Capítulo 8: Deslocados

930 Palavras
Sem ter o que fazer e desejando retribuir a ajuda de Guilherme, Tábata decidiu limpar a casa. Não era uma grande cozinheira e, com a gravidez avançada, encontrar um novo emprego parecia impossível naquele momento. Por isso, organizar a casa e causar o mínimo incômodo possível durante sua estadia ao menos mostraria o quanto era grata. Depois de limpar sem dificuldade a sala, a cozinha, o quarto em que estava e os corredores, dirigiu-se ao escritório de Guilherme. O ambiente, assim como os demais, era milimetricamente organizado, com poucos objetos em cima da pequena escrivaninha. Uma leve camada de poeira era o máximo que encontrou em todos os cômodos, ali, em que havia poucos móveis, não foi diferente. — Meus irmãos deviam ter umas aulas de limpeza com ele — murmurou impressionada por até o colchão inflável, estar vazio e arrumadinho na caixa, como se nem tivesse sido utilizado. No entanto, diferente dos outros cômodos, aquele não estava de todo montado. No extremo oposto em que estavam a escrivaninha e uma cadeira giratória, coberta por um lençol, havia uma grande caixa apoiada na parede e ao seu lado uma cômoda branca, ambos pareciam deslocados no meio daquele ambiente. Aproximando-se, Tábata franziu a testa ao notar que a cômoda tinha desenhos gravados em relevo. — O que é isso? Deslizou a ponta dos dedos pelas figuras de pequenos ursinhos segurando bexigas, sem entender por que Guilherme teria um móvel como aquele, ainda mais em seu escritório. Seria de algum parente? Um presente guardado para alguém? Tentou imaginar uma situação que fizesse sentido, mas nada vinha à mente. Curiosa, voltou-se para a enorme caixa. Sem saber se deveria, decidiu dar uma espiada. Levantou o lençol e deslizou o olhar pelas inscrições e gravuras. Seu coração deu um salto, e um turbilhão de pensamentos a atingiu ao perceber se tratar da embalagem de um berço. "Por que ele tem isso?” Lee nunca mencionou nada sobre crianças na vida de Guilherme. Perguntas e cenários para respondê-las se atropelavam em sua cabeça, enquanto um estranho desconforto se avolumava em seu peito. Sem respostas, recolocou o lençol no lugar e saiu do cômodo, a mente processando o que havia acabado de ver. ~*~ Ao meio dia Guilherme bloqueou seu notebook, pegou as chaves do carro e se levantou para sair em horário de almoço, mas nem deu um passo em direção à porta quando uma neblina de perfume adocicado se aproximou de sua sala e a porta abriu-se sem aviso. Não se surpreendeu ao ver Simone Muller entrar sem cerimônia e fechar a porta, isolando-os quando já havia deixado claro que não a queria por perto. Ela abusava do seu autocontrole e educação há semanas. De família abastada, Simone era uma advogada brilhante, que conseguiu galgar por seus próprios méritos na carreira, embora todos creditassem a longa amizade do advogado fundador com os avós dela. O fato era que, com seu dinheiro, prestígio e contatos, poderia facilmente montar seu próprio escritório, mas preferiu se associar a Ramos Advogados Associados e perturbar a vida pacata de Guilherme. — Guilherme, querido... — A voz dela era um ronronar sedutor, que ele reconhecia bem, mas que agora lhe causava mais desconforto do que atração. — Recebi o e-mail sobre a nossa viagem — comentou deslizando as longas unhas carmim pelo estofado da cadeira para os clientes. — Pensei em almoçarmos juntos para comemorar. — Já tenho compromisso — disse, em tom neutro e calmo, sabendo que precisava ser cuidadoso para evitar qualquer alarde no escritório. — Quanto ao trabalho: preciso que confirme, por e-mail, sua presença na reunião sobre a aquisição do terreno em Mumbai na sexta. — Compromisso de trabalho? — Particular. — Com quem? — ela questionou visivelmente aborrecida. — Tenho muito a fazer — ele limitou-se a responder. Deu um passo em direção à porta, mas ela se moveu bloqueando o caminho, os olhos azulados brilhando de determinação, o sorriso sutilmente sedutor. Simone o encarava como se ele fosse uma presa. — Vamos, não seja malvado — ela murmurou, aproximando-se ainda mais, as mãos acariciando o tórax dele. — Só uma horinha... Pelo que tivemos, por tudo que passamos querido. Seu charme e beleza tinham colocado Guilherme caído aos seus pés no passado, mas agora só conseguiam irrita-lo. Respirou fundo, mantendo a compostura e tranquilidade. Não queria dar motivo para comentários ou, pior, atrair julgamentos dos colegas. Mas aquela situação estava se tornando insustentável. — Simone — sua voz saiu baixa e controlada —, isso já acabou. O que tivemos ficou no passado. Nossa relação agora é puramente profissional — concluiu afastando educadamente as mãos dela. Piscando confusa, o sorriso sedutor desapareceu, dando lugar a um princípio de choro que ele sabia ser teatral. Antes que ela pudesse insistir ou fazer uma de suas ceninhas, Guilherme saiu sem sequer olhar para trás. — Tenha um bom dia. Olhando-o se afastar, Simone ficou ali, imóvel, sentindo o sangue fervendo em suas veias. O controle que tinha sobre ele havia desaparecido, sendo substituído por desprezo escancarado que a perturbava mais do que gostaria de admitir. Suas mãos fecharam-se em punhos, as unhas afundando nas palmas, tentando controlar a ira ameaçando explodir em gritos e ameaças. — Como ousa me tratar assim? — murmurou entredentes. Um colega passou em frente ao escritório e a olhou intrigado, despertando-a para o fato de estar dentro da sala de Guilherme, com a porta escancarando sua frustração. Levou os dedos aos fios dourados, alinhou-se e saiu de queixo erguido e sorriso gracioso. Guilherme não sabia, mas em breve seria seu novamente.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR