Ao chegarem à casa do pai de Guilherme, o nervosismo de Tábata aumentou. Não conhecia muito da família dele, por isso estava curiosa e tensa. A porta de madeira rangeu quando Guilherme a destrancou, revelando uma casa modesta, com traços rústicos e aconchegantes. Ela olhou ao redor, observando a pequena sala e duas portas mais adiante.
— Ele não está em casa — Guilherme comentou após chamar o pai e não obter respostas. — Hoje é folga dele, mas não duvido que está cuidando dos jardins. Vem, vamos procurá-lo — ele pediu segurando a mão dela ao saírem da casa.
Por um momento, querendo evitar a direção iludida que sua mente tomava sempre que estava ao lado dele, Tábata pensou em soltar sua mão, mesmo gostando do calor de encontro a sua palma. Porém, conforme avançavam pelo caminho de pedras, considerou mais seguro manter suas mãos unidas.
O espaço à frente se revelava um jardim imenso, com flores de todas as cores e tamanhos, e havia muitas árvores frutíferas. Os canteiros eram podados a perfeição, e o cheiro suave das plantas invadia o ar.
— Esse lugar é enorme... — murmurou entre chocada e maravilhada. — Dá medo de se perder aqui.
— Comigo ao seu lado não precisa se preocupar com isso. Acompanhei meu pai ao longo dos anos e conheço cada canto daqui — Guilherme explicou, orgulhoso, enquanto observava a reação dela. — Quando era criança, eu o ajudava nos finais de semana, ainda faço isso ocasionalmente. Foi entre essas plantas que aprendi a importância da paciência e dedicação.
Tábata olhou para ele. Guilherme parecia relaxado, quase nostálgico.
— Deve ser um trabalho árduo manter tudo assim.
— É sim. Eles tem uma equipe comandada pelo meu pai, mas ele é que decidi tudo — ele concordou, sorrindo de lado. — Ele adora esse lugar. Cuidar das plantas sempre foi à forma dele de encontrar paz. E, quando estou aqui, sinto que parte dessa calma me envolve.
Enquanto caminhavam, Guilherme contou algumas lembranças de infância, momentos que passou com os filhos dos patrões e com as primas, que também moravam na propriedade.
— Ah, ali está ele!
Olhando na direção indicada, Tábata avistou um senhor de longo cabelo grisalho, preso em um r**o de cavalo, conversando com uma mulher de estatura mediana, usando um chapéu de palha e jardineira. Os dois estavam agachados em frente a uma horta. Ela ria suavemente enquanto segurava uma pequena pá de jardinagem nas mãos.
Ouvindo o chamado do filho, Pedro imediatamente sorriu para ele, mas antes que pudesse se aproximar, a mulher ao seu lado ergueu-se e se precipitou até Guilherme, abraçando-o de forma carinhosa.
— Meu querido! Quanto tempo! — exclamou ela, segurando o rosto de Guilherme com as duas mãos, examinando-o. — Está mais magro! Tem se alimentado direito?
Tábata observava a cena, confusa. A familiaridade e o carinho com que a mulher tratava Guilherme a fizeram supor que se tratava da mãe dele. Seria a mulher que Guilherme evitava falar sobre até com Lee, seu melhor amigo? Mas, ao ver a forma como Guilherme sorria de maneira gentil e sem qualquer ressentimento, começou a duvidar de sua suposição.
— Estou bem, Dona Mirela, não precisa se preocupar — respondeu Guilherme sorrindo. — E você? Está ajudando meu pai na horta?
— Pedi ajuda para colher algumas hortaliças e aproveitei para colocar a conversa em dia — respondeu ela apontando para o cesto cheio. Os olhos escuros da mulher se voltaram para Tábata, deslizando até a barriga destacada antes de se fixarem em Guilherme novamente — E quem é essa bela jovem?
— Essa é Tábata Mamoru — ele respondeu apoiando a mão nas costas dela. — Ela está morando comigo.
"Morando comigo"? A frase fez Tábata olhar de Guilherme para as outras duas pessoas a sua frente. O medo de que Mirela, ou pior, o pai de Guilherme, interpretasse m*l aquela situação a deixou imediatamente inquieta. Ela olhou para Mirela, que parecia mais curiosa ainda, e sentiu que precisava explicar-se antes que surgissem conclusões equivocadas.
— Nós somos só amigos — apressou-se a dizer, as palavras saindo rápidas e atropeladas. — Guilherme está me ajudando... Estou passando por uma fase difícil, e ele foi muito gentil em me dar um lugar para ficar.
Mirela piscou, um pouco surpresa com a enxurrada de explicações. O sorriso dela permaneceu, mas agora mais suave, enquanto seus olhos avaliavam a situação.
— Ah, querida, não precisa se justificar assim — disse com uma risada leve, claramente divertida pela reação de Tábata. — Guilherme sempre foi muito gentil e prestativo, isso não me surpreende.
Tábata deu um suspiro aliviado, mas ainda sentia suas bochechas queimarem de vergonha. Guilherme olhou para ela de canto, prosseguindo nas apresentações.
— Taby, esse é meu pai, Pedro — indicou o homem que removeu as luvas de jardinagem para apertar a dela. — E essa agradável mulher, é Mirela Salvatore — ele finalizou arrancando uma risada gostosa da Salvatore.
— Seu filho saiu um belo cavalheiro galanteador — Mirela disse se voltando para Pedro, que assentiu com um sorriso.
Tábata piscou confusa. Pelo modo de tratamento de Guilherme, imaginou que aquela mulher afetuosa não era a mãe dele, mas nada a preparou para o fato de ser a dona da enorme propriedade em que estavam.
— Fico feliz em conhecer vocês... ambos... — disse ela, tentando relaxar.
— Pedro, o deixarei com seu filho e amiga para conversarem tranquilamente — ela disse antes de se virar para Guilherme e Tábata acolhedora. — Por favor, passem na casa principal depois. Adoraria conversar mais um pouco com vocês.
Guilherme assentiu com um sorriso leve, sempre respeitoso.
— Claro, Mirela. Faremos isso.
Aumentando a gama de surpresas daquele dia, Tábata observou Mirela colocar o cesto cheio em uma bicicleta e pedalar tranquilamente para longe dele. A imagem da mulher simples, quase rústica, a deixou boquiaberta.
— Ela não parece uma mulher rica — comentou, mais para si mesma, mas Pedro ouviu e riu alto.
— Ah, Mirela... — Pedro sacudiu a cabeça, divertido. — Ela não se dá conta de que é podre de rica! Antigamente, ela era empregada aqui na mansão, como eu. Ajudava bastante no jardim, sabe? Até que... bem, ela e o patrão se apaixonaram. O resto é história.
Pedro inspirou fundo, as mãos afundadas no bolso da surrada calça jeans, o olhar vagando ao redor antes de se entrelaçar nos dois jovens a sua frente.
— Esse jardim presenciou muitas histórias de amor e prevejo que presenciará muitas mais.