CAPÍTULO 01 — ARTHUR VANE

1969 Palavras
Dias atuais. Estou de pé frente a parede de vidro da sala de reuniões no 60° andar, observando as luzes de Manhattan. Pelo reflexo consigo ver Julian jogado em uma das poltronas, usando jaquetas de couro e brincando com a faca tática que ele carrega para todos os lados junto com ele, passando-a entre os dedos – um hábito que ele nunca perdeu, e faz sempre quando está nervoso. — Você está fazendo aquele olhar de novo, Vane. — A voz de Julian soa como um alerta, como se ele quisesse me parar. — O olhar de quem está calculando o peso da inteligência de cada pessoa lá embaixo e achando o valor decepcionante. — Pessoas são vazias e decepcionantes realmente. — Concordo com ele, mas o termo mais apropriado seria ele dizer que estou julgando e não medindo. — Agora diga o que realmente quer falar. — Os relatórios da auditoria interna chegaram hoje. — Julian começa, e eu sei exatamente onde ele quer chegar, em um lugar que eu odeio. — E, sendo sincero, Arthur? Estamos voando às cegas, e devo dizer, com uma asa machucada. É suicídio. Ainda não me viro, respirando fundo. Poucas pessoas entenderiam o porquê essa mal.dita fusão é tão importante para mim, e até mesmo Julian, que entende, é contra. Mas eu não posso e não vou recuar. Eu nunca desisti de algo que a minha mente me diz que é certo e foi assim que cheguei onde cheguei, no topo. — Eu já revisei os números, Julian, cada um deles. A Aegis Systems é o encaixe perfeito. A tecnologia de criptografia deles vai nos tornar intocáveis. Quando unirmos nossos servidores, eu nunca mais terei qualquer outro rival na vida, serei imbatível. — Sim, se eu finalizar essa fusão, eu garanto à Vane Tech a sobrevivência eterna. — A tecnologia é ótima, eu admito, e o gênio aqui é você então não vou discordar do que poderíamos fazer com ela. Mas os números não estão contando a história toda. — Julian fica de pé e caminha até a mesa, jogando um tablet sobre o mármore. Eu olho alguns segundos, passando os olhos a medida que acompanho o raciocínio dele. — Três empresas de fachada tentaram comprar ações minoritárias da Aegis na semana passada. Eu segui o rastro do dinheiro. O rastro morre em uma conta que tem a assinatura digital de um fantasma. Nós sabemos quem é esse fantasma. Podia não ter o nome dele na conta, mas eu sei. Me viro, estreitando os olhos. Então, ele está comprando ações da própria empresa, enviando o dinheiro para contas fantasmas? — Thorne? — Se for ele, ele ficou muito melhor em se esconder, mais inteligente. — Julian está cada vez mais hesitante.— Se posso dar um palpite, Thorne está vendendo ações de propósito, Vane. Ele quer te atrair, que você fique com medo de perder as ações e compre logo o controle majoritário antes da auditoria final. Eu não posso provar a minha teoria, não consegui chegar até ele. Arthur, você é o melhor engenheiro que eu conheço, e eu sou o melhor em chutar portas e seguir rastros. Mas nenhum de nós dois sabe jogar o xadrez que está acontecendo aqui. — O que você está sugerindo? — Questiono, a voz gélida. Eu odeio admitir que há um ponto cego em meu radar. Eu já revisei tudo, eu mais que ninguém conheço Thorne, ele foi o meu mentor. Me iniciou nesse ramo. E po.rra, eu mais que ninguém sei também do que ele se tornou capaz, e mesmo assim não encontrei nada na Aegis que estivesse errado. Essas tal empresas não estão no nome dele, Julian não pode provar, mesmo essa sendo sua especialidade. Nenhum de nós encontrou um erro, então porque tanta relutância com essa ma.ldita fusão? Eu não consegui convencer os meus acionistas. — Precisamos de alguém neutro e que não olhe para o código, uma mente tão brilhando quanto a sua mais não para números como você, e sim, que entenda de teoria dos Jogos, comportamento humano. Alguém que observe e saiba prever o próximo movimento do Thorne antes mesmo dele pensar. Alguém que faça ele tirar a cabeça da terra. — Essa é grande ideia? Sorrio, seco e sem muita graça, andando inquieto pela sala. — Consultores externos não são uma opção, Julian. Eles são compráveis. Eles vazam informações. Eu não vou colocar um estranho dentro do meu sistema e dar a eles a chave de entrada. Nós temos tudo que precisamos, bem aqui, e eu não vou desistir dessa fusão. — Arthur, a fusão está sendo sabotada por dentro. Alguém está manipulando os algoritmos de avaliação de risco para nos fazer parecer mais fracos do que somos quando não encontramos as provas que você quer. Se continuarmos assim, você não vai comprar a Aegis... você vai ser engolido por ela. — Perco o riso. — Eu entendo você, eu sei porque quer tanto fundir sua empresa com a do Thorne, sei que ele foi importante para você. Mas por.ra, você lutou pela Vane Tech, levantou esse império do nada apenas com sua genialidade. Não deixe seu ego e a culpa te levarem para fundo do poço de novo. — Eu não sei do que está falando, Julian, não tem nada a ver com culpa. — Desconverso, sentando na cadeira na cabeceira da mesa de reuniões. Todos foram embora depois de mais um fracasso no progresso da fusão, mas Julian e eu ainda estamos aqui, discutindo — Sim, você sabe. — Estou fazendo isso pela Vane Tech, você viu a tecnologia deles. Você sabe que se eu conseguir a fusão, se eu comprar a criptografia e toda a IA deles, unindo com o que temos eu terei o monopólio da segurança global. Você não vê o que eu