LUIZA
Aquele leilão foi muito mais humilhante do que eu poderia imaginar.
Escutar aquelas pessoas dando lances para tirar minha virgindade fez eu me sentir um objeto. Um jarro, um quadro, uma antiguidade... Sei lá. Eu só queria que aquilo acabasse. Só queria me trancar em algum lugar e chorar.
De repente, quando os lances terminaram e eu vi uma mão estendida na minha direção, a minha vontade era pega-la como se tivesse um ímã me puxando, ou como se aquilo fosse a minha última tábua de salvação. Mas ainda assim eu avalie os riscos por alguns segundos, recebendo uma ameaça sussurrada ao meu ouvido pelo Chefe.
Após me recuperar de uma crise severa de pânico e ansiedade, quando eu já estava no quarto com o estranho, eu comecei a analisá-lo.
Estranhamente eu não estava mais com medo. Ele se preocupou comigo, queria me levar ao hospital e queria chamar a polícia ao perceber que havia algo errado com aquele leilão. De todos os cenários que imaginei para aquele momento, com certeza esse foi o melhor.
Quando ele pediu mais tempo na recepção, no primeiro momento eu me senti aliviada por não ter que ficar com nenhum outro homem, pelo menos não naquele dia. Mas logo comecei a pensar que ninguém pagaria vinte mil reais para ficar conversando e esse pensamento me apavorou um pouco.
Para a minha surpresa, aquele homem colocou as coisas dele na mesa, o blazer na cadeira, virou para o lado e foi dormir.
***
Ele deve ter dormido por aproximadamente quatro horas.
Após a sensação de alívio ao perceber que aquele homem havia ido dormir, vieram os questionamentos na minha cabeça.
Primeiro: Por que um homem tão bonito precisaria pagar para dormir com uma mulher?
Ele era relativamente alto, com certeza se exercitava porque tinha um certo porte. Estava de camisa social, mas ainda assim dava para perceber os ombros largos. O cabelo era castanho-claro, os olhos claros, meio cor de mel e a barba para fazer. Não era só beleza, ele tinha um magnetismo. Ele certamente deveria ter várias mulheres aos seus pés.
Definitivamente eu tinha muitas dúvidas.
Segundo: Por que alguém pagaria mais de vinte mil reais por uma noite inteira com alguém e foi dormir?
Terceiro: Por que ele parece tão frio e distante?
Enquanto eu estava ali, perdida nos meus pensamentos, ele acordou. Ainda em silêncio, pegou os sapatos, foi até o banheiro, tomou um banho, pois escutei o barulho do chuveiro. Ele saiu do banheiro, pegou suas coisas, vestiu o blazer e já estava girando a maçaneta para ir embora.
Sem pensar muito, eu segurei o braço dele.
— Por favor, não vai embora — falei em meio ao desespero.
— O que disse? — ele me perguntou parecendo meio confuso.
— Você pagou caro — eu respondi sem saber muito bem porque eu estava fazendo aquilo. — Tem o direito de ficar comigo.
— Garota, eu não vim com a intenção de ficar com ninguém. Eu só paguei por esse leilão bizarro da sua virgindade porque vi que você estava apavorada.
Eu fiquei ainda mais confusa.
— Eu te agradeço por isso! Mas já que pagou, não gostaria de receber seu pagamento?
— Garota, eu não entendo. Achei que você ficaria feliz em não ter que se submeter a isso.
— E eu fiquei — respondi. — Mas se não for com você hoje, será com algum estranho amanhã. E eu prefiro que seja com você. Pelo menos poderei dizer para mim mesma que a minha primeira vez foi com alguém de bom coração, que não me conhecia e mesmo assim tentou me ajudar.
— Me desculpa, mas eu preciso realmente ir — ele falou e em seguida girou a maçaneta.
Eu não sei bem explicar, mas assim que ele saiu daquele quarto, me senti desprotegida novamente.
Eu fui andando em direção ao meu quarto e me senti aliviada ao vislumbrar uma boate vazia. Ao entrar no quarto, todas as meninas estavam dormindo. Eu fui ao banheiro, tomei um banho, escovei os dentes e também fui dormir.
