Chego na sede Vane Tech, uma fortaleza de sessenta andares que rasga o céu de Manhattan. Algo me diz que isso não é apenas um edifício comercial, mas sim, a manifestação física da mente de Arthur Vane.
As pessoas acham que eu tenho alguns neurônios a mais que as pessoas comuns, mas não, eu só sou esperta o bastante para decidir como usa-los. Eu não perco meu tempo falando sem parar, em noitadas, eu estudo pessoas, eu as observo, e então entendo como pensam.
Sentada na recepção, observo movimento dos funcionários, tão milimetricamente coordenados que parece até coreografado, robotizado – também um reflexo do seu chefe, claro.
Sorrio. É como se eu pudesse conhecer Arthur antes mesmo de colocar os olhos nele. Seu prédio, seus funcionários, é como se eu pudesse senti-lo.
— Srta. Rios? — A secretária de Arthur, uma mulher que parece ter sido esculpida como aquelas estátuas de cera, se aproxima de mim, o corpo ere.to. — O Sr. Vane a receberá agora. Ele preza pontualidade.
Me levanto. Meus saltos batem contra o piso de granito batidas de um relógio em uma contagem regressiva, talvez delatando a minha impaciência – Eu tenho muitas qualidades, paciência não é uma delas. Eu escolhi um terno de corte impecável, azul-marinho, a calça de comprimento até os tornozelos e o blazer acinturado. Deixei parte dos meus fios loiros presos e parte solta em um penteado clean.
— Eu também — Retruco, até porque já são 9.05h e eu acabo de ser chamada, cinco minutos depois do horário da reunião. — Por isso cheguei às 08:45h e passei os últimos quinze minutos analisando por que o sistema de reconhecimento facial de vocês tem um atraso de dois segundos no setor leste. Talvez seja melhor avisar ao chefe.
A secretária falou mais nada, então apenas dou uma piscadela para ela e sigo em direção ao elevador privativo que ela me indicou com o rosto ruborizado. Sorrio. Para o 60° andar, cobertura, é claro.
Quando as portas se abrem, sou recebida por um corredor de vidro que parece flutuar sobre Manhattan, o corredor flutuante leva a apenas duas portas, uma ao lado da outra, mas só uma delas tem o nome desenhado em letradas douradas, que se abriu automaticamente. A outra porta, que julgo ser para a sala de reuniões não se abre, e eu sei exatamente para onde ir.
Quando passo da porta, ela novamente se fecha automaticamente. Em minha frente, finalmente está Arthur Vane, parado, de costas para mim, sem nem se dar ao trabalho de virar de imediato para me receber nem me cumprimentar educadamente.
Passo os olhos por todo seu escritório, é diferente de tudo que eu já vi. Não há fotos de família na mesa, apenas plantas decorativas que parecem ter sido selecionadas por um designer para otimizar o foco, um mini bar e o que acredito ser o banheiro. O ar era purificado e mantido a exatos 16°C.
Sim, gelo.
Arthur é exatamente como eu esperava, terno cinza, impecável, a sala cheirando a tensão e poder. Os cabelos dele são pretos e brilham tão forte que assim como estrelas parecem roubar a lua, cortados em um corte social. Quando ele vira para mim, me encara com seus gélidos olhos azuis. Tudo nele é impecável, suas roupas, sua altura, o rosto desenhado dando destaque aos olhos, o nariz perfeito e um maxilar marcado.
É, admito que de sua aparência eu não posso falar nada além de perfeição.
Vane me analisa dos pés a cabeça, desde os meus saltos até o último fio do meu cabelo. Os olhos dele se franzem como se eu não fosse o que ele estava esperando, sorrio.
— Você está cinco minutos atrasado, para sua própria reunião, Sr. Vane. — Rompo o silêncio, com a voz alma a língua afiada e precisa.
