PT. I Condenado por Desejar Liberdade

1812 Palavras
O mundo dos mortos não era uma novidade, afinal. Desde quando era novo, aprendi a lidar com ela e o rancor. Recentemente busquei escrever aqui como válvula de escape, pois é um único momento que atinjo o que tanto falam da liberdade. Essa é a finta, pelo menos. Quando descobrimos mais e mais de Seteálem, você fica mais assustado com os aspectos disso estar ligado a nós, tanto mental quanto no espírito. O mundo é quase todo maleável e age em sincronia conosco, podemos interferir sem sabermos de nada, mas o pior é quando alguém descobre sobre as coisas do Seteálem. As leis que ligam a mente a alma podem ser catastróficas, e descobri isso enquanto “vivia” como vândalo e aprendendo com um mento que só vigiava o cosmos. Minha família eram proprietários de grandes terras e sempre notáveis com a qualidade de seus produtos e a oportunidade que davam. Não posso desacreditar que isso atraiu proporcionalmente maus olhares também, porque onde estávamos era uma constante briga por poder. Em uma tarde de almoço com minha família, presenciei algo que nunca criança desejaria. Era o dia do meu prato predileto: carne de porco. Estávamos reunidos para celebrar nossa conquista como fazendeiros e empregadores, várias pessoas foram convidadas para festejar. No início, quando encontrei o Vigia do Cosmos, ele ficou surpreso quando vim aqui, porque ninguém lembra quando morreu. Há condições, mas são raríssimas, e eu fui uma delas porque sabia e estava pronto para morrer, e ansioso para retribuir o que me causaram. Nossa festa estava maravilhosa, estavam todos bêbados. Nossa família sempre se desentendeu com a rival por causa de seus métodos mais atrativos. Eram os Bragança contra os Ferraci e suas posses e riquezas duelando, mas isso estava passando dos limites quando houvera incêndios criminosos. A justiça sempre nos negligenciava porque éramos moral. Isso chegou a um ponto em que todos da minha família foram sequestrados, e “ninguém” viu. Levaram eu, meu pai e minha mão para um local distante, onde o sol não passava, os sons não saiam e ninguém ousou pisar para civilizar. Ficamos vendados, boca silenciadas e amarrados, fomos torturados, com exceção de mim que eu era uma criança. Vi coisas brutais antes deles morrerem só por causa de jogo de poder, coisas que queria esquecer, mas isso atormentou minhas memórias até o meu fim e um pouco no meu recomeço aqui. Quando terminaram o que fizeram, me olharam com aqueles olhos carregados de morte, frieza e nojo, como se eu fosse criminoso. Todos tinham ódio de mim porque carregava um sobrenome e nasci por acaso em um tempo como esse. O líder pareceu simpático, mas era só fachada. Me sedaram para aliviar minha dor, costuraram minha boca para que eu não pudesse gritar e amarraram meus pés e mãos. Me deixaram abandonado naquela neblina fria, esquecido, sem como beber água e nem como comer. Não durei muito tempo, e me entreguei ao pior, mas acreditei que; custe o que custar, eu estaria esperando-os em algum lugar, pronto para sofrerem mesmo depois de mortos. Jurei amaldiçoar eles a eterno sofrimento e eu daria um jeito de garantir isso pessoalmente, não daria paz e tampouco liberdade. Ficariam em eterno entre céu e inferno. Morri crendo que um dia iria rever-los e sentira quando estivesse onde eu estaria.   Foi quando, pela primeira vez, tive contato com Seteálem. Jamais esqueci minha promessa e meu desfecho. O local não era vazio, só a sensação que era diferente, talvez por estarmos mortos? Ou talvez seja uma zona diferente do qual eu estava acostumado. O ambiente tem manhãs, tarde e noites. Fiz inúmeras sondas andando só e me apoiando em informações avulsas, por exemplo: O bar do Fabrício. Esse local, dia após dia, mudavam as facetas, exceto esse demônio. É um ponto de encontro dos mortos recentes, que forma inconsciente chegam lá. Não há explicação de como chega lá, nem do porquê você se apega aquela ambientação. Muitos tem um preconceito desse maldito lugar, mesmo que nunca tenha frequentado um bar antes, esse será seu lugar com uma falsa memória. Quando apareci por aqui, estava adulta, com uma roupa simples e ridícula. Todos sorriam sem parar de tão entorpecidos que estavam. Os bebuns, na verdade, estão buscando euforia que nunca pode ser encontrada em suas vidas pacatas. Fabrício só é o cara do equilíbrio, dança conforme a música. Tudo que fez-me atualizar do mundo, foi através das altas conversas que esses desgraçados cuspiam, era impossível deixar de escutar falando tão intensamente. Certa vez, uma moça apareceu e todos os dias ela falava sobre o mundo e sobre seus sonhos. Ela era coisa mais viva naquele bar, e até uma pessoa amarga como eu notei. Sonhava mais alto que os prédios que tanto falavam, que tocava e arranhava o céu. Sua paixão estava além que ela mesma descrevia, e nos contagiava, e sua despedida era o que mais doía. Houve o dia em que ela não precisou mais se despedir, nem nos transbordar com suas histórias e sonhos, e preencher nossas almas vazias com saudade. Ela partiu e eu soube o porquê, nada além de; aceitar que jamais iria tão longe enquanto morta. Houve momentos em que Fabrício me olhava atravessado, como a maçã podre daquele local, mas minha verdadeira intenção, era reencontrar os malditos e me vingar. Em uma noite fria e