Capítulo 14: Outro mundo

936 Palavras
O sábado amanheceu com um sol tímido, desanimado e escondido entre nuvens, refletindo perfeitamente o estado emocional de Tábata. Mesmo que às vezes sua família fosse opressiva, a agitação de sua antiga rotina fazia falta. Não ter nada para fazer o dia todo conseguia a proeza de deixa-la esgotada. Bocejando e com os cabelos desalinhados, arrastou-se até a cozinha, onde foi recebida pelo cheiro de café fresco. Diferente dela, que se sentia um lixo ambulante, Guilherme estava insuportavelmente bonito e impecável, o cabelo tocando os ombros largos, um sorriso leve na boca atraente. — Bom dia, Taby! — ele disse, o sorriso como um girassol saudando o calor do sol. — Preparei um café reforçado — anunciou apontando para a mesa com pães, bolo, frutas, café e suco de cor roxa que supôs ser de uva. — Bom dia! — respondeu sorrindo de volta, mesmo sem muita animação. Sentou-se e serviu-se de bolo e suco, confirmando em um gole ser de uva, olhando vagamente para os demais alimentos. Comeria de tudo um pouco, como fazia desde a consulta com a obstetra. Queria que sua bebê estivesse bem nutrida. — Mais tarde visitarei o meu pai. Quer vir comigo? — Guilherme convidou passando manteiga no pão. — Eu posso? — ela perguntou surpresa e ansiosa. — Claro. A menos que prefira ficar em casa hoje. Tábata teve vontade de rir. A última coisa que queria era mais um dia entediante trancada em casa. — Quero ir com você — decidiu rapidamente. ~*~ No caminho, dentro do Ford Ranger, a música no rádio preenchia o ambiente com uma música animada, mas Tábata estava tensa, os dedos amassando a barra da camiseta verde com um desenho infantil no centro. Guilherme, como sempre, estava concentrado na estrada, mas, sempre que o sinal ficava vermelho, aproveitava para olhar na direção dela, encontrando-a com uma constante expressão de desconforto. Ela parecia empolgada a princípio, não querendo ficar em casa tanto quanto ele não queria deixá-la sozinha lá. No entanto, agora se remexia e suspirava a cada quilômetro. — Arrependida de aceitar vim comigo? — questionou cansado de esperar ela ter a iniciativa de falar o que a incomodava. — Não! — ela negou de pronto. — É só... Acho que não deveria... O que seu pai vai pensar ao te ver ao meu lado? Uma mulher grávida de um desconhecido? Guilherme a compreendeu. Ela tinha medo de ser julgada e condenada como foi pelos próprios pais. — Meu pai é um homem inteligente e gentil, vai te receber como me recebe: de braços abertos — a tranquilizou. Tábata o olhou com um sorriso trêmulo. — Então é dele que você puxou essas qualidades. — Sim — ele disse orgulhoso. Tábata teve o estranho desejo de questionar o que ele puxou da mãe, mas segurou, empurrando as palavras para o fundo da garganta. Não era tão íntima para fazer perguntas que ele não respondia nem para o melhor amigo. Minutos depois passavam por um portaria blindada, uma placa de letras douradas anunciava que entravam em um condomínio chamado Delluna. Enquanto seguiam pelo condomínio, as residências, vistas à distância, aumentavam em tamanho e imponência. Pareciam castelos modernos, cercados por muros altos e seguranças discretamente posicionados. Além das casas, o condomínio contava com restaurantes, spas e uma infinidade de comércios. Percebeu que se tratava de um condomínio de gente absurdamente rica. — Esse lugar é... hum, enorme — comentou Tábata, tentando esconder a surpresa, embora seus olhos arregalados a denunciassem. — Parece um outro mundo... — murmurou, mais para si mesma do que para ele, mas Guilherme a ouviu. — De certa forma, é. — Seu pai mora aqui? Pensei que sua família era igual a minha, sabe, classe média pra baixo. — Desde que me formei passei a ser classe média pra cima — Guilherme a corrigiu bem humorado. — E sim, meu pai mora aqui. É jardineiro na mansão dos proprietários desse condomínio. — Uau! Deve ser uma família milionária — comentou impressionada por praticamente existir uma cidade naquele lugar. — Eles lucram vendendo imóveis de luxo aqui e em muitos outros lugares pelo mundo. Minha família tem uma longa relação com os Salvatore, inclusive eles que me ajudaram com os estudos — explicou com gratidão vibrando na voz. — Quando me formei, os Salvatore me escolheram para representá-los legalmente. Desde então, cuido dos negócios deles. Por fim, ao avistar os portões imponentes que Guilherme indicou se tratar da mansão dos Salvatore, Tábata respirou fundo, preparando-se para encontrar o pai dele. O carro diminuiu a velocidade, e ela viu os portões de aço escuro se abrirem sem que Guilherme precisasse fazer qualquer movimento. — Reconhecimento facial — ele explicou ao notar a interrogação na expressão dela. O carro passou pelos portões e seguiram por uma longa alameda ladeada por árvores e jardim impecavelmente cuidado. A mansão principal surgiu à frente deles, uma construção monumental com janelas altas e detalhes arquitetônicos luxuosos. Mas Guilherme não parou ali. Virou o volante e seguiu por uma estrada lateral que os levou até uma área mais discreta, onde uma construção estava localizada. — Meu pai mora em uma espécie de apartamento nessa construção, junto com outros empregados que optam por morar aqui — explicou. — O convidei para morar comigo várias vezes. Pretendia incluir um espaço pra ele na futura ampliação da minha casa, mas ele não quer. Diz que prefere continuar perto do trabalho. — Ele manobrou o carro para uma vaga de estacionamento em frente o imóvel. — Pronta para conhecê-lo? — perguntou Guilherme, virando-se para ela. Ela respirou fundo e assentiu. — Sim, vamos!
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