Depois que Guilherme saiu para o trabalho, Tábata sentiu-se inquieta. Não era acostumada ao silêncio. Sua casa era o pandemônio todos os dias. O pai, que sofria com a audição limitada devido a um derrame a cerca de três anos, deixava o volume do televisor nas alturas, o que exigia que os demais falassem em tom alto. Sua mãe sempre gritava por qualquer motivo, enquanto os irmãos mais velhos discutiam. Só ela e o caçula, Thomas, traziam a tranquilidade no lugar, isso por se refugiavam no que amavam: ele nos livros e ela nas antiguidades.
Não tinha mais o trabalho para distrai-la dos problemas. Não tinha mais nem família para perturbá-la, concluiu num longo respiro.
A certeza de que, com exceção do caçula e talvez seu pai, ninguém sentia sua falta não era suficiente para que se esquecesse deles. Quem cuidaria do pai? Pesquisaria novos itens para o antiquário? Ou cuidaria das contas? Seus irmãos mais velhos costumavam jogar esse trabalho nas mãos dela.
Talvez já houvessem reconsiderado a decisão.
Com essa pequena esperança no coração, pegou o celular e ligou para casa. No terceiro toque sua mãe atendeu.
— Oi, mãe... É a Tábata... — informou com a esperança ridiculamente frágil de uma resposta positiva, um pedido para que voltasse para casa. Mas, do outro lado da linha, o silêncio se instalou. — Eu queria...
A ligação foi interrompida com um clique seco, sem palavras, sem emoção.
Largou o celular no colo, encarando a tela apagada como se esperasse que a ligação retornasse por um milagre. Mas não haveria retorno.
Respirou fundo, aguentando mais aquela pedrada e engolindo as lágrimas que ardiam em seu coração. Não derramaria mais nem uma gota. Já tinha chorado o suficiente por pessoas que nunca retribuiriam o amor que lhes dava.
Deslizando a mão sobre a barriga, sorriu, um sorriso triste e cheio de ternura pela pequena vida crescendo dentro ali.
— Prometo meu bebezinho — murmurou a voz quebrando ligeiramente —, que vou te dar tudo o que me negaram: amor, carinho, apoio... tudo.
Seus olhos se fecharam por um momento, buscando forças para suavizar a dor em seu peito. Mesmo naquele momento de tristeza, algo novo surgia dentro dela. Seu bebê lhe dava uma razão para acreditar que o futuro seria melhor.
— Nós vamos ser felizes, meu amor — disse, com um tom de certeza que não sabia de onde vinha.
~*~
Longe dali, com a firme determinação de garantir o bem estar de Tábata e do bebê, com o celular contra a orelha, Guilherme empurrou a porta da saída de emergência e seguiu a passos firmes até o balcão da recepção do escritório Ramos Advogados Associados.
Acostumadas a ver o advogado preferir as escadas aos elevadores, as duas recepcionistas o cumprimentaram e, como de costume, uma delas agarrou a pilha de correspondência ouvindo surpresa a estranha conversa dele.
— Enviarei toda a documentação, mas quero iniciar o pré-natal o mais breve possível — ele disse enquanto a aguardava examinar a pilha de correspondência, para entregar as dele.
Ela estendeu os envelopes, lamentando quando ele pegou e encaminhou-se para as portas que separavam a recepção do restante do escritório. Voltou-se para a colega, tinham garantido assunto para conversar e investigar o dia todo.
Alheio a curiosidade despertada, Guilherme seguiu para sua sala, acenando aos colegas que via pelo caminho, até mesmo retribuindo o da advogada que conseguiu uma sala ao lado da sua de modo escuso demais para o seu gosto. Tudo sem parar de prestar atenção no que a atendente do outro lado da linha dizia e ignorando o brilho de interesse nos olhos acompanhando seus passos.
— Quarta é a data mais próxima? Que horas? — questionou não podendo fechar a porta, pois, Carlos Ramos, o fundador do escritório, entrou em sua sala. Pediu um momento com um sinal, para finalizar a conversa. Pegou o bloco de notas e uma caneta na escrivaninha, se inclinando para anotar as informações. — Entendo que tem o tempo de carência, pagarei toda a despesa extra. Sim, será no nome de Tábata Mamoru. Obrigado!
Encerrou a ligação e, depois de depositar sua valise sobre a poltrona se voltou para Carlos, reparando na pasta que o advogado carregava debaixo do braço.
— Bom dia, Carlos. Em que posso ajuda-lo?
Acostumado com o modo direto do Perez e certo que sua curiosidade com o estranho telefonema teria de ser aplacada de outro modo, pois o advogado prezava sua i********e, Carlos não fez perguntas, seguindo com o mesmo tom profissional.
— Alessandro Salvatore marcou a viagem para Mumbai — informou colocando a pasta em frente ao Perez. — Já selecionei quem o acompanhará.
Guilherme contornou a mesa e se sentou para analisar o documento, enquanto Carlos ocupava uma das cadeiras no outro extremo. Não se surpreendeu com as escolhas, embora uma tenha o feito arquear uma sobrancelha com desagrado.
— Julian Carelli, Kaio Vasques e Simone Muller ficarão sobre sua ordens e espero uma avaliação deles ao fim da transação. Julian deseja uma conta grande, dependendo de como se sair terá grandes chances de conseguir; Kaio está perto de encerrar seu contrato de estágio. — Vendo Guilherme assentir sem tirar os olhos claros dos documentos, Carlos respirou fundo. — E Simone foi uma exigência da esposa de Alessandro.
— Por qual motivo?
— A mulher do Alessandro será encarregada do projeto arquitetônico e imaginou que seria uma boa ideia enviar a advogada que a representa para acompanhar a transação.
Guilherme evitou frisar que a planta do prédio não foi feita e o terreno, por enquanto, sequer pertencia aos Salvatore, mas calou. Sabia que a ideia provavelmente não partiu da esposa de Alessandro, e era justamente isso que o incomodava.
— Marcarei uma reunião ainda nessa semana para alinharmos os procedimentos e mostrar o que já foi tratado até o momento — falou profissional.
— É o que espero. — Carlos se ergueu com um longo respiro. — Alessandro acompanhará tudo de perto, por isso a viagem será após as festas de fim de ano. A transação deve seguir sem grandes dramas — determinou caminhando para a porta.
Guilherme assentiu, captando a indireta.