— Está enganada, Srta. Rios, no meu prédio o tempo corre de acordo com a minha vontade. São vocês que precisam estar disponíveis para mim e não ao contrário. — Retruca, me entregando um olhar que poderia fazer qualquer CEO gaguejar, admito, mas não a mim.
Arthur Vane não pode me intimidar. Nem com seus olhos bonitos e frios, nem com sua voz que parece tremer o chão, nem com sua aparência impecável como qualquer outra coisa ao seu redor. Eu mesma tomo a liberdade de sentar e busco a poltrona de couro a frente da mesa dele.
— O tempo é a única comodidade que você não pode comprar, por mais que seu saldo bancário sugira o contrário. E lembre-se, eu sou uma consultora e não uma de suas funcionárias com um contrato fixo. Eu não estou disponível para você. — Rebato, sem piscar. — Mas julgo que perder mais tempo trocando farpas não seja nosso objetivo aqui. Vamos logo ao ponto.
Arthur franze as sobrancelhas, é perceptível o quanto isso está sendo difícil para ele. E na verdade, isso me diverte. Um homem adulto, com mais de trinta, fazendo birra como uma criança apenas porque acha que todos devem a ele devoção. Ele engole seco e senta na sua cadeira que julgo que o faz sentir como se fosse intocável, o dono do mundo e de todos que vivem nele.
— Então... você é a mulher que dizem prever o comportamento de pessoas e mercados como se fossem tabuleiros de xadrez. Pesquisei sobre você. — Cruza os braços como se estivesse me analisando.
— Eu não faço previsões, Sr. Vane. Eu entendo as pessoas. E pessoas são terrivelmente previsíveis em sua ganância. Incluindo você.
Arthur parece ter sido atingido por uma fagulha de algo que não conhece, me olhando com curiosidade genuína, misturada a uma irritação, como se eu realmente o incomodasse. Acho que ser chamado de previsível foi o pior que eu disse para ele em nosso rápida conversa, foi o que mais o atingiu – é claro, ele sempre espera muito de si mesmo.
Vane se inclina sobre a mesa, apoiando as mãos no vidro , os olhos penet.rando tão fundos no meu que é como se doesse olhar para ele.
— Você me acha previsível, Elena? — Seus olhos continuam imóveis, e eu mantenho os meus firmes também, sem vacilar, sem desviar, o enfrentando.
O uso do meu primeiro nome foi uma tentativa clara de me desestabilizar, uma invasão do meu espaço, quase não me deixando respirar. Inclino a cabeça levemente para o lado, estudando as linhas do rosto dele como se estivesse decifrando um código complexo.
— Você acha que está no controle desta fusão porque é o lado aparentemente mais forte, não é? — Digo, a voz baixa e perigosamente calma. Se isso não é ser previsível, eu não sei o que é. Vane é bem simples na verdade, pelo menos é o que tem se mostrada até agora. — Mas o problema de ser o mais forte é que você parou de olhar para baixo, e pode ser por isso que você perde. Sua armadilha virá exatamente de lá, do chão que você evita olhar.
— Julian me disse que você era incomum, esperta, perspicaz. — Arthur murmura, recuando e voltando seu corpo para o lugar, tentando recuperar o controle. — Mas perspicácia pode ser confundida com arrogância.
— E controle pode ser confundido com cegueira. Eu posso te ajudar com o que precisa, Sr. Vane. Eu tenho experiência mas o seu caso é mais interessante, me intriga, eu estou bem disposta a começar. — Agora sou eu que me inclino para frente, não tanto quando ele fez antes, é claro. Só coloco meu corpo mais na direção dele para passar confiança.
— Por quê?
— Porque você me deixa curiosa, não sobre a fusão, sobre você.
— Sobre mim? — Franze o cenho.
— Eu quero saber o que você tanto esconde e tem medo que eu descubra. Porque você sabe que se eu cavar fundo demais, eu posso encontrar algo que você não quer que ninguém veja. — E saber que eu posso ser a pessoa a desvendar esse mistério, me exc.ita.
