" E no momento em que nosso destino se cruzou, eu soube que tudo mudaria".
ALGUM TEMPO DEPOIS...
REINO DE ÉBANO
Catarina
Finalmente o festival do vinho chegou, é um dos meus festivais favoritos. Há tanta coisa, comida, bebida e apresentações incríveis.
Durante um certo tempo esse festival era proibido, já que, antes de ser Ébano, éramos do Império Irvacrek e, segundo Ana, eles cultuavam deuses e esse festival era em homenagem a Baco. Depois da separação dos territórios e da conversão ao cristianismo, a igreja proibiu e, depois de um tempo, mudou o nome do festival e o colocou como um costume cristão. Não sei muito sobre isso, já que mamãe proíbe qualquer envolvimento muito aprofundado. Ela diz que nossa obrigação, como mulheres, é zelar por nossos maridos e filhos e entender dos afazeres domésticos e sempre obedecer ao marido.
O que me deixa aliviada é que não vou casar com nenhum nobre, então não preciso ficar me preocupando com o tipo de mulher que minha mãe quer que eu seja.
- Está pronta?- Ana pergunta, entrando no meu quarto.
- Sim, como estou?
- Maravilhosa, você fica linda de vermelho.
- Ótimo, agora preciso que dê um jeito de esconder esse outro vestido.
- Para que isso?
- Depois do discurso de papai, vou me misturar com meu povo e aproveitar o festival com eles. Ninguém vai sentir a minha falta, para minha família sou praticamente invisível.
- Catarina...
- Por favor Ana - ela respira fundo e estende a mão pegando o vestido azul bem simples que troquei com uma criada por um meu. – Obrigada.
Beijo sua bochecha.
- Agora vamos, só falta você.
- Certo.
Assim que desço as escadas já vejo minha mãe, papai e Joaquina a minha espera.
- Finalmente - minha mãe me analisa dos pés a cabeça. - Até que está apresentável.
- Obrigada - dou um meio sorriso.
- Vamos - meu pai sai impaciente.
Eles vão em uma carruagem e eu vou em outra, com a Ana.
- Percebeu que mamãe me elogiou?
- Ela disse que você estava apresentável menina, que tipo de elogio é esse?
- Para você pode parecer pouco, mas para mim vale muito.
- Você costuma ser forte e sempre impor sua opinião quando se trata de outras pessoas, mas essa sede de aprovação que tem quando se trata de sua família, uma hora pode ser sua ruína.
- Não fale besteiras, Ana - digo irritada.
O resto do trajeto é em silêncio até o local onde ocorrerá o festival.
****
Assim que chegamos, somos muito bem recepcionados pelas pessoas. A música e as risadas altas ecoam, barracas coloridas e com vários tipos de comidas estão montadas, desafios esportivos estão acontecendo e as crianças correm de um lado para o outro.
Fico perto da minha família até o discurso de meu pai. No momento que minha mãe começa a falar de Joaquina sem parar, peço a ajuda de Ana para trocar de roupa e me misturo com o povo.
Me aproximo de um grupo de crianças que dançam e fico os observando com um sorriso bobo no rosto, um dia espero ter muitos filhos.
- Quer dançar?- uma meninha loira puxa a minha mão, me levando para perto da roda e ,não me deixando responder, já que me empurram para o centro dela.
Começo a dançar em meio às palmas das crianças. Fecho os olhos, sentindo a música e acompanhando suas batidas, até que as risadas são substituídas por gritarias. Assim que abro os olhos, vejo boa parte das barracas pegando fogo. Há muitos homens de outro reino aqui. Olho para os lados e a maioria de nossos soldados nem se aguenta em pé, por conta da bebida, e eles não são muitos.
Fico em choque, parada, vendo tudo ser destruído e pessoas sendo mortas. Sou tirada dos meus devaneios quando sinto meu cabelo ser puxado com força e meu corpo se desequilibrar. Só não caio porque a pessoa ainda segura meu cabelo.
Levanto meus olhos e então eu o vejo, montado em seu cavalo, com uma armadura no corpo, seus cabelos claros reluzem ao sol, sua pele branca adquire um tom avermelhado e seus olhos são os mais azuis que já vi, há tanta frieza neles que a única coisa que consigo fazer é olhar com ódio, por tudo que está acontecendo.
