Luiza
Eu aluguei um pequeno apartamento de um quarto em Porto Alegre e comecei na mesma semana a trabalhar em uma cafeteria. Apesar de tudo, eu precisava ser feliz pela minhas mãe e apesar de não vê ainda uma forma disso acontecer, eu precisava tentar.
Depois de quase três meses que eu havia me mudado para Porto Alegre, eu recebi a ligação de uma agência de modelos. Pelo menos foi o que eu pensei.
A pessoa que entrou em contato me informou que tinha visto minhas fotos nas redes sociais e gostariam de me contratar para alguns trabalhos como modelo.
Para isso eu precisava me mudar para São Paulo, mas me deixaram bem otimista quando disseram que pagariam minhas despesas, como passagem de avião, hospedagem, entre outros custos. E que só quando eu chegasse lá e começasse a trabalhar que eu iria pagando parcialmente as despesas que tivessem comigo.
Decidi aceitar, achava que, na pior das hipóteses, se eu não me adaptasse, eu voltaria para Porto Alegre.
Eu saí do Sul em um vôo sem escalas para São Paulo. Chegando lá, o combinado seria que teria alguém com uma plaquinha com o meu nome me aguardando no aeroporto.
No desembarque vi uma mulher com uma placa com o meu Nome Luiza Schneider na mão. Fiz sinal para ela e nos apresentamos.
— Oi, sou a Luiza Schneider da Plaquinha.
— Prazer Luiza, me chamo Karla. Seja bem vinda! Vamos que vou te levar — falou com um sorriso que de cara achei meio superficial.
Algo me dizia que tinha alguma coisa errada com aquela mulher e eu me escondendo muito por não ter fugido naquele momento.
***
No caminho fiquei observando e admirando a cidade. Nunca tinha vindo a São Paulo e estava encantada com tantos prédios e como eram altos.
Depois de alguns minutos não sei exatamente quantos, pois me distrai observando tudo no caminho. Nós chegamos no que parecia ser uma boate.
— Achei que você iria me levar para onde vou ficar hospedada?
— Sim, mas tem alguém aqui querendo falar com você — falou com um sorriso e naquele momento eu entendi que as minhas suspeitas estavam corretas, mas infelizmente eu já não conseguia mais voltar de onde eu vim.
Entramos e lá dentro as luzes eram escuras. Vi um palco, um bar, algumas garotas muito bonitas passando, muitos homens altos e fortes, de terno e gravata, que eu deduzi serem seguranças.
A Karla foi me guiando por um corredor que tinha uma porta no final e que dava para um escritório.
Na porta do escritório pude observar dois seguranças, que mais pareciam dois armários. A Karla bateu na porta e alguém mandou entrar.
— Com licença, Chefe, eu trouxe sua encomenda — a Karla falou arqueando uma sobrancelha e com um sorriso de canto — Na hora que ela falou, "encomenda", franzi minha testa e ali já vi que tinha algo muito estranho.
— Nossa, muito mais linda do que nas fotos — aquele homem falou sentado em uma cadeira giratória, encostando os cotovelos na mesa e esfregando as mãos.
— E aparentemente é bilhete premiado — aquela mulher disse sorrindo com um certo sarcasmo — Certamente está no lacre.
— Que maravilha! Pode se retirar Karla, que eu vou entrevistar a moça — aquele ser asqueroso falou girando a sua cadeira para o lado e se levantando lentamente.
Eu comecei a ficar com muito medo. A essa altura eu já tinha certeza absoluta de que isso não era nada do que tinham combinado comigo anteriormente.
— Pode sentar, Luiza — o "Chefe" falou se aproximando, me fazendo dar passos para trás.
— Não, obrigada! Estou bem em pé.
— Como preferir — disse se encostando na mesa e cruzando seus pés um no outro.
Tive vontade de correr, de gritar por socorro. Eu estava com um péssimo pressentimento. Mas ainda assim, nada do que eu pensei se comparava ao que estava por vir.
