Capítulo 43 - O Peso do Sangue Raro

1790 Palavras
POV GABRIEL BLACKWOLF O silêncio na sala de reuniões era ensurdecedor. Todos se olhavam com uma rigidez calculada. O ambiente, banhado pelas luzes frias da cidade lá fora, parecia o prelúdio exato de uma guerra. Nathanael continuou de pé na cabeceira da mesa, o olhar azul varrendo cada rosto antes de finalmente focar em mim e no meu gêmeo. — O primeiro motivo desta reunião urgente é, obviamente, o estado da Júlia — meu pai começou, a voz grave cortando o ar pesado. — Rafael fez uma descoberta no meio desse colapso. Ele descobriu que a sua mulher é uma loba rara. Uma Luna Nascida. Eu travei na minha cadeira. Minhas mãos apertaram os braços de couro com tanta força que a madeira por baixo estalou. Virei o rosto para Rafael, esperando que ele desmentisse, mas meu irmão apenas sustentou o meu olhar, a mandíbula tensa. Eu tinha ouvido partes da conversa dele com a Júlia no quarto, mas isso... isso ele não tinha me dito. No nosso mundo, Lunas não nasciam. Elas eram forjadas. Um Alfa escolhia uma loba, não importava a classe ou o status dela, e no momento em que os dentes dele perfuravam a pele e a marca era selada, ela se tornava uma Luna. Era a lei da biologia lupina. Porém, as lendas diziam que a cada mil lobas que vinham ao mundo, uma única fêmea nascia com o poder e a autoridade de uma Luna já correndo nas veias, independentemente de ter um Alfa ou não. Era uma anomalia. Algo puramente selvagem e perigosamente poderoso para a nossa espécie. Nathanael não precisou explicar a biologia. Ninguém naquela mesa de mogno disse uma única palavra, mas o peso da problemática esmagou os nossos ombros. — Como vocês sabem, lobas raras são cobiçadas — meu pai continuou, apoiando as duas mãos espalmadas sobre a mesa. — Alcateias inteiras travariam guerras sangrentas para ter a genética e o poder da Júlia. Se a informação do que ela é vazar, as matilhas vizinhas podem até achar que ela é a Sigma Prateada... Meu estômago se revirou violentamente. Ela não era. A Sigma Prateada, a loba mais poderosa de linhagem divina das lendas, existia. E o nome dela era Mia Ashworth. Para o nosso azar — ou para a nossa extrema sorte —, Mia havia nascido bem aqui, no nosso território, e estava vinculada ao meu outro irmão, Bryan. Assim que ele a marcasse, Bryan seria coroado o Rei Alfa. O simples fato de termos a Mia escondida em nosso território já era um segredo guardado a sete chaves, uma bomba-relógio que poderia trazer o exército de qualquer Alfa rival para os nossos portões. Agora, com a Júlia sendo uma Luna Nascida correndo risco de morte e chamando atenção... o perigo havia triplicado. — Por isso eu trouxe a Lyra Starlight até aqui — Nathanael sentenciou, quebrando a minha linha de pensamentos catastróficos. Meu pai estendeu a mão na direção do canto escuro da sala. — Lyra é uma Luna Nascida. E ela vai nos ajudar com isso. Todos estávamos perfeitamente sentados ao redor da mesa de mogno, mas a tensão no ar mudou instantaneamente. Quando Lyra Starlight tomou a palavra, o assombro na sala foi palpável. A aura dela exigia reverência. — Bom, como o Alfa falou, eu sou uma Luna Nascida, vinda da linhagem direta da primeira Luna... que agora é a Mia. Lyra começou, a voz calma, mas carregando um peso ancestral que fez o ar da sala parecer mais denso. Engoli a seco. O silêncio na mesa era absoluto; até a respiração de Emmett parecia ter parado. — Meus poderes são ligados à ressonância espiritual e aos vínculos — ela continuou, os olhos quase translúcidos varrendo a mesa. — Posso aliviar dores de traição, erguer barreiras para diminuir o sofrimento e aplacar a agonia de um cio quando a loba é rejeitada. Rejeitada. A palavra estalou na minha mente como um chicote. Era exatamente o que estava matando a Júlia. — Mas cada Luna Nascida tem os próprios poderes — Lyra pontuou. — Os da Júlia devem ser diferentes. Eu nunca conheci outra como eu. Ela fez uma pausa. O olhar dela desviou para o lado e ela segurou a mão de Orion. Os dedos pálidos se entrelaçaram aos do marido em uma âncora silenciosa, um gesto de i********e que fez meu estômago afundar. — A minha transformação foi estável porque o meu companheiro foi essencial para a minha transição — ela explicou, a voz suavizando ao olhar para Orion. — Por natureza, é um processo terrivelmente doloroso e forte. O remorso me comeu vivo. O ar nos meus pulmões virou vidro moído. Se eu a tivesse marcado... nada disso estaria acontecendo. — Minha antiga alcateia fez de tudo para esconder a minha existência, adotando protocolos rígidos até sermos destruídos recentemente e nos juntarmos a vocês. Os olhos cor-de-rosa de Lyra voltaram para o centro da mesa, agora nublados por uma preocupação densa, quase palpável. — Mas eu nunca ouvi falar de duas Lunas Nascidas na mesma alcateia, no mesmo território ou até no mesmo continente. O desequilíbrio que isso pode causar é imprevisível. Senti cada fibra dos meus músculos ficar dura como pedra. A tensão travou a minha mandíbula até os dentes doerem. Ela não estaria definhando