Pré-visualização gratuita Capítulo 1 — O Carcereiro Dela
Eu não podia acreditar no que meus olhos estavam vendo.
Enquanto a viatura passava lentamente pela avenida à beira-mar, o mundo lá fora pareceu congelar. Olhei para dentro do restaurante de vidro e o sangue ferveu instantaneamente, atingindo o ponto de ebulição.
Lá estava ela. Júlia.
Minha mulher, cheia de i********e com outro homem. O modo como ela inclinava o corpo, o sorriso que eu não via há anos... tudo aquilo era um soco no meu estômago.
— Mas que filha da p**a! — O rugido saiu de dentro de mim antes que eu pudesse processar.
O som vibrou no espaço apertado do carro, carregado de puro ódio. Jhonny, que dirigia a viatura, deu um sobressalto no banco ao lado.
— Para a p***a do carro! — eu rosnei para ele.
Minhas mãos esmagavam o estofado do banco do carona. Eu sentia as garras raspando no couro, a fera dentro de mim querendo saltar pelo vidro e rasgar a garganta daquele desgraçado.
— Gabriel? O que foi? — Jonny me encarou, sem entender nada, mas já reduzindo a velocidade pelo tom da minha voz.
— Para o carro agora, Jhonny! — Eu não olhei para ele. Meus olhos estavam fixos na mesa, na mão dela perto da dele, na audácia de Júlia de estar ali, em público, desfilando com outro enquanto o nosso casamento ainda sangrava.
Eu ia acabar com aquele almoço. Eu ia acabar com aquela palhaçada.
— No restaurante ? — ele pergunta.
Eu faço que sim.
Jhonny não fez mais perguntas. Ele estacionou a viatura com um solavanco bem na porta, fazendo os pneus cantarem no asfalto.
Subi os degraus em passadas largas. Eu não me importava com os olhares curiosos ou o silêncio que se instalava por onde eu passava. Entrei sem me identificar. Eu não precisava.
Aquele restaurante era um dos diversos negócios da minha família. A audácia dela me sufocava.
“ Como ela teve coragem de escolher logo aqui para me humilhar? Era um tapa na minha cara, um insulto à minha p***a de linhagem.”
O ódio subiu pelas minhas veias, quente e ácido. Um pouco antes de me aproximar da mesa, eu rugi. Queria que cada pessoa naquele lugar ouvisse. Queria que o mundo soubesse que ela era minha.
— JÚLIA BLACKWOLF!
Ela estava de costas. Os cabelos longos e ondulados caíam como cascatas pelas costas. Notei os detalhes que me faziam querer destruir tudo ao redor: ela havia se arrumado. O vestido preto era curto, provocante, acentuando cada curva que eu conhecia de cor, mas que agora pareciam expostas para aquele estranho.
Júlia se virou em um solavanco. O susto estava estampado em seu rosto. Quando seus olhos encontraram os meus, eu já estava sobre a mesa, invadindo o espaço dela como uma tempestade.
— Ga... Gabriel? — ela gaguejou.
Os olhos castanhos caramelos estavam arregalados, brilhando com um misto de medo e confusão.
Eu não dei tempo para ela respirar. Fechei os punhos e soquei a mesa, o homem ficou branco e se afastou. O líquido tinto se espalhou pela mesa como uma ferida aberta.
— Que p***a é essa Júlia ?— apontei para o envelope com o divórcio, minha voz saindo num tom que faria qualquer lobo da alcateia se encolher. — Você achou que ia se livrar de mim assim? Num almoçozinho romântico no meu próprio restaurante?
O estrondo do meu punho contra a madeira ecoou pelo salão, silenciando até o tilintar dos talheres nas mesas vizinhas.
O homem sentado à frente dela ficou branco, o medo exalando dele como um cheiro podre. Ele tentou dizer algo, as mãos tremendo, mas um único olhar meu foi o suficiente para fazê-lo engolir a própria língua. Se ele fizesse um movimento, eu o rasgaria ao meio ali mesmo, na frente de todos.
— Gabriel, o que você está fazendo aqui?... — Júlia começou. A voz era trêmula, mas carregada daquela teimosia que eu odiava e amava na mesma medida.
— O que eu estou fazendo aqui? O que você está fazendo aqui com esse homem? — Eu ri. Um som seco e sem humor que vibrou no meu peito. — Quem é esse merdinha? Foi para isso que você me mandou essa porcaria de divórcio? Para poder trepar com outro, né?
