber? — perguntou rispidamente.
— Uou, calma lá, não estou achando r**m nossa conquista. Era tudo que queríamos desde quando coloquei os pés aqui, o fim. Entenda que ainda to processando o fato de termos morridos e ressurgidos. A explicação foi simplesmente chá. Isso quer dizer muita coisa...
Disse isso pensando nas vezes que senti a morte agarrar-me. Quando seu sussurro veio em calafrio, os momentos quando acordarmos e gritamos vitoriosos por estarmos vivos graças aos nossos esforços. Na verdade, era um chá que nos trouxe aqui, e foi isso também, ao ligar aos poucos os pontos em um curto tempo. Isso não me incomodava de forma alguma, pelo contrário; era esplendido. Então por que esconder um selo tão poderoso assim? Omitir os fatos dizendo que tínhamos que fazer isso ou aquilo? O que mais eu achava saber. Não atrevi perguntar em uma só tacada, apenas disse:
— Aquela vez de balançar aquele chaveiro foi o chá? Não precisa responder, se não quiser, mas saiba que acho importante.
Cecília pensou um pouco, perdendo seu olhar apreciando os cantos do cômodo que estávamos. Respirou fundo, olhando para baixo se preparando para falar, selecionado as palavras mais objetivas:
— Também, mas o pingente funciona, e graças a ele sobrevivemos e não nos perdemos por aí.
— O que realmente aconteceu naquele dia...?
Cecília hesitou um pouco para falar, silenciando-se por alguns instantes, mas insisti que falasse:
— Por favor, isso não alterará nossos planos. Só preciso saber do seu poder e a magnitude dele.
Acabei pressionando-a e eu reconhecia isso, mas precisava saber da situação para lidar melhor com tudo, até mesmo com ela. Não vou mentir que me escorei no fato dela poder me retirar do perigo a qualquer momento com o Sombra, agora. Por isso toda informação atrelava em uma cautela e melhoria. Além disso..., Caio disse algo que perturba agora meus pensamentos, mas acredito que tudo agora deve ser explicado melhor. Ela sabia que oscilar agora não era uma boa ideia, porque era primordial para nossa relação. Em seu curto silêncio que logo foi ofuscado pelas suas palavras e sua voz, respondeu:
— Naquele dia... — Cecília respirou fundo mais uma vez e olhou bem em meus olhos — devíamos ter morrido. Todos nós.