Pré-visualização gratuita Capítulo 1- Lembrancas
Sander Vasconcelos
O som da chuva era o mesmo da noite em que tudo acabou.
Pesado, insistente, como se o céu também tivesse algo a cobrar de mim.
As gotas batiam contra o vidro da janela do meu quarto, escorrendo como veias de lembranças — tortas, fundas, sem direção.
Sete anos e eu ainda sabia o cheiro daquela noite. O perfume dela. Dália.
A mentira nasceu no mesmo instante em que o amor morreu.
E desde então, aprendi a respirar com raiva.
Raiva tem cheiro, textura e gosto. É amarga como ferro na boca. É quente como o toque que se quer negar.
A vingança, ao contrário do amor, me ensinou disciplina.
A cicatriz na lateral do rosto não me deixa esquecer.
Ela começa perto da têmpora, desce pela mandíbula e se perde no pescoço, como se tivesse sido traçada por um escultor bêbado.
Diziam que eu tive sorte de sobreviver ao acidente.
Eu chamo de castigo.
A mulher que estava ao meu lado no carro, minha esposa, morreu antes de perceber o que havia feito.
Eu só soube a verdade meses depois: ela carregava no ventre o filho de outro homem.
O mesmo homem que me chamou de irmão.
O mesmo homem que me fez acreditar que Dália me traiu.
Thomas.
Desde aquele dia, o amor se tornou um animal do qual eu não me aproximo.
Mas o destino, esse sádico, tem um senso de humor estranho.
Porque foi ele quem trouxe Dália de volta.
O pai dela chegou ao meu escritório numa tarde de outono.
Tinha os olhos gastos, a voz cansada e a humildade de quem perdeu tudo.
Pediu ajuda.
Implorou, na verdade.
Disse que sua fazenda estava hipotecada, que as dívidas o engoliam, que a única saída era encontrar um homem com dinheiro e poder para salvá-lo.
E foi nesse instante, quando ele pronunciou o nome da filha, que algo dentro de mim sorriu pela primeira vez em sete anos.
Não um sorriso bom.
Um sorriso amargo.
Um sorriso de quem vê a chance perfeita de revidar.
— Ajudo, sim. — disse. — Mas com uma condição.
Ele me olhou como quem teme o d***o e reconhece a voz.
— Qualquer coisa, senhor Vasconcelos…
— Ela vai se casar comigo.
O silêncio foi o melhor som que já ouvi.
Não era uma proposta. Era uma sentença.
E eu sabia que Dália aceitaria.
Por orgulho, por desespero, por amor.
Sempre foi assim — ela carregava o dom de me irritar e de me salvar ao mesmo tempo.
Desde então, tenho vivido por um único propósito: fazê-la pagar.
Pela mentira. Pela traição. Pela dor que me custou o rosto e o coração.
Mas a vingança tem um preço.
E às vezes, o que sangra é quem segura a faca.
O relógio marcava vinte e duas horas quando ela chegou.
Lembro-me da primeira vez em que a vi novamente — sete anos de distância, e ainda assim, ela parecia ter saído direto do inferno que me assombra.
Vestido simples, corpo que eu já conhecia de cor e sal, olhar que ainda me desarma.
O mesmo olhar que um dia jurei nunca mais encarar.
Ela entrou na sala sem pedir permissão, como quem sabe que é indesejada, mas não teme o dono da casa.
Os olhos dela estavam firmes, o queixo erguido, a alma inteira disfarçada em coragem.
Eu queria odiá-la.
Mas quando o vento trouxe o perfume da pele dela, percebi que ainda era impossível.
— Vim cumprir minha parte. — disse, e a voz soou como lâmina fina.
— Espero que saiba o que isso significa. — respondi.
— Significa que agora você é meu castigo.
O sorriso dela me feriu mais do que qualquer cicatriz.
Porque no fundo, ela ainda sabia como me enfrentar.
E eu ainda queria que ela não soubesse.
— As regras são simples. — falei, caminhando devagar, como quem aproxima o predador da presa. — Vai morar aqui. Vai dormir comigo. Vai ser minha esposa… e vai lembrar, todos os dias, o quanto me deve.
Ela respirou fundo.
Nenhum tremor, nenhum medo.
Apenas uma frase:
— Sim, senhor. Serei seu objeto.
A raiva subiu como um veneno.
Eu queria quebrar algo. Queria quebrá-la.
Mas o que quebrou foi o meu autocontrole.
A forma como ela pronunciou “senhor” soou mais como provocação do que submissão.
E naquele instante, a vingança começou a se desmanchar.
Dália sempre soube me desmontar sem tocar.
Era como fogo disfarçado de calma.
Como tempestade dentro de um copo.
E eu, i****a que sou, ainda tentava fingir que o controle era meu.
A casa inteira parecia conspirar contra mim.
A cada passo dela, os corredores ficavam menores.
A cada respiração, o ar parecia mais espesso.
À noite, eu fingia dormir. Mas a verdade é que escutava o som do chuveiro, o roçar da toalha, o perfume que se espalhava pelo quarto.
Ela sabia.
Claro que sabia.
E fazia de propósito.
Vingança nenhuma sobrevive ao desejo.
Eu só não esperava que fosse tão rápido.
Na primeira noite, ela usou seda.
Não havia necessidade de nada tão fino, mas Dália nunca fez nada sem intenção.
Deitou-se no lado direito da cama, imóvel, distante, mas viva demais para ser ignorada.
O tecido deslizou pela pele dela como convite.
E eu, com a respiração presa, lembrei do que era estar vivo.
Fechei os olhos.
Imaginei o toque, a curva do ombro, o calor que ela exalava.
Quando abri, ela me olhava.
Não havia culpa nos olhos dela, apenas um desafio.
— Não vai me mandar dormir no chão? — perguntou.
— O chão é frio demais pra quem merece o inferno.
Ela riu, e o som me atingiu como golpe.
— Então me aqueça, Sander. Mostre que o inferno é você.
Me levantei antes que o instinto vencesse a razão.
Mas era tarde.
Ela sabia que me tinha.
E eu odiava o quanto isso ainda me movia.
Dizem que o amor morre quando a confiança se quebra.
Mentira.
O amor se transforma.
Ele vira raiva, desejo, lembrança.
E nenhuma dessas coisas morre fácil.
Eu queria me convencer de que estava no controle.
Que Dália era apenas um acerto de contas.
Mas a verdade é que, desde o momento em que ela voltou a me olhar, eu já estava perdido.
Thomas deve estar rindo em algum canto do mundo.
Ele sempre quis isso — me ver arruinado por ela.
Mas o que ele não entende é que eu já não sou o mesmo homem.
As cicatrizes me tornaram outra coisa.
Um predador paciente.
E se o destino decidiu brincar comigo outra vez, que seja.
Dessa vez, o jogo é meu.
E o prêmio também.
Dália será minha até o último resquício de ódio desaparecer.
Mesmo que, no final, eu descubra que quem precisa de perdão… sou eu.
A chuva cessou.
Mas o cheiro da terra molhada me trouxe o passado inteiro de volta.
Olhei pela janela e vi o reflexo dela no vidro, movendo-se pelo quarto.
Lenta.
Provocante.
Perigosa.
Ela parou diante de mim, com aquele sorriso que sempre antecede o caos.
— Ainda me odeia, Sander? — perguntou.
— Mais do que nunca.
— Então me ame como punição.
E quando ela se aproximou o suficiente para que eu sentisse o perfume, percebi que o inferno que ela prometeu já começava ali, entre o ódio e o desejo, entre a vingança e o amor.
E eu… já estava queimando.