naquela cama de hospital lutando contra a própria natureza se eu estivesse lá para segurar a mão dela. Aquele peso era meu. E a minha própria falha ameaçava quebrar os meus ossos debaixo daquela mesa. Ela fez uma breve pausa. Lentamente, os olhos de Lyra encontraram os meus. Não foi um olhar comum. Foi profundo, cortante, como se ela visse através da minha carne, atravessando meus ossos direto para a escuridão que eu carregava. — Eu também posso detectar o uso de magia indevida — ela acrescentou, cada sílaba batendo no meu peito como um aviso fúnebre. Engoli em seco, forçando meu lobo a ficar quieto enquanto ela desviava o olhar de volta para a mesa. — Minha vida toda eu me escondi — Lyra continuou, o tom voltando a ser clínico. — Tive que tomar cuidados extremos. O principal deles era nunca me transformar durante uma batalha, para não expor a minha verdadeira forma e atrair inimigos. Um cuidado que, caso a Júlia sobreviva, ela também terá que tomar rigorosamente. — Ela vai sobreviver — eu rosnei, trincando o maxilar, as garras ameaçando rasgar a pele dos meus dedos. Lyra não se abalou com a minha fúria. — Claro... — ela murmurou, inclinando levemente a cabeça. — O importante agora é conter essa informação — meu pai interveio, retomando as rédeas da reunião. Alaric Ashworth se endireitou na cadeira. A postura letal do Beta transpareceu sob o terno impecável, a mente estratégica já calculando os próximos movimentos no tabuleiro de xadrez da nossa espécie. — Isso eu já estou fazendo — Alaric declarou com frieza. — Exatamente como faço com a minha filha. Agora, termos duas Lunas Nascidas aqui e a única loba Sigma Prateada no nosso território é algo grandioso para nós. Uma força bélica e política inestimável. O que nos leva a pensar, visando a segurança dela e da estabilidade da alcateia, que Arthur Blackwolf deve marcá-la. O ar nos meus pulmões evaporou e virou fogo puro. — Como é que é? — eu rosnei, a fúria cega me dominando. Ergui o braço e soquei a mesa de mogno com tanta força que um estalo alto ecoou pela sala, a madeira maciça rachando sob os nós dos meus dedos. — Gabriel, calma... — a voz de Nathanael ecoou, não como um pedido paternal, mas como um comando absoluto de guerra. Meu pai liberou a sua aura esmagadora de Alfa Supremo. A onda de poder bruto varreu a sala de reuniões, pesando toneladas sobre os meus ombros, forçando Gideon a recuar rosnando na minha mente e me pregando de volta na cadeira. — Gabriel, o poder da Júlia é colossal — Alaric pontuou, a voz polida, tentando ser a voz da razão e o lobo de conselho que nasceu para ser. — Não é maior do que o da Mia, porque a Mia é descendente direta da nossa Deusa criadora, Selene. Mas as Lunas Nascidas são dessa mesma linhagem. Não podemos permitir que esse nível de poder caia em mãos erradas... nas mãos de criminosos como os Leone. Mas o meu sangue fervia nas veias como magma. — Com certeza não podemos — Emmett concordou, cruzando os braços, a repulsa pingando de cada sílaba. — Os Leone são um câncer na nossa alcateia. Um poder desses nas mãos deles seria terrível para nós. Uma sentença de morte. Eu me levantei. A aura do meu pai tentou me empurrar de volta para a cadeira, mas Gideon rugiu tão alto na minha mente que quebrou a submissão. Minha mulher estava morrendo na sala ao lado por minha causa. A mãe dos meus filhos. O primeiro e único amor da minha inteira e fodida vida. E eu tinha que ficar ali, sentado naquela mesa de mogno maldita, ouvindo a minha própria família negociando a vida dela como se ela fosse uma arma em um tabuleiro de xadrez político. Aquilo me dava nojo. Eu nasci um Alfa, fui forjado no fogo para liderar e proteger o meu povo, mas, naquele instante, a verdade nua e crua rasgou o meu peito: eu nunca colocaria o bem-estar da alcateia acima do dela. Eu queimaria o mundo inteiro se isso a mantivesse respirando. — Eu não tô nem aí pra p***a nenhuma! — gritei, a minha voz saindo completamente alterada, estilhaçando o silêncio da sala. Apoiei as duas mãos sobre a mesa rachada, inclinando o corpo para frente, encarando o Beta, o Gama e o próprio Alfa Supremo. — A Júlia escolheu o Leone — rosnei, as presas já arranhando o meu lábio inferior. — E eu vou fazer a vontade dela. f**a-se a política. f**a-se o conselho. Quero que se f**a tudo! A vida dela é mais importante do que essa merda toda! Eu estava quase explodindo. A sala inteira parecia encolher ao redor da minha fúria, o ar tremulando com a violência que irradiava do meu corpo. — Chega desse absurdo. O Arthur só toca nela por cima do meu cadáver — declarei com uma promessa letal, dando as costas para a mesa. Mas antes de alcançar a maçaneta, a gravidade da sala mudou. Lyra se levantou. O som suave dos passos dela me paralisou. Ela se aproximou, a aura investigativa e densa cravando os olhos cor-de-rosa diretamente na minha alma. — Gabriel, espere — ela murmurou, a voz calma carregando uma força inquestionável. Ela estreitou os olhos para mim. — Tem algo em você que está me incomodando...
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