Gabriel estava praticamente nu, o corpo coberto de suor e sangue, acorrentado como um animal selvagem. Os olhos dele eram dois abismos totalmente negros, sem um rastro do azul elétrico dos Blackwolf.
As garras eram longas demais, deformadas. Ele se contorcia no chão, os músculos saltando sob a pele de forma grotesca, atacando o ar e qualquer um que ousasse respirar por perto.
Vi Jade em um canto, tremendo, os olhos marejados de pavor. Ela estava paralisada.
— Vamos, Jade! Tente de novo! — Nathanael gritou, a voz rouca de desespero, sem desviar os olhos do filho.
— Ele não pode se transformar completamente! Você é a companheira de escolha dele, você deveria conseguir contê-lo!
— Ele não me ouve, padrinho! — ela soluçou, a voz sumindo no meio dos rosnados. — Não adianta!
Eu me aproximei. No momento em que meus pés tocaram o cimento frio da cela, o mundo pareceu parar. Todos se viraram para mim em um choque mudo, mas a reação de Gabriel foi instantânea. Ele se ergueu, as correntes estalando com a força do movimento, e veio em minha direção.
Ele não estava totalmente em modo n***o — era apenas metade — mas a visão era perturbadora. As pernas estavam mais largas, os pelos que brotavam da pele eram negros, longos e eriçados, nada parecidos com a pelagem de uma transformação normal. Ele me encarava com aqueles buracos negros no lugar dos olhos, e um grunhido de dor, alto e profundo, veio do fundo da sua garganta, vibrando no meu próprio peito.
Eu não senti medo. Eu sentia tudo. Sentia a agonia dele no meu sangue, o fogo da transformação nos meus ossos e o vazio na minha alma. Ergui minhas mãos. Toquei o rosto dele, que estava ensanguentado, arranhado e marcado pela própria violência da dor.
— Gabriel, eu estou aqui. Volta pra mim — minha voz saiu firme, com uma autoridade que eu não sabia explicar, mas que pareceu cortar a escuridão dele como uma lâmina.
Ele desabou. O grande Alfa Blackwolf, o homem de 1,96m de altura, puro músculo e poder, caiu de joelhos aos meus pés. Naquele momento, ele não era o herdeiro arrogante ou o oficial do exército; era apenas um animal indefeso implorando por paz.
Eu sabia que ainda não era o suficiente. Acompanhei o movimento dele e me ajoelhei no chão sujo, envolvendo-o em um abraço apertado, colando meu corpo ao dele. Senti os espasmos da maldição tentando rasgá-lo, mas continuei falando, sussurrando contra sua pele quente.
— Gabriel, eu estou viva. Você precisa voltar... nossos filhos precisam de você. Eu preciso de você... por favor, volta pra mim.
Quanto mais eu falava, mais eu sentia o corpo dele mudar. O calor febril começou a diminuir, os músculos pararam de se esticar de forma errada e os pelos negros começaram a regredir sob meus dedos. O rosnado foi morrendo, tornando-se um lamento baixo e humano.
— Pela Deusa da Lua... está funcionando — ouvi a voz de Rafael sussurrar ao longe, carregada de um alívio incrédulo.
Eu o segurei com toda a minha força, ignorando o sangue dele que agora manchava minhas roupas. A fera estava recuando, mas eu sabia que, quando ele abrisse os olhos e visse que eu era real, o verdadeiro confronto estaria apenas começando.
— Continue falando com ele, Júlia! — Nathanael exclamou, a voz carregada de uma urgência que eu nunca tinha ouvido antes.
Como se precisasse pedir, pensei. Eu não sairia dali mesmo que ele me matasse. A força que me prendia a ele era mais antiga que as nossas brigas, mais profunda que o nosso divórcio.
— Vamos... estou aqui. Estou viva, volte para nós... — continuei, apertando-o contra mim.
Estava funcionando, mas o processo era lento e c***l.
Os gritos de dor de Gabriel ainda rasgavam o ar, sons que me dilaceravam por dentro. Cada pelo que regredia parecia agredi-lo, cada osso que voltava ao lugar era um estalo de agonia. Eu iria tentar de tudo falar de tudo e então me lembrei de algo antigo e profundo daquela desgraçada que o machucava:
— Gabriel você não está sozinho, ela não vai mais te machucar, eu cuidei de tudo lembra?
Eu sentia como se fôssemos um só; a dor dele era o meu fôlego. Eu não o soltava. Ele não me machucava, apenas se contorcia em meus braços, buscando um alicerce naquela tempestade de sombras.
Aproximei meus lábios da orelha dele. Deuses, como era difícil dizer aquilo depois de toda a humilhação e dor que ele me causou. Mas eu sabia que ele precisava ouvir. Era a única âncora capaz de puxá-lo do abismo.
— Gabriel... eu te amo. Volta pra mim — sussurrei, a voz embargada. — Eu sei que você me ouve aí dentro. Eu te amo, me ouviu?
A transformação foi diminuindo. As garras regrediram totalmente, os tremores cessaram e a respiração, antes selvagem, tornou-se pesada e humana. Por fim, o azul voltou.
Estávamos no chão. A cabeça de Gabriel repousava na minha barriga, o corpo dele pesado e exausto. Ele me olhou novamente com os olhos azuis elétricos que eu tanto amava, mas que agora estavam nublados por uma máscara de dor e alívio. Sem perceber, eu estava chorando. As lágrimas caíam sobre o rosto dele, limpando parte do sangue e da sujeira.
— Oi... você voltou — sussurrei, acariciando os cabelos dele.
Ele me olhava, ainda sem conseguir articular as palavras direito. Foi difícil vê-lo assim, era como um Déjà vu , eu já o vi assim antes totalmente exposto e machucado pela influência daquela mulher maldita que quase o levou à loucura. Não era a primeira vez que eu o via ferido, mas vê-lo sucumbir à Maldição de Sangue era algo que eu nunca esqueceria.
A voz dele veio como um sopro, quase um sussurro quebrado:
— Você... tá aqui...
— Eu sempre vou estar aqui — respondi, minha voz trêmula.
Eu chorava e tremia, segurando-o nos meus braços como se o mundo inteiro dependesse daquele abraço.
A fera tinha ido embora, mas o rastro de destruição que ela deixou em nossos corações ainda estava lá, pulsando sob a pele.