Ao caminharem de volta para o Ford Ranger, cada um empurrando carrinhos carregados de plantas, Tábata notou a utilidade da escolha do veículo de Guilherme. Tinha estranhado a picape enorme desde que a viu. O Perez combinava mais com um conversível, em que a capota removível deixasse o vento acariciar amorosamente os fios longos do cabelo dele. Agora, vendo-o ajeitar os vários itens na caçamba, era óbvia a prioridade dele.
— A caçamba é perfeita para carregar as plantas — comentou admirada.
Ele sorriu de canto, arrumando as mudas de forma que não sofressem danos como exigindo por seu pai, que arrumava algumas sacolas nos bancos de passageiro.
— Escolhi pensando no meu pai. Ele sempre precisa de ajuda com essas coisas. Facilita para todo mundo.
A admiração de Taby por Guilherme só crescia. Ele não precisava estar ali, empurrando carrinhos em meio a plantas e enchendo o carro de suprimentos de jardinagem. Era um advogado de sucesso, podia muito bem pagar alguém para fazer aquele tipo de serviço. Mas ele optava em fazê-lo, ao ponto de até escolher um veículo que atendesse a necessidade do pai.
— Você é impressionante, Gui! — disse envolvida por um calor que se expandia a partir de seu coração. — Profissional, bom amigo, bom filho, tem algo em que é r**m? — questionou provocativa.
Guilherme ficou em silêncio por um momento, ponderando com um olhar pesado que a deixou desconfortável, temendo ter se excedido. Quando falou novamente, seu tom era sério, mas carregava um toque de afeto.
— Tento o meu melhor — ele disse voltando a se concentrar na arrumação da caçamba. — Meu pai se desdobrou na minha criação e nunca pediu muito de mim.
As palavras de Guilherme e a melancolia em sua voz fez Tábata se perguntar, de novo, o que tinha acontecido com a mãe dele. Não tendo tanta i********e para questionar, ajudou pai e filho com as compras.
Logo voltavam para a mansão Salvatore conversando sobre os planos para a festa de Natal, mesclado com fatos de anos anteriores.
A simplicidade e união entre pai e filho a impressionavam cada vez mais. Havia uma cumplicidade ali que ela nunca tinha experimentado em sua família, que não via nem mesmo entre sua mãe e os irmãos. Aquele calor, aquela sensação de pertencer era algo novo, mas que começava a preencher os espaços vazios dentro dela e a enchia de vontade de dar o mesmo a sua bebê.
~*~
Em respeito ao pedido feito por Mirela Salvatore, antes de partir Guilherme levou Tábata para a casa principal para se despedirem da mulher que financiou os estudos dele.
Ao entrar na sala principal, os olhos de Tábata brilharam fascinados. Anos trabalhando no antiquário da família, negociando peças todos os dias, lhe deram um profundo conhecimento que naquele momento explodiam eufóricos com cada detalhe desde que se aproximaram da mansão de arquitetura colonial.
Andando ao lado de Guilherme até a sala de estar, Tábata se segurava para não parar e admirar as peças no trajeto. Sentando em um elegante sofá, observava com os dedos formigando uma vitrine de cristal que exibe um conjunto de porcelanas do século XVIII.
— Essa casa é repleta de tesouros — comentou para Guilherme, sentado ao seu lado.
Acostumado com o ambiente, ele inclinou a cabeça sem entender ao que ela se referia, então ela explicou:
— Tem noção do valor daquele quadro? — perguntou ela, gesticulando em direção a uma pintura na frente deles. — É uma obra de algum pintor barroco[1] menor, mas olha os detalhes, a técnica de chiaroscuro[2]! Deve valer uma fortuna.
— Não sei muito sobre arte antiga, confesso.
Tábata sabia que ele não entendia como ela, mas isso não a impediu de continuar compartilhando sua empolgação.
— O quadro é só uma das relíquias — continuou, movendo o dedo em direção a um móvel do lado esquerdo deles. — Veja aquela cristaleira de mogno, provavelmente feita à mão no século XIX. O acabamento, os detalhes esculpidos nas bordas, são um testemunho da maestria dos artesãos da época. Sem falar no estado de conservação. É de uma beleza e valor imensuráveis.
Guilherme a observava, agora um pouco mais interessado.
— Você realmente entende dessas coisas, hein? — comentou ele, com um sorriso discreto, cruzando os braços e recostando-se casualmente. — Mas me diz, todo esse valor que você vê nessas peças, é só financeiro ou tem algo mais? — questionou, admirando a forma como o rosto dela brilhava ao falar daquelas peças que para ele eram só objetos antigos.
— Claro que o valor financeiro é impressionante, mas não é só isso — disse ela, mais suave agora, olhando ao redor da sala como se estivesse vendo além dos objetos. — Cada peça tem uma história, sabe? Já pertenceram a pessoas que viveram suas vidas em outras épocas, fizeram parte de vidas, famílias e culturas distintas a nossa atual. Elos do passado que guardam segredos que ninguém mais pode ouvir.
Guilherme a olhava com atenção, percebendo o quanto aquilo significava para ela.
— Fala dessas peças como se fossem vivas.
— Talvez, de certa forma, elas sejam — respondeu Tábata, com um sorriso quase enigmático. — Aprendi como minha avó paterna, que fundou o antiquário da nossa família que o valor real não está só no que as peças podem valer em dinheiro, mas nas histórias que elas guardam. É como um diálogo silencioso entre o passado e o presente. Essa casa é pura história — complementou.
Guilherme, mais prático e pouco familiar com esse tipo de assunto, observou o redor com novo interesse, mas sem a mesma paixão reluzindo nos olhos de Tábata.
— Bem, não sei quando foi construída, mas a propriedade é bem antiga, era uma fazenda de café, se não me engano, na era colonial. — Guilherme inspirou fundo, recordando fatos que ouviu a respeito do local. — Os apartamentos dos funcionários, por exemplo, era uma senzala[3], e minha família ocupa aquele lugar desde essa época...
— Essa parte da história não é tão bela — ela comentou instintivamente aconchegando a mão dele na sua.
— Não... Graças aos céus, e muita luta, passou. — Guilherme sorriu entrelaçando seus dedos aos dela. — Os Salvatore ajudaram a quebrar esse ciclo de sermos apenas mais uma antiguidade vinculada a essa propriedade ao financiar meus estudos e os das minhas primas.
— E foi o melhor investimento que fizemos — ouviram uma voz feminina anunciar.
Tábata corou quando os olhos escuros de Mirela Salvatore desceram para as mãos unidas e um sorriso repleto de significados encurvou a boca maquilada.
[1] Barroco, estilo de época surgido no final do século XVI, na Itália, caracterizado por forte influência religiosa, devido ao contexto histórico marcado pela Reforma Protestante e pela Contrarreforma. Ao lado da religiosidade, havia também um forte apelo aos prazeres sensoriais, configurando-se dessa formas na aproximação dos opostos.
[2] técnica do chiaroscuro, envolve o uso contrastante de luz e sombra, é uma das características mais marcantes da pintura barroca.
[3] Senzala, era um alojamento que encarceravam os trabalhadores escravizados entre os séculos XV e XIX.