FELIPE
Eu voltei para casa e dormir mais algumas horas. Quando acordei, tomei um banho, um reforçado café da manhã e fui para a empresa.
Esse foi um daqueles dias onde eu saía de uma reunião para entrar em outra. Porém, eu não consegui me concentrar em nenhuma delas.
Aquela garota e aquele pedido antes de eu ir embora não saiam da minha cabeça.
No momento em que ela falou aquilo, eu tive a absoluta certeza que ela estava ali contra a sua vontade.
Por mais que eu quisesse ser indiferente, eu não conseguia. Eu tinha que fazer alguma coisa.
Eu sai da minha última reunião e fui direto para aquele lugar. Cheguei lá, paguei pela noite toda com ela e pedi para que levassem ela direto para o quarto.
Vê a cara de alívio que ela fez quando me viu, fez eu ter a certeza de que eu estava fazendo o que era certo.
— O que tu faz aqui? — ela fez a pergunta com um sorriso largo e um brilho nos olhos.
— Queria conversar com você — falei me sentando na beirada da cama e a puxando para sentar ao meu lado.
A expectativa era evidente em seus olhos.
– O que você me falou hoje pela manhã, antes de eu ir embora, não saiu da minha cabeça. Eu sei que não nos conhecemos, mas eu gostaria de te pedir que confie em mim. Você está aqui contra sua vontade?
Ela abaixou a cabeça em silêncio.
— Se você não confiar em mim, eu não tenho como te ajudar — falei levantando levemente o queixo dela.
— Tu não pode me ajudar — ela falou com os seus olhos marejados.
— Você só tem como saber se me contar — eu falei a encarando. Eu queria passar confiança para ela.
— Eu nem sei o seu nome — ela falou se levantando. Parecia ponderar se deveria ou não confiar em mim.
— Felipe... Eu me chamo Felipe — eu hesitei por alguns instantes, mas acabei revelando o meu nome.
— O meu é Luiza.
— Luiza, você está aqui contra a sua vontade? — voltei a perguntar.
Os lábios dela ficaram em um fio reto e ela respirou fundo, mas acabou decidindo falar.
— Eu contrai uma dívida com eles e não posso sair daqui enquanto não pagar.
— Como? — perguntei achando tudo aquilo muito estranho.
Ela me contou toda uma história de uma proposta para trabalhar como modelo, de umas despesas com passagem, hospedagem, roupas, salão e tudo mais. E que quando chegou em São Paulo, tudo isso foi cobrado dela.
Ela me contou também que tinha gente muito perigosa envolvida em tudo.
Eu logo percebi que aquilo se tratava de trafico de mulheres e que eu precisava ter cautela para que ela não sofresse nenhum tipo de represaria.
Falei para ela tentar descobrir o nome de quem comandava tudo. Qualquer informação poderia ser muito valiosa.
— Agora eu vou dormir um pouco — falei tirando o meu blazer e colocando os meus pertences em cima da mesa. — Eu paguei pela noite inteira, então você pode descansar.
— Felipe... — ela segurou o meu braço.
— Oi...
— Obrigada.
Eu apenas assenti discretamente.
[...]
Após dormir por aproximadamente três horas, eu acordei e percebi que ela estava me olhando.
— Você não dormiu? — perguntei esfregando os meus olhos.
— Não — ela respondeu deitada de lado com a cabeça encostada na sua mão. — Posso te fazer uma pergunta?
— Pode.
— Por que você está me ajudando?
"Ah, garota, nem eu sei."
— Eu sabia que tinha alguma coisa errada desde que te vi naquele palco ontem.
— Posso te fazer uma outra pergunta?
— Você faz muitas perguntas.
— Me desculpa — ela falou e eu pude vislumbrar as suas bochechas ficando rosadas imediatamente.
— Pode perguntar.
— Desculpa a indiscrição, mas como sabe, eu ouvi falar que tu já teve aqui outras vezes. Por que pagar para sair com mulheres?
— Você é bem direta — falei a encarando. — De uma forma ou de outra, seja pagando por uma g****************a ou saindo para um encontro, as mulheres que eu me relaciono sempre estão interessadas no meu dinheiro ou no meu status. Pelo menos aqui elas deixam isso bem claro.
— Tu acha que alguém não pode se interessar por ti, pelo que tu é?
— Quando se tem muito dinheiro, fica difícil ter essa percepção.
— Entendi.
Eu não queria que a nossa conversa se tornasse tão pessoal.
— Eu tenho que ir — falei me levantando e pegando as minhas coisas.
— Foi alguma coisa que eu falei? — ela perguntou com a sua testa levemente enrugando.
— O que?
— Tu tá indo embora por causa de alguma coisa que eu falei?
— Não — desconversei. — Eu realmente preciso ir.
[...]
LUIZA
— Felipe, o nome é tão lindo quanto ele — foi o que eu pensei o olhando dormir após ter contado para ele tudo a respeito de como eu vim parar aqui.
Eu não sei explicar, mas me sinto segura ao lado dele. Minha vontade era deitar no seu peito dele. Mas ele parecia tão inalcançável.
Quando ele acordou, perguntei o porquê dele esta me ajudando e também tive coragem de perguntar o porquê dele pagar para ficar com mulheres. Quando ele me respondeu, pude perceber que ele é ainda mais inacessível do que eu imaginei. É daquele tipo de pessoa prática, impenetrável e sem sentimentos. Porém não no sentido de ser r**m e sim no sentido de não ser sentimental.
Na minha breve análise eu pude perceber também que tudo isso pode ter um motivo por trás.
"Será que foi alguma decepção?'
Como ele meio que hesitou um pouco antes de responder minha pergunta, eu não quis perguntar mais nada para não deixar ele ainda mais desconfortável.
***
Quando eu voltei para o quarto, as gurias já estavam dormindo.
Eu tomei um banho mais demorado dessa vez e comecei a pensar em tudo. Um pensamento foi puxando o outro e eu comecei a lembrar da minha mãe, a pensar no porquê de tudo ter que ser tão difícil para mim e no quanto eu queria não ter aceitado essa proposta que parecia ser boa demais para ser verdade.
[...]
Eu acordei na manhã seguinte com a Bruna e a Nanda me chamando para almoçar.
— Vamos almoçar, Barbie adormecida! — a Nanda falou me fazendo sorrir. — Saco vazio não para em pé.
— Barbie adormecida? — perguntei me espreguiçando.
Eu me levantei e depois de fazer a minha higiene, fui almoçar com elas.
Aproveitei que estávamos só nós três e perguntei:
— Gurias, vocês sabem quem é o dono da boate?
— Eu sei que ele é bem barra pesada, mas nunca nem vi — a Bruna respondeu se sentando à mesa ao meu lado.
— Nem eu, Barbie — a Nanda respondeu. — Qual o motivo da curiosidade? — ela perguntou em seguida.
— Apenas curiosidade mesmo.
Fiquei maI de está escondendo delas o real motivo. Elas tem sido tão incríveis comigo. Mas fiquei com medo de prejudicar o Felipe de alguma forma, caso essa história caisse em ouvidos errados.
Não sei exatamente o motivo que ele quer saber o nome do dono da boate, mas ele não perguntaria em vão.
Quando estava terminando de almoçar, me veio a ideia de perguntar ao Maguila.
Ele parece ser do bem, e falou que eu poderia falar com ele caso precisasse de alguma coisa.
Eu falei que as gurias poderiam ir na frente e me aproximei dele.