[...]
Na manhã seguinte, a Bruna, a Nanda e a Tati estavam conversando e assim que me viram acordada, as gurias correram para a minha cama para saber como tinha sido tudo e como eu estava. Elas estavam eufóricas e faziam uma pergunta atrás da outra.
— Barbie, você está bem? — a Bruna perguntou.
— Como foi ontem? — dessa vez foi a Nanda quem perguntou.
— Vinte mil reais? Tá podendo garota — Tati falou sorrindo.
Eu contei para elas tudo que tinha acontecido, ou melhor, o que não tinha acontecido. E elas ficaram incrédulas.
De repente, a porta abriu e as meninas fizeram um gesto para eu parar de falar.
A Renata entrou de cara fechada e veio na minha direção.
— Loira não vem se criar por conta do lance de ontem, não, tá? Fique sabendo que você precisa comer muito feijão com arroz para se igualar com as mais antigas.
Eu fiquei sem entender e sem saber o que responder. Nitidamente aquela guria não foi com a minha cara e não fez questão nenhuma de esconder.
— Renata deixa a menina. Ela não fez nada — a Nanda falou tentando me defender.
— Deixa eu te dar um aviso: se cruzar meu caminho eu atropelo — ela falou me encarando e em seguida saiu do quarto batendo a porta furiosa.
— Não liga, Barbie! — a Nanda falou acariciando o meu braço. — Ela está com raiva porque ela já fez programa com o cliente bonitão que pagou o lance do leilão.
— Ele é cliente antigo daqui?— perguntei sentindo... Raiva?
"É sério, Luiza, que você está com ciúmes do cliente que nem sabe o nome?" O pensamento me fez entortar a boca.
— Ele passou a vir de uns meses para cá — ela respondeu. — Às vezes escolhe alguma menina, às vezes só fica bebendo. Mas ele nunca fica com a mesma menina. E as meninas comentam que ele não beija na boca, mas sempre dá umas caixinhas generosas.
Fiquei pensativa. Aquele homem para mim era uma incógnita.
Fomos almoçar e eu percebi algumas meninas me olhando com um olhar meio intimidador.
A Bruna me disse para não ligar, que elas estavam com inveja e se sentindo ameaçadas pelo valor que pagaram pela minha virgindade.
O que elas não sabem é que eu permaneço virgem, pelo menos até hoje.
— Como alguém pode invejar esse tipo de coisa? — perguntei.
— Vai por mim, a rivalidade feminina por aqui é forte.
Depois do almoço, voltamos para o quarto. O dia foi passando e logo chegou a noite para o meu desespero. Eu fui ficando com medo por saber que de hoje não passava.
***
Eu ainda estava no quarto me arrumando, quando o Maguila bateu na porta:
— Barbie, se apressa. Você já tem cliente.
Meu coração disparou. Eu agora não tinha mais como fugir. O que eu poderia fazer? Não vinha nada em minha mente, então só desisti de tentar achar uma saída.
— Já estou indo — respondi com o coração disparado e a voz embargada.
Respirei fundo e fui em direção a porta como quem está indo para um abatedouro.
A Bruna e a Nanda que ainda estavam no quarto, me desejaram boa sorte e eu saí.
O Maguila falou que o meu cliente já estava no quarto me esperando e me levou até ele.
— Até logo, Barbie! — o Maguila falou e eu acenei me despedindo.
Quando abri a porta e vi quem era o meu cliente, o meu coração errou algumas batidas.
— Você?
— Oi — ele respondeu com um sorriso contido. — Como você está?
Eu sorri e enfim pude soltar o ar que estava preso.
— Aliviada... Bem aliviada. Mas confesso que não esperava te vê novamente aqui.
— Por que não?
— As gurias comentaram que você nunca escolhe a mesma pessoa.
— Não sabia que eu estava sendo tão observado — ele falou enquanto tirava o blazer.
— Tu tem que concordar que tu é muito bonito e deve ser uma das poucas exceções por aqui.
Ele riu de canto.
— Hoje você está mais tranquila?
— Agora sim — falei suspirando. — Não sei bem explicar, mas me sinto segura com você.