vejo, nenhum de vocês vê, o nosso futuro. — Explico o óbvio. — Acha mesmo que isso é uma brincadeira de criança? Que estou tentando provar alguma coisa ou pedir desculpas por desmontar o castelo de areia dele? Não, po.rra, isso é importante para mim pelo passado, claro. Mas não é apenas isso, eu quero a IA porque é o que preciso para levar minha empresa a um patamar que nenhuma outra vai chegar. Eu quero isso porque a Vane Tech é a realização do que me disseram que seria impossível, pelo menos depois de eu cometer um “erro” grotesco. — Acho que você se tornou tão orgulhoso quanto seu antigo mentor e não consegue ver a falha diante dos seus olhos. Ou assim como ele, você não quer ver? — Insiste. A sala fica em silêncio por um longo período de tempo. — Eu vou adiar a fusão, mas ela ainda acontecerá. De um jeito ou de outro, eu terei essa mal.dita IA. — Rosno. — Você não tem opção. Nenhum dos acionistas vai aprovar a fusão enquanto você não os convencer como Thorne que desenvolveu uma tecnologia tão perfeita, está de bom grado a entregando a empresa de um homem que o destruiu. Eles estão com medo, Vane. — Eu o cerquei, Julian. Não é de bom grado, Thorne não tem outra opção a não ser vender para mim. — Relembro, e ele revira os olhos. — Que teimosia, meu Deus... — Aperta os olhos, voltando a ficar em silêncio. Julian caminha até o bar no canto da sala e serve-se de uma dose de whisky. — É um convite para o jantar, Arthur. O problema é que você é a janta. — Eu conheço os truques dele, acredite em mim.— Acho que Julian as vezes se esquece de quem eu sou. — Thorne é emocional. Ele age por mágoa. O erro dele é achar que eu ainda sou aquele garoto que ele recrutou no laboratório da faculdade e que ele conseguia intimidar. Ele sempre disse que me criou, talvez tenha sido mesmo. Ele criou sua própria destruição. — Esse é o seu erro, meu amigo — Julian retruca, apontando seu copo já vazio na minha direção. — Você acha que ter se tornado frio te torna invulnerável, mas o gelo também racha. E Thorne sabe exatamente onde bater para quebrar você. — A fusão com a Aegis Systems é a peça final do meu legado, e ela vai acontecer. — Reforço. — Está bem, mas precisa convencer a mim e aos outros. — Afirma, me lembrando do problema. — Como? — Já que minha palavra não é o suficiente, como se essa po.rra de empresa não fosse minha, então que assim seja. — Consultoria. — Não, definitivamente não. — Encerro o assunto. — Você quer essa dro.ga de fusão, não quer? Pois isso está além da nossa alçada. Você não consegue convencer os acionistas a aceitarem e eu não consigo convencer a você que isso é entrar no Titanic e Thorne é o iceberg. Eu passei a tarde nos subníveis da Aegis, Arthur. O clima lá é... sombrio. Até engenheiros veteranos estão perdidos. — Começo a realmente começar a desconfiar de algo. Julian normalmente não é tão insistente, nem costuma gastar tanto tempo com alguma coisa. — Nossos firewalls são os melhores do mundo. Se houvesse um vírus, teríamos detectado na hora. — Odeio dar o braço a torcer, odeio quando Julian esta certo. Mas mesmo que ele esteja minimamente certo, eu confio em minha tecnologia. — E se não for um vírus? — Julian larga o copo depois de tomar a segunda dose como se o fizesse pensar melhor. — E se for uma armadilha comportamental? Algo que só se ativa quando os sistemas se fundirem? Arthur, estamos lidando com o homem que te ensinou tudo. Ele sabe como você pensa. Ele sabe que você confia na lógica acima de tudo. É por isso que precisamos de alguém que Thorne não espera. — Eu vou pensar em um jeito que eu não precise colocar um possível olheiro dentro da minha empresa. Sem estranhos se envolvendo na maior fusão da minha vida. — E se não for um estranho comum? — Julian dá um passo para mais perto, vindo até mim. Busco nele hesitação, um pouco do seu costumeiro temperamento irônico e irritante. — Você já tem um nome, não tem? — A exaustão começa a cobrar o preço, minha cabeça dói, meus olhos ardem. Se eu olhar para mais uma tela essa noite, eu juro que queimarem alguns neurônios e vasos sanguíneos. Julian sorri, o tipo de sorriso que indica que ele já fez o dever de casa. Seu discurso estava pronto desde o início, para me convencer a aceitar esse mald.ito consultor. Estou de mãos atadas. Eu odeio com todas as forças ceder o meu controle para alguém e é exatamente isso que Julian está me obrigando a fazer. — Elena Rios. Ela deu um nó até nos advogados de um Quartel e saiu ilesa. Ela é brilhante, é jovem e, o mais importante, ela odeia jogadores que trapaceiam. — Ela vai ser um problema — Uma mulher? Não que eu seja um machista que acho que não trabalham bem, elas trabalham, mas também são temperamentais. — Ah, com certeza vai. — Julian ri, caminhando em direção à porta. — Ela vai ser o seu pior pesadelo, Arthur. E, se tivermos sorte, ela vai ser o pesadelo do Thorne também. Vou mandar os arquivos dela para o seu e-mail pessoal. Tente não se apaixonar quando ver o currículo dela... ele é intimidante até para você. Observo Julian deixar a sala de reuniões. Então volto a ficar de pé, olhando novamente através do vidro, há uma sensação estranha e incômoda no meu pe.ito. Pela primeira vez em dez anos, é como se o controle que tanto prezo está prestes a escapar por entre meus dedos. — Elena Rios... — Sussurro.
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