— Luiza, é o seguinte, o Maguila que está aí fora vai te levar para conhecer seu quarto e suas colegas de trabalho — ele falou apontando para a porta e eu sabia que ali tinha uma ameaça velada — Hoje estamos fechados, então amanhã será seu primeiro dia. As meninas te dirão os horários das refeições. Alguma dúvida?
— Sim, o que exatamente eu vou fazer aqui?
Ele riu com uma ironia que me revirou o estômago.
— Você ainda não entendeu? — o sarcasmo ainda estava bem evidente em suas expressões e palavras.
— Eu recebi uma ligação onde me falaram de uma trabalho como modelo — falei inocentemente, achando que ainda tinha o que argumentar.
— Aqui não é muito diferente, só que ao invés de passarela, temos palco. E por aqui, assim como nos trabalhos de modelo, quanto mais linda você é, mais grana você ganha.
— E se eu não quiser ficar aqui?
— Você não tem escolha, afinal deve um bom dinheiro para a casa.
— E quanto eu devo para a casa?
— Aproximadamente vinte mil reais — disse tranquilamente alisando a sua barba.
— Tu só pode está brincando — sorri me sentindo derrotada.
— Você teve um dia de princesa em Porto Alegre? Não teve? Shopping? Clínica de estetica? Dentista? Salão de beleza? Além da passagem de avião? Ah, também teve o táxi até aqui. Estou correto?
— Ninguém me falou que eu teria que pagar por tudo me prostituindo.
— E você achou que sairia de graça? Quem você pensa que eu sou? O Papai Noel? — as perguntas vinham carregadas de sarcasmo.
— O acordo seria que com os trabalhos de modelo eu pagaria parcialmente as despesas. Eu não quis ir no salão, nem na clínica e muito menos no shopping — argumentei — Uma pessoa se apresentou para mim como uma "personal stylist" da agência e falou que eu precisava dar um jeito no meu visual.
Ele me olhou com um cara de deboche e minha vontade era cuspir na cara dele.
— Eu não tenho como pagar — falei sem conseguir impedir que as lágrimas escorressem do meu rosto.
— Tem sim boneca! Você vai me pagar com o seu trabalho.
— Eu não posso me prostituir, eu sou...
— O que? Virgem? Não se preocupe com isso. Você não imagina o quanto que os clientes daqui estão dispostos a pagar por uma buc£ta lacradinha.
Eu não consegui me segurar e as lágrimas começaram a jorrar pelo meu rosto.
— Uma última coisa, até você pagar a sua dívida, seu celular está confiscado — falou estendendo a mão. E ainda completou: — É só por garantia.
— Você prefere me entregar ou peço pro Maguila revistar sua bolsa e sua mala?
Eu entreguei o meu celular antes que ele mandasse o tal Maguila mexer nas minhas coisas.
— Se você não tem mais perguntas, pode se retirar — o ser asqueroso falou abrindo a porta — O Maguila vai te levar até seu quarto e vai te ajudar com as malas.
Me retirei e vi o tal Maguila de frente a porta.
Apesar dele ser muito grande, ele não me dava medo, pelo contrário, foi a primeira pessoa dentro daquela boate que parecia ser amigável.
Fizemos todo o percurso até o quarto em silêncio até aqui de frente à porta, o Maguila quebrou o silêncio.
— Moça, esse é o seu quarto. Olha só, eu imagino o quanto você deve está com medo, mas as meninas acabam acostumando com o tempo e boa parte delas acaba gostando. Nem todas as meninas vem parar aqui, como no seu caso, achando que é uma coisa e era outra. Algumas vem para fazer a vida e algumas mesmo que venham enganadas, acabam se adaptando.
Fiquei escutando tudo que ele me falava, mas ainda assim era aterrorizante saber que eu não tinha outra opção e teria que perder minha virgindade me prostituindo.