desolada, cheguei com mesmo olhar mórbido e sobrecarregado de mágoa, procurando os indigentes. Fabrício me fitou com uma cara mais f**a que de costume e dirigiu-se às pressas até mim. Me puxou meu braço para dizer “está infestando o bar com essa sua energia”, mas ele não conseguiu pronunciar a última palavra, depois terminei para ele. Ainda proclamei que o lugar era morto, vazio e fantasioso. Quanto mais minha fúria e angústia se intensificava, mais atraia atenção das almas perdidas, e aquilo incomodava demais. Então fui me retirando e encarando todos dali, mas quando eu dei as costas irritado, escutei uma voz que rasgou meu pingo de racionalidade. A voz congelou-me não porque temi, mas sim por ser tomado pelo frenesi ao reconhecer de quem era. Virei lentamente com um semblante diferente, ofegante e estagnado, em busca de como reagir. Ele perguntou se tava tudo bem e se tinha algum problema, mas antes que Fabrício respondesse, segurei seu ombro com muita força e trouxe vários olhares comigo de quem estava no bar. Ele apenas disse “aqui não”, e vi, em seguida, uma densa neblina e o mundo mais envelhecido. Assim descobri Seteálem e como ele funcionava. Nada deve interferir ou perturbar o mundo dos mortos nem dos vivos, mas Seteálem é como se fosse um trem que parava em inúmeras estações, e em um curto intervalo, o que eu pudesse fazer, era lá. Não descobri isso nesse dia porque era minha primeira vez, mas fiz tudo do meu jeito para realizar o máximo de sofrimento para ele. Assim que a neblina se dissipou e trouxe um lugar envelhecido do nada, junto com o miserável que eu segurei o ombro, deferi um golpe em sua face, mas ele se defendeu. Ele sabia lutar, então levei uma surra e m*l conseguia ficar de pé após nossa breve luta. Seu golpe na boca do meu estomago foi em cheio e quase nocaute. Fiquei no chão me contorcendo de dor, como se eu estivesse vivo e sendo pisoteado, mas lembrei de algo: eu já estou morto. Foi nesse momento que me levantei enquanto era esmurrado e quis assombrá-lo ainda mais. Me concentrei o suficiente para voltar a minha idade de quando fui assassinado, e como estava meu corpo de quando fui assassinado. O assassino ficou estupefato, recuou tão depressa que senti sua personalidade viril e destemida esvair e aquilo me inundou de prazer. Ele não encontrou palavras para se expressar, sua cor estava ainda mais pálida e eu ainda mais satisfeito por sentir seu desespero. Quando estava quase colado nele, finalmente teve coragem de falar “você morreu”, e eu respondi “e você também, mas irie garantir que sofra mais do que pôde sofrer em uma vida”. Esgotei todas as minhas forças nele, mas sempre lembrava que tudo era ilimitado, quando se estava morto, até mesmo o sofrimento. Então da mesma forma que morri, assegurei que ele ficasse do mesmo jeito e a minha mercê. Sua boca costurada iria garantir que nunca berrasse por aí sem meu consentimento e que ninguém conseguisse ajudá-lo. Andaria por aí acorrentado para que jamais ousasse desfazer meu trabalho e de seu sofrimento. Naquele dia, fiz meu primeiro atormentado. Ele aceitou que estava morto, mas me certifiquei com que acreditasse que eu era o portador de sua alma e só eu cogitaria em libertá-lo, portanto que cumprisse minhas ordens. Não cansava de torturá-lo e fazia com que farejasse por outros como ele para torturar. Cada dia que eu buscava por almas como essas, mais compreendia como Seteálem funcionava com o mundo dos fúnebres. Não demorou muito para que algo maior viesse até mim. O ser se aproximou do nada enquanto eu estava na frente do bar conversando como se me conhecesse há anos, e eu o cortava sem querer descobrir suas histórias impertinentes e sem sentido. Seu carisma não ofuscava meu coração de pura raiva, mas sim minha concentração para canalizar os sentimentos de todos que estava no bar, até encontrar quem eu queria. Estava prestes a dizer adeus a esse i****a. Mas ele ganhou minha atenção quando declarou sua ciência de saber sobre quem somos: mortos em busca de redenção, inocentes e que desconhecia a própria morte. Antes que eu continuasse minha “justiça”, ele disse que eu gostaria de saber mais desse mundo, entender e aprender como aplicar cada coisa. Lógico que questionei a veracidade do assunto, mas o que eu poderia perder? E ele complementou que eu estava ajudando ele agilizar as coisas entre os mortos.Fui em um parque quase sem movimento, com algumas almas repletas de melancolia vagando por lá. Lá, eram mortos que vagavam e sabiam que estavam mortos, mas que só queria desfrutar mais um pouco do mundo. O ser disse que eu deveria ser uma ameaça a construção cósmica, mas meus atos limpavam e triplicavam, agilizando o retardo e a desordem que os mortos causavam. Melhor: eu me livrara dos piores que atormentavam as almas inocentes como se ainda estivessem vivos, e dos comuns que achavam que trabalhavam, achando que são seres seguindo só rotina diária. O fato de respeitar o tempo de aceitação dos mortos era essencial, mas não era saudável por ter uma imensa sobrecarga. Pensei que tudo fosse instantâneo, mas até aqui era exigido paciência e compreensão. Então ele decidiu criar um cargo, algo como regente dos mortos. Em troca, viveria aqui sem problemas e ainda teria as informações que eu precisava.
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