O consultório da obstetra estava silencioso, apenas o som suave do ar-condicionado preenchendo o ambiente. Deitada na maca, Tábata olhava para o monitor ao lado, onde o ultrassom exibia borrões indefinidos para seus olhos destreinados. Guilherme estava ao seu lado.
Depois dos exames iniciais, ela não queria ficar sozinha e, como se captando isso, ele se ofereceu para acompanha-la no ultrassom. Foi natural ter a ajuda dele para se ajeitar na maca, assim como segurar a mão masculina em busca de conforto.
Mesmo tendo dito várias vezes que estava bem, temia que ele estivesse certo sobre o modo com que lidou com a gravidez até ali, que algo estivesse errado com seu bebê por sua culpa.
O ambiente ficou silencioso, exceto pelo som suave do aparelho de ultrassom, enquanto a obstetra, uma mulher de meia idade de nome Mariana de sorriso gentil, movimentava o transdutor pelo gel espalhado no ventre de Tábata com calma e precisão, os olhos atentos ao monitor que exibia as imagens em preto e branco do bebê.
— Aqui está a cabeça do bebê. Essas são as perninhas, e aqui estão os bracinhos... — explicou, movendo o aparelho devagar, fazendo pausas para medir cada parte do pequeno ser. — E o coraçãozinho é forte — disse a médica, apontando para a tela. O som dos batimentos ecoou pela sala, preenchendo o ambiente.
Tábata e Guilherme se inclinaram instintivamente para mais perto da tela. Os olhos dela se encheram de lágrimas, enquanto Guilherme não conseguiu esconder o brilho nos próprios olhos e um leve sorriso de fascinação. O som era ritmado, constante, como uma pequena melodia que prendia a atenção dos dois.
— É incrível... — murmurou Tábata, a voz embargada. Guilherme apertou sua mão com delicadeza, preso no mesmo encantamento.
Mariana sorriu, conhecendo bem aquela emoção que transbordava dos rostos à sua frente. Continuou o exame, fazendo anotações e dando informações sobre o bebê.
— Querem saber o sexo? — perguntou a médica intercalando o olhar de um para o outro.
— Sim! — respondeu Tábata, animada e ansiosa.
A médica sorriu, olhando novamente para a tela a procura da resposta.
— Parabéns, vão ter uma menina.
— Uma menina... — repetiu Tábata em um sussurro, os olhos fixos no monitor, onde a silhueta da pequena vida se movia, mesmo que fosse apenas um reflexo indistinto nas sombras do ultrassom.
A médica continuou o exame por mais alguns minutos, enquanto Tábata segurava a respiração a cada movimento que o bebê fazia. Quando o exame terminou, a obstetra se afastou, apagando a imagem da tela, e indicou que se dirigissem até as cadeiras para conversarem.
Ansiosa, Tábata sentou-se em frente à obstetra, o olhar movendo-se pelas anotações médicas que a Dra. Mariana revisava em silêncio, embora sem entender nada. Guilherme estava ao seu lado, à postura relaxada, porém atento.
— Bom, Tábata — começou a Dra. Mariana, cruzando os braços sobre a mesa enquanto a observava. — Os exames mostram que você está de dezenove semanas e sua bebê está bem formada e saudável. No entanto, a bebê está um pouco abaixo do peso e do tamanho esperado para essa fase da gestação.
O coração de Tábata afundou.
“Guilherme estava certo”, pensou sentindo uma estranha fraqueza anuviar sua visão. Ele havia insistido tantas vezes que ela precisava se alimentar melhor, que não estava cuidando da própria saúde. Agora, diante daquela notícia, evitava sequer olhar para ele, imaginando o ar superior, e acusatório, que certamente exibia naquele momento.
A médica moveu os olhos de íris esverdeadas para os exames que Tábata fez antes do ultrassom.
— Seus exames de sangue também indicam que você está com anemia. Nada extremamente grave, mas é importante que comece a se cuidar melhor. — Dra. Mariana olhou diretamente para ela, com um olhar gentil, mas firme. — Vou receitar alguns suplementos, e você vai precisar melhorar sua alimentação.
Tábata balançou a cabeça em silêncio, sentindo-se pequena e envergonhada. Em sua missão de adiar o inevitável, escondendo a gravidez, havia negligenciado a saúde dela e do bebê, mas ouvir aquilo da médica era como uma confirmação dolorosa de suas constantes falhas.
— O que isso significa para a bebê? — A voz de Guilherme cortou o silêncio. Ele estava calmo, mas havia uma preocupação contida em seu tom. Tábata finalmente olhou de relance para ele, esperando alguma crítica, mas ele apenas mantinha os olhos fixos na médica, interessado em compreender a situação.
— A bebê está bem formada, o que é um bom sinal. Mas é importante que ela receba todos os nutrientes necessários nas próximas semanas para continuar se desenvolvendo adequadamente. — A médica sorriu, tentando tranquilizá-los. — Com os suplementos corretos e alimentação equilibrada, podem compensar essa diferença de peso em poucos dias.
— Também recomendo que participem de aulas de pré-natal. Vai ajudar bastante na preparação para a chegada da bebê. Posso inscrevê-los na que temos aqui no hospital. O que acham?
Antes que Tábata pudesse responder, Guilherme respondeu de imediato:
— É uma ótima ideia. Pode nos inscrever hoje mesmo.
Tábata virou a cabeça para ele, surpresa com a prontidão da resposta e a decisão dele em acompanhá-la.
Ele apenas sorriu e voltou a segurar a mão dela, seu calor reconfortante a envolvendo.
— Vamos fazer tudo que indicar — ele disse se voltando para a médica.
— Fico feliz em ouvir isso — Mariana disse satisfeita. — Passarei todas as informações sobre as aulas pelos contatos de vocês.
— Obrigada, doutora — murmurou Tábata, ainda tentando assimilar tudo o que acontecia.
Quando a obstetra se levantou para se despedirem, ela deu uma última olhada carinhosa para os dois.
— Parabéns de novo. Vão ser ótimos pais.
Tábata abriu a boca para corrigir a médica, explicar que Guilherme não era o pai do bebê, só estava a ajudando, sendo um amigo incrível. Mas Guilherme apertou sua mão com firmeza e se adiantou.
— Obrigado, doutora — respondeu sem qualquer intenção de corrigir a confusão.
Confusa e ligeiramente agitada, Tábata fechou a boca. Podia ver nas íris cor de mel e nos dedos entrelaçados nos seus a serenidade e segurança de Guilherme, deixando claro que não se incomodava em ser apontado como pai da filha dela.
A sala pareceu girar ao redor de Tábata por alguns segundos, a mente se enchendo de perguntas: “Por que ele não a contou a verdade? Por que deixa a médica pensar que ele é o pai?”.