LUIZA
Depois que acordamos, fizemos nossa higiene, tomamos café da manhã e fizemos a faxina do local que também ficava por nossa conta.
Eu fui até a Nanda, a Bruna e a Tati que estavam pintando as unhas. Eu queria muito tirar uma dúvida.
— Nanda, tu pode me explicar agora como faz para se livrar da dívida daqui?
— Sim, minha Barbie, eu vou te explicar, se liga só — falou fechando o esmalte e se virando para mim — A hora do programa aqui é quinhentos reais. Setenta por cento é da casa e trinta por cento da garota. Caso você consiga fazer três programas por noite, a porcentagem passa a ser quarenta por cento e se conseguir cinco clientes na noite a porcentagem vai para cinquenta por cento.
Independente de quantos programas você fizer, você precisa pagar para a casa duzentos reais por dia de hospedagem e alimentação. Então, se você fizer um único programa por dia, você vai estar aumentando a sua dívida com a casa porque seu ganho de comissão por um único programa é de cento e cinquenta reais. Entendeu?
Eu assenti tentando mascarar o meu desespero.
— A maioria das meninas depois que quitam as dividas, começam a vê o dinheiro entrando e não querem mais ir embora. Tem meninas aqui que tiram vinte mil reais por mês, fora os agrados dos clientes. E depois que você termina de pagar a sua dívida, você pode sair daqui durante o dia, por exemplo. Sem falar que tem os trabalhos como acompanhante de luxo que seria como se você tivesse sido promovida. Os ganhos são maiores e os clientes não economizam nos mimos.
Ela desviou o olhar para uma guria.
— Tá vendo aquela garota? — ela perguntou e eu olhei disfarçadamente. — O nome dela é Priscila. A umas duas semanas ela ganhou um Fiat Pulse zero, esse carro é uns cem mil reais. Ela ganhou de um cliente que ela sai a um tempo como acompanhante de luxo.
Franzi as sobrancelhas com um certo espanto.
— Você hoje tem uma grande chance de diminuir consideravelmente sua dívida, pois nos leilões os caras chegam a pagar cinco mil reais por uma hora com uma garota virgem — a Tati falou tentando me animar.
Eu só conseguia pensar que aquelas gurias para conseguir viver naquele lugar, começaram a tentar olhar o lado bom de tudo aquilo. Mas eu não conseguia me imaginar me acostumando com essa vida.
Eu comecei novamente a sentir falta de ar, então falei para as gurias que precisava ir ao banheiro.
Me tranquei lá para que ninguém visse. Eu não queria que ninguém pensasse que eu estava me vitimizando, mas a sensação foi ficando cada vez mais desesperadora. E como aconteceu das outras vezes, eu comecei a chorar. Quanto mais eu tentava parar de chorar, mais as lágrimas viam.
Até que as gurias bateram na porta.
— Barbie abre a porta. Deixa a gente entrar — a Bruna pediu enquando batia na porta.
Eu estava sentada no chão do banheiro com as pernas encolhidas e eu simplesmente não conseguia nem levantar para abrir e nem responder nada a elas.
Elas continuaram batendo insistentemente.
— Luiza deixa a gente ficar aí com você — dessa vez foi Nanda quem pediu.
E a Tati também insistiu:
— Abre Barbie, por favor!
Mas eu continuava ali sem ar e sem conseguir responder nada.
Elas pararam de bater na porta por algum tempo e logo a porta foi aberta.
Elas tinham ido pedir ajuda ao Maguila para abrir a porta, pois ele tinha a chave.
As gurias entraram no banheiro e o Maguila ficou aguardando do lado de fora.
Elas me falavam pra respirar pela boca e soltar pelo nariz, mas eu puxava e o ar simplesmente não vinha. É uma sensação h******l e parece que você vai morrer.
Demorou um tempo até que eu conseguisse melhorar.
***
No almoço o Maguila se aproximou.
— Já vi que as meninas te apelidaram de Barbie.
— Pois é, Maguila! Eu gostaria de te agradecer por hoje — falei tentando forçar um sorriso.
— Não tem de que. Eu sei que você está assustada, Barbie, mas você acaba se acostumando. As meninas sempre chegam aqui igual a você está agora e no final das contas, quando elas começam a vê a grana entrando, elas acabam não querendo sair mais. Além da grana dos programas, acabam ganhando alguns agrados dos clientes. Só seja esperta, Barbie não afronte os caras e caso algum cara tente te agredir ou algo do tipo, tem um botão do lado das camas. Pode apertar que o segurança que estiver mais próximo invade o quarto na mesma hora.
— Meu Deus, ainda mais essa — falei ainda mais assustada — Eu passei a vida vendo minha mãe ser agredida pelo monstro do meu pai e depois tendo que se trancar no quarto com ele. Quando era mais nova eu não entendia por que ele trancava ela no quarto com ele depois de uma surra, mas quando fui crescendo fui entendendo. Tudo que eu não precisava era vim parar em um lugar onde eu corra o risco de ser agredida e ainda ter que me submeter a isso também .
— Eu sinto muito.
— Eu queria olhar as coisas com o olhar das gurias, mas eu nunca vou me acostumar. Nem todo o dinheiro do mundo me faria vê tudo isso aqui como algo bom. Eu só queria não ter aceitado a proposta de vir para São Paulo. A essa altura eu estaria trabalhando em uma cafeteria em Porto Alegre, morando em meu apartamento minúsculo, mas com uma perspectiva de futuro que aqui eu não tenho.Tudo que eu penso é em fugir daqui.
— Eu queria poder fazer alguma coisa por você, mas acho que eles me matariam se eu te ajudasse a sair daqui. E eu não posso me dá ao luxo de morrer, pois minha mãe é doente e precisa de mim. Eu não posso te ajudar a fugir, mas se precisar de qualquer outra coisa pode falar comigo.
— Obrigada! — eu dei para ele o meu sorriso mais sincero. — Eu tive uma boa impressão de você quando cheguei aqui. Vi assim que te olhei que você era uma boa pessoa.
Eu me despedi do Maguila e fui para o quarto.
À tarde as meninas começaram a se arrumar e a me ajudar a pintar as unhas, a escolher o vestido, o salto e a maquiagem. Eu não tinha vontade de nada ali, mas mantive um sorriso porque elas estavam me ajudando muito, não só a me arrumar como a suportar estar ali. Nem sei o que seria de mim sem elas.
Como se tivessem acelerado o relógio, chegou o momento que eu mais temia: a hora do leilão da minha virgindade.