Ela ficou vermelha instantaneamente. Júlia olhou ao redor, percebendo que todos os olhos do restaurante estavam cravados em nós. A humilhação pública ardia nela.
— Não fale assim comigo! Você não tem esse direito. Não é sobre isso o…
— Me poupe das suas mentiras! — eu a cortei, a voz um degrau acima de um rosnado.
Eu me inclinei sobre a mesa, o rosto a centímetros do dela. O cheiro de vinho tinto e pólvora se misturava ao perfume doce que ela usava, limão, flor de laranja e baunilha, aquele que sempre me desarmava. Mas não hoje.
— Eu não vou assinar nada, Júlia. Você me quis, destruiu a minha vida e agora acha que eu vou deixar você sair livre e feliz? Você não vai se livrar de mim nunca!
— Eu não sou sua propriedade, Gabriel! — Ela explodiu, levantando-se com um movimento brusco. O vestido preto subiu um pouco mais, e a visão da pele dela só alimentou meu desejo possessivo. — Eu já passei sete anos sendo punida por um erro! Já chega. Eu e você não somos mais um casal!
O ar entre nós estava carregado de eletricidade e ódio. Eu podia sentir o coração dela batendo forte, o ritmo descompassado de alguém que não tinha mais nada a perder.
Eu dei um passo à frente, invadindo o espaço que ela tentava proteger. Júlia era mais baixa que eu — a maioria delas era —, o que me obrigava a inclinar o corpo para encurralar seus olhos. O queixo dela estava erguido e o nariz empinado, me desafiando como sempre.
Eles estavam em chamas.
O peito dela subia e descia em um ritmo frenético, o tecido preto do vestido esticando a cada lufada de ar. Por incrível que parecesse, eu amava aquele fogo. Amava como ela se recusava a quebrar, mesmo quando o mundo ao redor estava desmoronando.
Nossas respirações se encaixaram, um ar quente e pesado que cheirava a desafio e mágoa antiga. Quando falei, minha voz saiu baixa, um sussurro ameaçador que vibrou diretamente contra o rosto dela:
— Não tem final feliz, Júlia. Você está presa comigo para sempre.
Eu a vi engolir em seco, mas ela não recuou.
— Eu defino o tempo da sua sentença — continuei, as palavras saindo como chicotadas lentas. — Eu sou seu carcereiro e você ainda não pagou pelo que fez. Pode tirando seu cavalinho da chuva; sua liberdade é minha e eu não vou te dar.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Eu podia sentir o calor da pele dela, o tremor quase imperceptível em seus lábios. Eu era o dono daquela dor, e não permitiria que nenhum outro homem chegasse perto das cicatrizes que eu mesmo cultivava.
Mas eu subestimei o desespero de uma mulher que não tem mais nada a perder.
Em um borrão de movimento, as mãos dela desceram. O clique do metal destravando foi o único aviso que tive antes de sentir o cano frio da minha própria arma contra o corpo dela.
No segundo seguinte, o mundo parou. Ela puxou a minha arma. As mãos trêmulas.
Eu me afastei. Pela primeira vez na vida, minha arrogância sumiu. O terror subiu pela minha espinha quando percebi que ela não apontava para mim. Ergui as mãos de forma instintiva, como fiz tantas vezes em serviço, mas agora o alvo era o coração dela.
— Júlia, o que você pensa que está fazendo? — engoli em seco. Minhas mãos levantadas pediam uma calma que eu não tinha.
Ela destravou a arma agora sem tremer com uma precisão profissional. Eu a ensinei a fazer aquilo. Agora, a percepção de que foi uma péssima ideia me atingiu como um soco.
— Júlia, para de brincadeira. Não tem graça nenhuma. Abaixa isso! — Minha voz saiu trêmula, traindo o pânico que me dominava.
Vi meus homens ao redor, nos cercando. As pessoas se afastaram, o restaurante virou um vácuo de silêncio. Júlia tremia. Uma lágrima solitária escorreu dos olhos dela.
— Eu prefiro morrer do que passar mais um ano se quer presa a você , Gabriel.
As palavras dela doeram. Eu poderia ouvir aquilo de qualquer mulher e não sentiria nada, mas vindo dela... senti meu sangue gelar e o suor frio escorrer pelo pescoço. Naquele momento, eu não queria mais me impor. Eu só queria que ela abaixasse a p***a da arma. Pensei nas crianças.
— Tá bom, tudo bem. Você ganhou, tá legal? Eu deixo você ir... pelas crianças, nossos filhos, pensa neles. Agora, com calma, abai…
Ela apertou o gatilho.