Tábata e Guilherme caminharam em silêncio até o estacionamento do hospital, cada um envolvido em seus pensamentos. A noite preenchia o céu e um vento fresco balançava suavemente o cabelo dela, que observava ele pelo canto do olho ainda pensando no que ocorreu ao fim da consulta.
Estava confusa, perdida entre a preocupação pela bebê e o novo envolvimento de Guilherme naquilo tudo. Ele parecia tão natural, tão à vontade com a ideia de participar de algo que ela achava que seria apenas responsabilidade sua.
Parecendo despreocupado, ele girava a chave da Ford Ranger no dedo até chegarem à vaga. Quando se acomodaram no carro, ele enfim explicou sua atitude.
— Só pra esclarecer, não vi necessidade de corrigir a médica quando presumiu que eu fosse o pai da bebê por achar desnecessário. — Guilherme ligou o veículo. — E é melhor que as pessoas pensem que o bebê é meu — disse devagar, como se calculasse cada palavra.
— Como assim?
— Não precisamos corrigir nesse momento. Se acharem que sou o pai, você e o bebê podem ficar no meu seguro de saúde — explicou prático. — O importante é que você e a bebê estejam bem — disse, manobrando para a saída. — E sobre as aulas de pré-natal, se permitir, quero te acompanhar em todas.
— Não precisa fazer isso... — Ela apertou os dedos na barra da camiseta. — Já me ajuda o suficiente ao me dar um lugar para ficar. Não quero ser um peso pra você.
— Somos amigos, certo? — ele questionou, olhando rapidamente para ela, que assentiu em resposta. — Amigos se ajudam, é isso que faço e continuarei a fazer se permitir. — Ele sorriu, um brilho de diversão reluzindo em seu rosto e voz. — E, olha, as aulas podem ser interessantes pra mim também.
Tábata sentiu os olhos se encherem de lágrimas, mas segurou firme. Uma confusão de sentimentos a dominava, entre alívio, gratidão e uma pitada de dúvida. Mas, acima de tudo, uma alegria inesperada por não estar mais sozinha.
Era como se uma parte da carga de responsabilidade que carregava há meses tivesse sido tirada de seus ombros. Estava se preparando para lidar com tudo sozinha e agora Guilherme estava ali, oferecendo ajuda sem que precisasse sequer pedir.
— Quer mesmo aprender a trocar fraldas? — perguntou, seguindo-o no tom bem humorado.
— Estou nessa com você — ele disse, dando de ombros como se aquilo fosse a coisa mais simples do mundo.
Mesmo que fossem apenas amigos, o que ele oferecia significava muito.
— Obrigada, Gui. De verdade. — Ela deu um pequeno sorriso, sentindo-se leve e agraciada por ter alguém como Guilherme ao seu lado, alguém que se importava e oferecia proteção e cuidado irrestrito.
~*~
No dia seguinte, em sua sala, Guilherme estava concentrado em seu computador quando a porta se abriu abruptamente, sem uma batida sequer.
— Guilherme, posso saber por que saiu cedo ontem? — A voz de Simone soou cortante, sua presença preenchendo o ambiente antes mesmo que ele pudesse olhar para ela.
Levantou os olhos devagar, a expressão neutra, quase fria. Tendo fechado a porta, Simone estava parada a sua frente, de braços cruzados, o cabelo loiro brilhando sob a luz natural, os olhos azuis fixos nele com ar de desafio.
— Bom dia pra você também, Simone — disse sem entusiasmo.
— Não se faça de desentendido. — Ela se aproximou, o salto alto ecoando no piso. — As secretárias comentaram que ouviram você dizer que iria a um exame pré-natal. Que inferno está acontecendo, Guilherme?
Ele recostou-se na cadeira, entrelaçando os dedos no colo.
— Minha vida pessoal não é da sua conta.
A resposta foi direta e seca, sem margem para discussão. Ainda assim, Simons não planejava recuar. Tinha passado a noite se revirando, imaginando quem seria a mulher se infiltrando na cama de Guilherme e modos de eliminá-la.
— Não é da minha conta? — Ela se empertigou, erguendo o queixo e mantendo o olhar desafiante, como se assim pudesse proteger seu orgulho. — Estávamos noivos até dias atrás, e você me aparece com uma mulher qualquer grávida? Tenho o direito de saber!
Ele arqueou uma sobrancelha, os lábios formando um sorriso frio.
— Nossa relação agora é estritamente profissional. — Ele inclinou-se um pouco para frente, a voz grave e controlada ao frisar: — E, sendo repetitivo e bem claro: não te devo mais nenhuma explicação sobre a minha vida pessoal.
Ela apertou os lábios, o sangue fervendo, tingindo seu rosto de vermelho. Quis retrucar, gritar, exigir respostas, mas antes que pudesse reagir, Guilherme se levantou.
— Tenho muito trabalho a fazer. — A voz dele era firme, sem dar espaço para questionamentos ao caminhar até a porta e a abria, indicando a saída. — Creio que deve ter trabalho em sua sala também.
Simone ficou parada, chocada. Ele a estava rejeitando novamente, com aquela calma e frieza insuportável. Quis insistir, mas a expressão impenetrável de Guilherme a fez recuar. A fúria em seus olhos, no entanto, não desapareceu.
— Isso não acabou, Guilherme — prometeu em um sussurrou ao sair da sala ele, cada passo e respiração carregados de ressentimento.
Tenso, apenas a observou sair antes de fechar a porta com um empurrão. Simone tinha o poder de desestrutura-lo, de puxar lembranças e sentimentos que ele preferir manter bem enterrados na mente e no coração.
Voltou para sua mesa, colocando os pensamentos sobre Simone de lado. Ela era passado, assim como todo o caos que criou na vida dele, e estava determinado a seguir em frente, sem se deixar afetar.