A FICHA AINDA NÃO CAIU

1337 Palavras
LUIZA O Maguila abriu a porta do quarto e eu respirei fundo tentando controlar toda aquela angústia que eu estava sentindo. — Meninas, essa é a nova colega de vocês. Por favor mostrem a ela a cama que ela vai dormir, onde guardar suas coisas e os horários das refeições. Tinham sete meninas no quarto e quatro beliches. Uma Ruiva muito bonita e com cara de menina se aproximou. — Prazer, me chamo Tatiana, mas pode me chamar de Tati — ela falou com um sorriso amável — Você parece uma Barbie. Eu dei um sorriso de canto para ela, mas não conseguia parar de chorar. Uma moça n***a, também muito bonita e bem alta, com cara de modelo da Victoria secret se aproximou e me deu um abraço que me desmontou. — Oi, eu me chamo Bruna — ela limpou as minhas lágrimas — Não chora, nós estamos nessa juntas. — Eles mentiram para mim, me falaram que era um trabalho de modelo — falei respirando fundo, tentando controlar aquele nó insuportável na garganta — E para completar eu contrai uma dívida de vinte mil reais, sem nem saber. Que tipo de gente faz uma coisas dessas? — Vai por mim, você se acostuma — quem falou foi uma morena de cabelos longos que estava sentada na cama, pintando as unhas. Eu comecei a olhar todos os cantos do quarto, tentando vê uma forma de fugir. — Não tem como fugir, loira. Eu tentei fazer isso quando eu cheguei — quem me trouxe para a realidade foi uma garota de cabelos cacheados e que parecia uma boneca de tão linda. — Eu fui pega, espancada e jogada em um quarto escuro por dois dias a pão e água, literalmente. — Nenhuma de vocês conseguiu pagar a dívida e ir embora? — Nossa dívida aqui só acaba quando você começa a fidelizar alguns clientes e sua porcentagem começa a aumentar — ela falou fazendo um coque nos cabelos — Depois te explico aos poucos como funciona tudo, aliás, o meu nome é Nanda. — Eu não me conformo, tem que ter algum jeito. — É melhor não confrontar eles, Barbie. Por aqui tudo tem consequência — a Tati falou me alertando. — Vocês simplesmente desistiram de sair daqui? — perguntei incrédula. A Bruna me pagou na mão, sentou comigo na cama e começou a me explicar: — Nós nos acostumamos. Eu por exemplo, já estou aqui a mais tempo, já consigo ganhar uma boa grana e consigo pagar os planos de saúde dos meus pais, a escola da minha sobrinha e mando um valor mensal para as compras do mês da casa dos meus pais. — Seus pais sabem o que tu faz aqui? — perguntei lembrando da minha mãe. Ela iria sofrer muito se me visse nessa situação. — Que nada, eu saí da Bahia achando que ia trabalhar como modelo, assim como você. A minha família pensa até hoje que eu sou modelo. Elas continuaram a tarde toda me explicando como tudo funcionava. Lá tinham outras quatro garotas que estavam dormindo e eu fui apresentada a três delas quando acordaram. Seus nomes eram Janaína, Marina e Priscila. Todas me trataram super bem, exceto uma outra que acordou por último e se chamava Renata. Essa já acordou irritada. — m***a, ninguém pode dormir nesse caraIho, que drama da p***a. Para com isso garota, não é o fim do mundo não. A Bruna e a Tati se olharam revirando os olhos. — Não liga para ela, Barbie. Ela é azeda assim mesmo — a Tati falou entortando a boca e negando com a cabeça, fuzilando a tal Renata com os olhos. *** Fiquei sabendo de várias outras coisas na sequência. Inclusive que o Chefe só era gerente da casa e que o dono era um traficante, dono de morro no Rio de Janeiro. Segundo elas, um cara com fama de ser muito c***l e m***r sem dó. Depois de conversar bastante com as gurias, chegou a hora do jantar e fomos caminhando até o refeitório. A Bruna e a Tati foram me mostrando as suítes que as garotas ficavam com os clientes. Tudo muito luxuoso. Também tinha uma academia com alguns aparelhos, a cozinha e nos fundos um refeitório. Chegando lá, pude contar mais de vinte gurias ao todo. Enquanto a gente comia, escutamos alguns burburinhos. Era uma conversa a respeito de um certo Leilão. Quando a Bruna e a Tati se entreolharam, eu sabia que tinha algo de errado. — Barbie, em algum momento você contou ao chefe que você é virgem? — a Tati perguntou. — Sim, eu estava desesperada e falei que não podia me prostituir e que eu era virgem — contei percebendo naquele instante que havia sido um erro — Na verdade, ele nem deixou eu terminar de falar e parece que gostou da informação. Elas novamente se olharam e dessa vez foi a Bruna que jogou a bomba em cima de mim: — Ele vai leiloar sua virgindade amanhã. Eu, que já estava em pânico, fiquei ainda mais apavorada. "Quão doente alguém tem que ser para fazer um ser humano passar por uma humilhação tão grande quanto essa?" Pensei tentando controlar a minha respiração que estava desregulada. "Como eu pude ser tão ingênua? Isso tudo parece um pesadelo." Deu a hora de dormir, eu me despedi das gurias e deitei, mas passei a noite inteira virando de um lado para o outro. Fiquei pensando em como eu fui parar ali, em como minha vida só piorava. Não parava de pensar no que a Nanda contou que aconteceu com ela ao tentar fugir. Teve uma hora que o ar faltou e eu fiquei sem conseguir respirar. A sensação era h******l, parecia que eu ia morrer de falta de ar. A Tati percebeu e veio até mim. — Calma, Barbie — ela falou alisando os meus cabelos. — Eu não consigo respirar — falei chorando. A sensação de puxar o ar e ele não vir era desesperadora. — Tenta puxar o ar pelo nariz e soltar pela boca lentamente. Você está tendo uma crise de ansiedade, logo vai passar. Fui fazendo o que ela falou e depois de alguns minutos intermináveis, foi melhorando. Ela deitou na cama comigo segurando a minha mão. — Barbie — ela falou me encarando e segurando firme na minha mão. — Não pensa que você está só. Sei que acabou de nos conhecer, mas eu, Bruna e Nanda estamos com você. Comigo foi muito parecido com o que está acontecendo com você. Eu saí do interior do Rio Grande do Norte, também achando que trabalharia como modelo. — Sua família sabe? — Eu não convivi com meu pai. Ele se separou da minha mãe quando eu tinha apenas quatro anos. Minha mãe casou novamente e quando eu estava prestes a fazer quinze anos, ela engravidou da minha irmã que hoje tem quatro anos e tem síndrome de down. Quando o marido da minha mãe descobriu que a filha tinha síndrome de down, largou a minha mãe e hoje por ordem judicial, paga uma mixaria de pensão por ganhar pouco. E como o dinheiro já é descontado em folha, ele nunca vê a menina. — Poxa Tati, sério? — Sim! Por conta disso, quando eu terminei de pagar minha dívida aqui, juntei algum dinheiro, contei para minha mãe toda a verdade e trouxe ela e a minha irmã para São Paulo. — Qual foi a reação dela quando você contou? — Ela chorou bastante durante a ligação. Enquanto eu contava, percebi o nariz dela ficando entupido por conta das lágrimas e a respiração um pouco mais pesada. Minha mãe disse que sabia que eu era uma boa pessoa e que isso não diminui o amor e admiração que ela tem por mim. Ela só me fez prometer que seria temporário, então prometi para ela que ia juntar um bom dinheiro e sair dessa vida. Depois de muito conversar, eu e a Tati acabamos pegando no sono na minha cama.
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