Fiquei atônito, mas nem tanto. Depois de me preparar para o que poderia ser a resposta, aquilo foi reconfortante para minha ansiedade. Não saber e especular dentro de mim o que poderia ser e ter nenhuma solução era pior. Isso desencadeou uma série de questionamentos ligados a nós, não pelo fato de Caio falar aquilo, mas tudo em volta. A morte era uma delas, agora. Engoli a seco antes de reagir e acabar com aquele silêncio eloquente:
— Você pôde ver como morremos?
— Sim.
Ambos titubearam para prosseguir com a conversa, mas o silêncio era torturador e repleto de medo. Antes que eu perguntasse, Cecília se antecipou:
— Quer saber como foi?
— Acho que sim... — retruquei inseguro e perdido em meus questionamentos.
— Vamos para a sala, pelo menos? Irei preparar chá.
— Certo, vamos. Posso ver o caderno?
— Acho melhor não.
— É só nossa passagem, o que poderia afetar tanto assim?
— É que têm outras informações que podem deixar você mais assustado.
— A ponto de afetar nossa viagem?
— Sim.
Expirei o ar e soltei um sorriso, tentando me desprender da frustração de me tratar como passarinho que precisa esperar a mãe transformar o alimento em papa. Era pior! Pelo menos o pássaro pode voar depois, mas eu só agora enxergava minha situação como “sim, senhora, não senhora”. Não escondi e ela saberia, de qualquer forma, como me senti. Saí dali ressentido, sem falar mais nada acatando novamente suas palavras. Ela ainda gesticulou para me segurar, mas hesitou assim que notou eu partir sem nem olhar para ela. Fui para sala e fiquei encarando os mortos desfilando até Cecília chegar com o chá. Ela estava lidando com o fato de eu duvidar agora, e eu com o fato de estar encarando tudo às cegas, ainda. Não estou sendo m*l-agradecido por estar a salvo. De forma alguma. Só quero saber de vez com o que estamos lidando.
Não demorou tanto dessa vez para ela chegar. Seus olhos estavam tímidos para encarar-me, ela me olhava de relance, rápido como se estivesse envergonhada. Quando ela colocou o chá, me juntei à mesa com ela, sem trocar uma palavra. O clima estava tenso, e ninguém parecia à vontade para conversar e quebrá-lo. Cecília estava com as mãos baixas segurando algo, seus olhares também estava baixo e ela parecia tomar coragem. Ela ergueu suas mãos e as estirou na mesma, com o mesmo livrinho que mostrou no quarto. O mesmo que eu disse que desejava ler:
— Talvez eu tenha exagerado...
Fiquei calado apenas encarando suas mãos postas com livro a mesa, esperando o seu próximo passo. Não interrompi, dessa vez nem acrescentei nada:
— Tratei você como alguém frágil e indefeso por não saber, mas sei que nem queria estar envolvido nisso. Tudo é uma novidade ainda e agir de forma impaciente e resguardada só vai deixar você confuso. Se quiser ler... — Completou embaraçada, engolindo a seco em quase cada palavra, realizando algumas pausas.
— Acha que eu devo ler? Preciso saber alguma coisa daí? — Me senti m*l após ter pressionado a ponto de ela ceder assim.
— Quero que descubra, estamos lutando por nossa liberdade, então... Seria irônico controlar as coisas assim só porque acho que não vai entender. — Seu sorriso para descontrair toda aquela tensão me deixava ainda mais desconfortável a tal ponto que nem sabia como olhar para ela.
Não estava arrependida, apenas se sentia m*l e sua fraqueza foi como a minha: se apaixonar e amar. Essas foram as pouquíssimas palavras que dissemos um ao outro, depois ficamos em silêncio e a bravura para se pronunciar era escassa. Na verdade, sumiu e ficava mais difícil se desvincular daquele ressentimento.
Segurei o livro e afundei meus olhos na capa, me perguntando se devo, o que tinha? Seria um choque? Processar tudo aquilo realmente me deixaria com um pé atrás para seguir? Um livreto simples, mas com segredos profanos, talvez? O mundo de Seteálem inteiro nas minhas mãos. Desfiz minha cerimônia e folhei as páginas depressa, apressado para encontrar as informações promiscuas a meu senso comum. Olhei tudo tão rápido que não demorou muito para que eu finalizasse o livreto, e não achei nada de mais. Eram só alguns símbolos, coisas parecidas com receitas e uma imensa runa, de fato. Virei as páginas mais devagar, não descobri nada que me deixasse surpreendido o suficiente, mas me deparei só com baboseiras — o meu ver. O mais chamativo era o símbolo enorme que logo indaguei Cecília sobre:
— Esse é nosso passe?
— Ah! Sim, sim, esse mesmo.
— Não encontrei nada que me deixasse assustado o suficiente, como disse. Não acha que exagerou? — Estava mais aliviado e eu até sorri por mais uma vez ela acreditar em mim.
— Sei lá... São várias coisas sobre feitiçaria. Vai que isso te afastasse ou pensasse que eu sou como ele. — E novamente a vi com medo de afastar-me, esse era o principal motivo de querer que eu não pegasse o livro. Não entendi nada daquilo, nem como se usa, mas isso a deixou insegura. Me senti um b****a por pressioná-la por algo assim, mas isso tem muito mais a ver que só uma paixão. Era parceria.
Avistei o livro pela última vez e devolvi. Ainda sorrindo e penetrando em seus olhos cristalinos esverdeados aliviados. Os mesmos que estavam sobrecarregados e a espera do meu alvará, transbordavam de novo sua alegria. Antes que eu falasse com ela novamente para sugerir nosso avanço e pôr um fim nessa batalha exaustiva, ela previu de novo meus passos e convidou:
— Vamos acabar logo com isso? Estou ficando ansiosa já. — Disse enquanto segurava minha mão.