Ele puxa meus cabelos com mais força ainda, olhando bem fundo nos meus olhos e é como se uma conexão estivesse sendo mantida entre nós, até que ouço um grito. Tento me soltar de suas mãos, mas ele aperta com mais força, me fazendo soltar um grito.
Uma raiva se apodera de mim, grudo em seu abraço e começo a puxá-lo com força, não me importando com a dor que está me causando. Ele se desequilibra de cima do cavalo e quase cai, por isso acaba saindo de cima do mesmo e soltando meus cabelos. Aproveito a deixa para tentar fugir, mas ele é mais rápido, agarrando meus cabelos novamente. Sem nem pensar duas vezes, cravo minhas unhas com força na mão do mesmo, que me solta no mesmo instante.
Corro sem conseguir pensar em nada. Mas a frente, escuto chamar meu nome e vejo que é Alfred. Vou em sua direção, mas antes de adentrar a mata que estava a minha frente, olho para trás e percebo que ele ainda me observa. Um frio percorre minha espinha e uma única certeza eu tenho, essa não seria a última vez que nos veríamos.
Henrique
Foram longos dias até chegar à Ébano, e digo isso pelas tempestades que enfrentamos. Mas quando finalmente coloquei meus pés aqui, senti a enorme diferença entre meu lar e esse lugar. O frio em Alvani é devastador, já aqui o sol dá o ar de sua graça muitas vezes, mesmo eu achando que a essa altura o inverno se fizesse presente, com força total.
Conseguimos ajuda de grupos que conspiram contra o rei Carlos. Eles não têm muita força quando se revoltam, já que a nobreza os silencia. Por isso vivem na floresta e estão nos ajudando. Já estamos há dias escondidos aqui, planejando cada movimento, e meus aliados sabem cada movimento que o rei irá praticar se houver uma invasão, mas o que ele não sabe é que meus homens se infiltraram em sua guarda pessoal. Suas estratégias já estão corrompidas e o castelo do norte, onde ele se esconde em situações assim, já é meu. Mas eu quero mais do que o seu território, quero ver em seus olhos o desespero, quero que ele veja o quanto sou poderoso.
E finalmente hoje será possível, depois de tanta espera. O Festival do Vinho marcará para sempre Ébano.
****
O Festival já acontece, as pessoas estão muito felizes e sorriem. Eu e meus homens observamos tudo atentos, para atacar no momento ideal e, depois de um longo tempo de espera, os soldados já estão bêbados e todos distraídos.
Dou o sinal e meus homens saem correndo e colocando fogo nas barracas. Monto em meu cavalo e vou em direção de onde está a família real. Mas algo me chama a atenção. Uma moça de vestido azul e cabelos enormes e castanhos está parada sem reação alguma sobre a cena que acontece ao seu redor. Alguma coisa me chama para ela, há algo naquela mera camponesa que me chama com força. Vou em sua direção sem que ela perceba e puxo seus cabelos. Seus olhos se encontram com os meus e neles não há medo, mas sim um ódio gigantesco. Sua beleza é algo nunca visto antes, uma mistura entre o selvagem e ao mesmo tempo delicado, sua pele morena e suada parece reluzir, seus cabelos castanhos são enormes e seus olhos são de um castanho tão escuro que me faz querer desvendar tudo que há neles.
Num momento de distração meu, ela me puxa com tanta força que acabo me desequilibrando e quase caindo do cavalo. A mesma aproveita para correr, mas sou mais rápido e a pego pelos cabelos novamente. Dessa vez ela finca suas unhas com força em minha mão e acabo a soltando, mas eu sei que a verei novamente, afinal de contas ela é minha presa e eu sou seu caçador.
- Meu rei - um dos meus soldados me chama, me tirando de meus devaneios.
- Sim?
- A Família real fugiu.
- Não se preocupe, meu caro. Eles estão em minhas mãos.
- Parece que o senhor conheceu a filha mais nova do rei – Walter, um dos meus informantes, diz, se aproximando.
- Qual o nome dela?
- Catarina - ele diz enquanto faz uma reverência.
- Catarina – repito. - Combina com ela.
Um sorriso involuntário se forma em meus lábios já que, em breve voltaremos a nos ver.