Capítulo 16: Bolha familiar

1068 Palavras
Sentada no sofá, Tábata observava Pedro Perez preparar o café enquanto contava ao filho, sentado ao lado dela, como tinha sido os últimos dias. A residência de Pedro era simples e tinha aparência de um apartamento, pequena e aconchegante, a sala e a cozinha divididas por meio dos móveis, uma porta levava ao quarto e outra ao banheiro. Tábata imaginou que quando morava ali Guilherme dormia no sofá cama da sala, pois o quarto era pequeno e com uma única cama. Minutos depois Pedro servia café com bolo de fubá para eles, pousando tudo na mesinha de centro antes de puxar uma cadeira para si. Provando o lanche, Guilherme contou para Tábata o motivo da visita ao pai, ajudar na compra de suprimentos para as festas de fim de ano. — Todo ano revezamos quem irá preparar a ceia de Natal. Esse ano é minha vez e combinei de buscar a decoração tradicional dos Perez hoje — explicou pousando a xícara na perna. — Também vamos ao Galpão — Pedro recordou recebendo a confirmação do filho, antes de se voltar para Tábata animado. — Aproveitarei para comprar algumas coisinhas que preciso aqui. — Sabe que pode me chamar pra te ajudar a qualquer momento — Guilherme salientou finalizando sua bebida. — Sei, mas também sei o quanto é ocupado. Merece descansar e não perder tempo com esse velho folgado — brincou rindo. — Bem, mas antes... — Ele encaminhou-se para o quarto e voltou minutos depois com uma mala grande. — Aqui tá a árvore com a decoração. Te ajudaria a montar, mas sabe que não gosto de passar tanto tempo longe do meu jardim, e Deus me livre ter de lidar com as luzinhas! Guilherme ergueu-se, pegou a mala e voltou-se para Tábata com olhar pidão. — Taby me ajudará com as luzinhas, não vai? — Ah, claro... parece divertido. — Sua voz saiu baixa, quase sem querer, confusa por ser incluída na preparação. — Se visse o emaranhado não diria isso — Pedro comentou divertido. — É o início do caos de juntar os Perez no mesmo ambiente. — Pai, não assuste a Taby — Guilherme queixou-se, voltando-se para ela com um sorriso miúdo ao garantir: — Tirando minha prima Paola, somos equilibrados. — Estou preparado sua amiga para o fim do ano com os Perez. E Paola vale por dez — Pedro frisou bem humorado. — Aquela menina é bem capaz de levar um namoradinho, como fez ano passado, ou algum de seus amigos alternativos, dai sabe o estresse que fermentará em volta do meu irmão. Lembra que... Ouvindo a discussão de pai e filho sobre a tal prima problemática, acariciando devagar o ventre, Tábata foi atingida pela surpresa diante do convite implícito e natural dos Perez. Óbvio que era por ela morar na casa de Guilherme, que daria a festa, mesmo assim sentiu-se emocionada ao ser incluída na comemoração. Festas de fim de ano em família, algo tão comum, tão corriqueiro para os outros, era completamente fora da realidade para ela. As lembranças das comemorações com sua família eram amargas e solitárias. Sempre ficava de lado, uma mera espectadora. — Precisarei buscar algumas coisas pra o meu pai no Galpão, uma loja em que ele compra plantas, terra adubada, coisas de jardinagem — Guilherme disse tirando Tábata de seus pensamentos. — Quer ir ou prefere aguardar nosso retorno aqui? — perguntou, tranquilo e despretensioso, torcendo para ela optar acompanhá-los, mas não querendo pressioná-la. — Claro! Eu adoraria ir — Tábata respondeu de imediato. — Não se preocupe, não vai ser nada muito cansativo, nem demorado — Pedro garantiu pegando uma enorme sacola no canto, enquanto sacudia uma folha de caderno n outra. — Marquei tudo o que precisarei pra agilizar e tenho um filho forte pra carregar as coisas pesadas — contou satisfeito consigo. Tábata riu e se ergueu para segui-los nas compras. Aquela leveza na interação com os Perez, a forma que eles se davam tão bem e a aceitava sem questionamentos, a fazia esquecer, mesmo que por alguns momentos, das preocupações que carregava. ~*~ Ao chegarem ao Galpão, o cheiro de terra e flores frescas preencheu o ar. O local era impressionante, com orquidários, seções repletas de mudas de todo tipo, adubos, artigos de jardinagem de todo tipo, incluindo decorações. Pedro seguia ao lado direito dela, sem conter a empolgação. — Tábata, vai adorar isso aqui — disse ele, com um brilho apaixonado nos olhos caramelados como o do filho. — Cada planta tem uma utilidade, um história, e aqui encontro tudo que preciso para conseguir novos exemplares e fortalecer as que cuido no meu jardim. Ela sorriu, impressionada com o amor que o pai de Guilherme tinha pela profissão, dando ao Perez incentivo para falar sobre as plantas e outros produtos de jardinagem pelos quais passavam. Eles caminharam pelos corredores, entre samambaias, orquídeas e cactos, enquanto Pedro explicava as características de cada planta, como um guia apaixonado pelo que fazia. De vez em quando, Tábata trocava olhares cúmplices com Guilherme, que parecia estar se divertindo com a animação do pai. Do lado esquerdo, empurrando o carrinho lotado de itens, Guilherme observava Tábata com um sorriso, gostando de como ela tratava seu pai com respeito e atenção, mesmo com Pedro enchendo-a de informações irrelevantes, como qual o melhor estrume para essa ou aquela planta. Em um momento, Pedro pegou uma pequena muda de hortelã e a entregou a Tábata, com um sorriso carinhoso. — Isso aqui é especial. O chá de hortelã é ótimo para grávidas. — Colocou o vasinho cuidadosamente no carrinho. — É um presente meu para você. — Obrigada, senhor Pedro! — ela agradeceu se inclinando para inspirar o aroma agradável das folhas. — Cuidarei bem dela e aprenderei como fazer o chá. Guilherme, sempre prático, interveio: — Antes de tomar, perguntaremos à obstetra. Só para garantir. — Sim, sim. É sempre bom ter um doutor de olho — Pedro indicou em apoio à precaução do filho. — Depois me avisem. Se tiver qualquer planta que ajude a deixar o bebê forte arranjarei pra vocês. O dia seguiu de forma descontraída, com conversas leves. Tábata não se lembrava da última vez que tinha se sentindo tão confortável com outras pessoas. Pai e filho tinham uma sintonia única, um a relação especial e, naquele dia, ambos estavam empenhados em incluí-la nessa bolha familiar. Taby queria que essa bolha jamais estourasse.
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