— Iria dizer a mesma coisa. — Beijei suas mãos macias e cheirosas, tão delicadas, mas firmes e continuei — Temos uma vida para viver.
— Não iremos sobreviver nessas circunstâncias mais, agora sim, estaremos livres para sermos quem quisermos. Tenho tanta saudade do mundo...
— Agora que comentou isso, parece fazer anos que não vejo o mundo lá fora. Acho que precisarei de um novo emprego que sair daqui.
— Acharemos um novo. Juntos. — Respondeu sorrindo, repleta de euforia e com uma ansiedade contagiante.
Ela estava tão radiante que não me imaginava fazendo nada que a abalasse, não queria fazê-la esperar mais. Então só disse que estaria esperando-a na frente do portão, e dei ênfase para que não esquecesse do livreto com nosso passe. Meu alívio estava mais intenso comparado com as outras vezes, não senti dificuldade alguma encher meus pulmões de ar. Meus pensamentos estavam mais cintilantes que a luz acima de nós — isso se não fosse meus pensamentos ali. O sorriso que eu tinha, nunca se desfazia. Tudo em meu eu estava inabalável, e o que me incomodava era minha inquietação que dava um leve desconforto em meu estômago. O melhor calafrio que senti foi dessa noite, porque era também da minha ansiedade para sair daqui. O ponto final que queríamos, chegou, e nosso incomodo agora era minha efervescência. Nem mesmo Victor, Caio, atormentados, ou seja, lá o que for. Era só a imensa vontade de dizer adeus a tudo isso.
Cecília veio às pressas. Nos abraçamos com intuito de confortar ansiedade um do outro, e ela me deu um selinho repentino. Apreciei seus lábios e mergulhei em seus olhos mais uma vez, meus dedos permearam seus lábios perfeitos. Desejado desde aquele bar me deleitar em sua boca, não fiz muitos rodeios para naufragar minha boca na dela e sentir aquele calor. Paramos nosso beijo, recostamos nossa testa um no outro com nossas respirações ofegantes. Ela olhou para mim tão apaixonada quanto eu e disse:
— Quero muito mais que isso quando sairmos daqui.
Respondi seu sorriso pecaminoso, repleto de malícia somente com um riso do tipo “pode apostar que terá”. Fomos de mãos dadas até o bar, caminhando em passos largos para chegar logo. Não preciso descrever que quase sempre o bar estava lotado, sempre com rostos novos. Cecília desvairada foi até o centro e disse domada de empolgação:
— HOJE É TUDO POR MINHA CONTA, MEUS AMORESSS!
Todos berraram em comemoração, e eu nem queria saber como ela ia pagar isso depois, mas estávamos felizes demais pensarmos em gastos. Fabrício se contagiou facilmente com nossa euforia e já foi nos servi. Escolhemos a mesa do lado de fora, dessa vez. Éramos invencíveis, imparáveis! Nada poderia nos derrubar, agora — só a quantidade de bebida que iriamos ingerir. Já estava perdendo a conta de quanto tínhamos bebidos em curto tempo, mas não queria sair de lá. O afago estava fervoroso, dançavam, sapateavam e cantarolavam. Era como uma festa pagã cultuando seus deuses o festejando com muita fartura. A música estava tão intensa que todos os instrumentos adentravam meus pensamentos fazendo meu pé acompanhar o ritmo. A festa brilhava agora mais que a lua, e não tinha dúvida alguma de como isso estava sublime! Eles riam, contavam as piores piadas e gargalhavam. A bebida vinha, caía e derrubava quem bebia. A noite era eterna e aquele bar só atraia mais gente. Cecília não dançava mais só nem cantava. Até os músicos foram para o meio. O bar lotou a ponto de fecharmos uma rua com várias mesas, pessoas bêbadas e sem pudor algum. O maior pecado daquele anoitecer era quem não desfrutasse o máximo daquela noite. Chegou um certo ponto que Fabrício trouxe bebida e realmente tive que recusar, mas ele insistiu e acabei cedendo. Só ficava apreciando aquele clima todo com minha cara de bobo de tão felizardo e aliviado. Não demorou muito para fitar a bolsa com o instrumento da nossa vitória, com a m***a do nosso livreto bem ali que iria garantir que nossa saída. Lembrar disso instigava tantas emoções que não cabiam palavras! Puxei a bolsa e coloquei no meu colo. Procurei o livro e que não demorou muito para encontrar. Dei um abraço de urso e gritei “EU TE AMO, SUA COISA VELHA E ASQUEROSA QUE PARECE NÃO TER UTILIDADE MAIS TEM!”. Não escondi minha alegria, estava estampada no meu rosto para que todos dali também pudessem se divertir e apreciar minha sensação de liberdade. Quem precisa se esconder desse momento? Quem oculta felicidade? Quem deveria se abster daquele momento divino? Isso era um soco naquele desgraçado do Victor. O maldito Victor! VICTOR, os olhos mortos... Derrotado. Estava ali na passarela nos servindo de tapete para limparmos nossos pés. Tenho medo de pisar muito forte agora. Claro, não pensei nisso com intuito de lutar contra ele e sim de sair e não ser torturado por ele. Peguei aquele livro com muita vontade e abri, mas... Assim... Tinha algo de diferente. Eu abri e a primeira coisa que notei foi a capa, o cheiro forte e a página inicial. Tudo bem que eu só passei os olhos, mas estava diferente. Não tinha mais o pequeno sumário, não encontrei mais aquele símbolo destacado e tudo: do começo ao fim, eram só anotações. O final estava inacabado com “meu erro foi desejar uma liberdade que eu nunca poderia alcan”