Depois de tomarem o café da manhã juntos, Guilherme e Tábata caminharam lado a lado até a garagem. Girando as chaves do carro na mão, ele olhou para ela de soslaio ao parar ao lado do veículo, um pequeno sorriso brincando em seus lábios.
— Não exagere limpando a casa, está bem? — pediu. — Tenta descansar um pouco e, por favor, se alimente direito.
Bem-humorada, ela deu uma risadinha e balançou a cabeça.
— Como é que eu vou me desgastar em uma casa onde cada coisa está no seu perfeito lugar? — retrucou, estendendo um dedo em direção as ferramentas alinhadas em uma das paredes da garagem. — A casa de um verdadeiro perfeccionista. — provocou. Mas, ao lembrar-se de algo, observou cautelosa: — Bom, com exceção do seu escritório…
Guilherme ergueu uma sobrancelha, surpreso com a menção. Ele não costumava deixar aquele cômodo bagunçado.
— O que tem o escritório?
— Limpei o escritório de manhã e vi uma caixa escorada na cômoda... Então percebi se tratar de um berço e que o móvel tem gravuras infantis nele. Por que você tem aqueles móveis lá?
A pergunta pairou no ar, causando uma súbita mudança na expressão de Guilherme. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, remexendo as chaves entre os dedos.
Percebendo o desconforto que gerou, Tábata ficou inquieta, concluindo que não deveria ter perguntado aquilo.
— Comprei para o filho de uma conhecida — ele finalmente disse, a voz baixa, quase distante. — Mas ela acabou... Hum, perdendo a criança. Deixei os móveis ali desde então, nunca soube o que fazer com eles... — Ele voltou a sorrir, embora sem o brilho nos olhos. — Mas, com a sua chegada, pensei em algo. Podemos montar o quarto do seu bebê ali.
Tábata arregalou os olhos diante da sugestão.
— Não sei se faz sentido... — começou ela, balançando a cabeça devagar. — Não ficarei aqui por muito tempo depois que o bebê nascer. Assim que eu conseguir trabalhar e nos sustentar, vou procurar um lugar definitivo. Deveria dar esses móveis para alguém que precise, ou... — ela engoliu em seco, desconfortável com o pensamento que lhe veio à mente. — Deixar para os seus filhos... quando tiver...
— Meus filhos? — Ele soltou uma risada seca, sem humor, os olhos se movendo para longe dos dela. — Nesse momento não tenho nenhum e o seu precisa de um espaço adequado.
— Você dorme lá.
Ele deu de ombros.
— Arrumarei o quarto para você e o bebê, assim volto para o meu, o que acha? — propôs.
Tábata sentiu o desconforto crescer. Não queria aceitar a ajuda de forma tão definitiva, sabendo que, no fundo, planejava sair assim que possível. Mesmo assim, Guilherme insistia com uma determinação inabalável.
— Usamos os móveis agora, e depois eu vejo o que faço com eles.
Ela suspirou, percebendo que não adiantava discutir. Guilherme era teimoso, e ela sabia que ele só largaria o assunto quando vencesse.
— Tá bom... — murmurou sem muita convicção. — Se acha que é o melhor...
Ele sorriu levemente, satisfeito com o desfecho, seguindo para o veículo.
— Não esqueça de não se esforçar demais, descansar e...
— Comer por dois — Tábata acrescentou revirando os olhos.
— Exato! — ele concordou rindo. — E se precisar de mim, me ligue a qualquer momento que virei correndo.
— Pode apostar que eu vou — ela gracejou, piscando travessa, enquanto ele abria a porta da garagem.
Observando o carro se afastar, Tábata sabia que não tinha intenção nenhuma de montar um quarto de bebê ali. Só esperava que ele, em algum momento, esquecesse o assunto.
~*~
A movimentação no escritório estava tranquila na quarta-feira, até o momento em que Guilherme saiu às pressas. Simone, que estava revisando um processo com um estagiário, levantou os olhos do computador ao ouvir alguém se despedindo de Guilherme. A surpresa a atingiu quando o viu passando apressado em direção à saída.
— Ele tem alguma externa hoje? — Simone murmurou para si mesma, revisando mentalmente a agenda dele, que decorava toda semana.
Largando o estagiário com uma pilha de trabalho extra, voltou a sua sala e olhou em seu computador o e-mail com informações da rotina dele para aquela semana. Não havia nada marcado para as três da tarde, então por qual motivo ele saiu levando sua pasta?
Era raro Guilherme deixar o escritório antes do fim do expediente, e mais ainda sair daquele jeito, apressado, sem nem olhar para os lados. Recostou-se na cadeira, cruzando os braços, os pensamentos correndo em sua mente. Algo estava estranho.
Sem perder tempo com divagações que não levavam as respostas que necessitava, se levantou e foi até a recepção, onde as duas secretárias do escritório estavam concentradas em seus computadores.
— Viram o Guilherme saindo agora? Sabem o motivo? — questionou, os olhos azuis examinando ambas.
Elas levantaram o olhar e se entreolharam hesitantes. Todo o escritório sabia que Simone era próxima de Guilherme, afinal, eram ex-noivos, mas também sabiam que as coisas entre eles não tinham terminado da melhor forma e o Perez a evitava o máximo possível. Ainda assim, como uma conexão, assentiram, antes de uma tomar a frente e contar em voz baixa:
— Vimos sim — respondeu, explicando em tom conspiratório: — Ele marcou uma consulta médica pra hoje, um pré-natal.
Simone arqueou uma sobrancelha, o coração disparando.
— Pré-natal? — repetiu, tentando manter o tom casual, mas sem segurar o tremor em sua voz. — Pra quem?
A jovem deu de ombros. A outra secretária sorriu com malícia e, abaixando ainda mais a voz, falou como se contasse um grande segredo:
— Ele estava muito ansioso e exigindo rapidez quando fez a ligação. Parece que o doutor perfeitinho será papai em breve.
Simone sentiu o sangue gelar em suas veias, as palavras da secretária ecoando em sua mente. Guilherme teria um filho? Quem seria a mulher que se atreveu a tocar o que é dela? O ciúme a corroía, contorcendo suas feições sem que notasse.
Marchou de volta para sua sala, os dentes cerrados e as unhas criando vincos nas palmas de suas mãos. O simples fato de imaginar Guilherme envolvido com alguém a deixava irada. Não sabia quem era essa mulher, mas quando descobrisse a destruiria.