— Deixe-me adivinhar, é exatamente lá que você quer cavar. — Sua expressão se torna mais séria, como se sombras o abraçassem.
— Exatamente.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Por um momento, vejo algo passar pelos olhos de Arthur, onde ele me deixa por alguns segundos ver algo ali dentro de toda essa sua casca- algo que parece dor, antes de ser rapidamente substituído pelo gelo habitual.
Ele estendeu a mão para o display da mesa e me mostra um contrato em forma holográfica, chuto que tentando me impressionar.
— Seis meses — Diz. — Acesso total, exceto ao meu servidor privado. Você responde diretamente a mim e ao Julian. Se você vazar uma vírgula do que encontrar...
— Você me destrói, eu sei, sem mais trabalhos para mim. — Completo. Passo os olhos rapidamente, e assino o contato assinando meu nome com movimentos em meus dedos, sem muita conversa.
— Você não vai ler?
— Já li o suficiente. — Dou de ombros.
Vane não tem porque querer me prender a sua empresa, ele nem mesmo me queria aqui. Além disso, ele precisa de mim, não vai colocar nada que atrapalhe nossa colaboração. Eu só preciso fazer o que fui contratada para fazer, e cair fora daqui.
— Tudo bem, pode ir. Sarah vai te mostrar sua sala, desça alguns andares e ela estará te esperando no 57° andar. — Explica. Aceno para ele e fico de pé, indo até a porta que volta a se abrir automaticamente. — E Elena? — Chama, eu o encaro antes de sair. — Não me faça me arrepender.
Apenas sorrio para ele e saio da sala.
Faço como ele indicou, desço até o andar 57° e lá já está a secretária dele, a tal Sarah, que já nos conhecemos na recepção. Ela me leva até onde será minha sala, cumprimento algumas pessoas no caminho e é isso, eu nem acho que passarei muito tempo aqui eles e não é amizade o meu foco.
— Você já vai ter os números do Sr. Vane, o Sr. Sterling, e também o meu caso precise de alguma coisa. — Sarah avisa. Eu permaneço em silêncio, de pé, olhando e observando os quarto cantos da sala. — Estão salvos no smartphone da empresa em sua mesa. Seu notebook...
— Obrigada, Sarah, você pode ir agora, tenho bastante trabalho. — Eu a interrompo, voltando a prestar a atenção nela. — Eu vou ficar bem, não preocupe.
— Tudo bem, Srta. Rios. — Acena. Eu aceno de volta, dando-lhe um sorriso e a assisto ir embora. A porta se abre automaticamente também, como julgo ser em todos os ambientes desse prédio.
Será que o banheiro também é assim? Me preocupo.
Vou até a porta do banheiro que tem na minha sala e verifico, agradecida por Arthur ter tido um pouco de cautela com relação a isso. Por Deus, não quero nem imaginar.
A minha sala é compacta, moderna, um designer sofisticado e móveis caros e minimalistas. Eu sento na poltrona de couro e abro o notebook, quase impalpável de tão fino – uma delícia. Começo pelo básico, aprendendo sobre o sistema da própria Vane Tech, eu preciso saber primeiro com o que estou trabalhando. Esse é o primeiro passo. Preciso também entender um pouco da tecnologia que Arthur tem aqui.
O nome Arthur Vane é aclamado e conhecido no mundo da tecnologia, da segurança cibernética, é procurado por várias empresas para produzir seus softwares, para cuidar de sua proteção de dados, entre outros. É lógico que eu já ouvi falar e muito sobre ele. Mas eu preciso de mais, se é para fazer esse trabalho eu preciso entrar na mente dele, entende-lo, saber o que busca. Eu preciso entender o que exatamente ele está fazendo aqui e o que pretende fazer.
Sua tecnologia vai me mostrar quem ele é.