O vento balançava suavemente as cortinas do quarto quando Gabriella acordou naquela manhã. Não conseguira dormir bem desde o encontro estranho com a jovem de olhos iguais aos seus. A cena repetia-se em sua mente como uma obsessão.
Descendo para o café da manhã, encontrou o pai já sentado à cabeceira da mesa, lendo o jornal. Eloísa ainda dormia após uma festa beneficente, e Camilla não tinha sequer acordado. O ambiente estava mais silencioso do que o normal.
— Pai... — começou Gabriella, servindo-se de café. — Posso perguntar-lhe uma coisa?
Joaquim ergueu os olhos por sobre os óculos, sem largar o jornal.
— Claro, filha.
Ela respirou fundo.
— O senhor lembra... de quando eu nasci? Quero dizer, como foi.
Por um instante, Joaquim pareceu engasgar-se com o próprio silêncio. Dobrou lentamente o jornal, pousando-o sobre a mesa.
— Por que perguntas isso, Gabriella?
— Apenas curiosidade — tentou disfarçar, mexendo na colher. — Nunca ouvi histórias sobre o meu nascimento. Sobre como a mamãe se sentiu, se foi difícil... essas coisas.
O pai a observou em silêncio, como se procurasse as palavras certas.
— Foi... um tempo delicado — respondeu, vagamente. — A tua mãe estava... frágil. Mas o importante é que cresceste saudável, e és a nossa filha. Isso basta.
Gabriella forçou um sorriso, mas sentiu o coração afundar. A evasiva do pai confirmava suas suspeitas. Ele sabia mais do que dizia.
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Mais tarde, encontrou Vicente no jardim, regando as rosas com a calma habitual. Aproximou-se, fingindo interesse pelas flores.
— Elas são lindas... mas parecem sempre tristes — comentou.
O mordomo ergueu os olhos, fitando-a com serenidade.
— As rosas carregam beleza e espinhos, senhorita. Talvez por isso se pareçam tanto com as pessoas.
Gabriella mordeu o lábio, reunindo coragem.
— Vicente... o senhor já cuidou de mim desde pequena, não foi?
— Desde o teu primeiro dia nesta casa — respondeu ele, sem hesitar.
— Então... diga-me uma coisa. — A voz dela quase falhou. — Eu sou realmente filha de Eloísa?
O silêncio pesou no ar. Vicente segurou firme a mangueira, desviando o olhar.
— Por que perguntas isso, menina?
— Porque sinto que há algo errado! — explodiu, num sussurro quase desesperado. — Porque nunca fui amada como Camilla, porque meus olhos não são iguais aos de ninguém da família... e porque encontrei um documento, Vicente. Um documento que fala de uma criança criada como se fosse deles.
O mordomo fechou os olhos por um instante. Depois, desligou a água e aproximou-se dela.
— Senhorita, há coisas que não posso dizer. Mas se quer mesmo respostas, não as encontrará dentro destas paredes.
Gabriella estremeceu.
— Então onde?
Vicente hesitou, a sombra de um segredo pesando em sua expressão.
— Procure nos lugares onde a verdade foi enterrada. O passado deixa rastros, ainda que tentem apagá-los.
Ele virou-se e saiu, deixando-a com mais perguntas do que antes.
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Enquanto isso, na casa simples dos Albuquerque, Rosa Helena arrumava a mesa quando Luciana entrou, ansiosa.
— Rosa, pensei numa pessoa que pode nos ajudar.
— Quem? — perguntou a costureira, desconfiada.
— Padre Miguel. Ele conhece meio mundo nesta cidade, e sempre disse que os Portilha escondiam pecados atrás das paredes douradas.
Rosa mordeu o lábio. A ideia de expor sua dor a alguém de fora ainda a assustava.
— E se ele não acreditar?
— Ele vai acreditar — garantiu Luciana. — Ele sabe das injustiças. Talvez até saiba de documentos, de nomes... precisamos de aliados, Rosa. Sozinhas, não venceremos os Portilha.
Nesse instante, Dona Amália entrou, apoiando-se na bengala.
— A Luciana tem razão. Se quiseres a tua filha de volta, tens de começar por alguém que escute e não tenha medo deles.
Rosa respirou fundo. As palavras da mãe e da irmã a encorajavam. Já não podia viver só de memórias e recortes de jornal. Era hora de agir.
— Está bem. Amanhã vou falar com o padre.
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Naquela noite, enquanto Gabriella escrevia no diário: “Vicente confirmou sem dizer. A verdade não está nesta casa. Preciso procurar fora”, Rosa Helena, em outra parte da cidade, fechava os olhos em oração:
— Senhor, dai-me coragem. Amanhã darei o primeiro passo para trazer minha filha de volta.
Duas mulheres, duas vidas, unidas pelo mesmo destino, ainda sem saber que seus caminhos estavam prestes a cruzar-se de forma irreversível.
✨ Neste capítulo temos:
Gabriella começa a interrogar o pai e percebe as evasivas.
O diálogo tenso com Vicente, que lhe dá a primeira pista enigmática.
Rosa Helena decide procurar Padre Miguel, estabelecendo o primeiro aliado que pode confrontar os Portilha.
Ambas se aproximam, cada uma a seu modo, da verdade.
Capítulo 7 – Entre Luzes e Sombras
A mansão Portilha fervilhava de preparativos. Corredores cheios de flores, garçons apressados, decoradores ajeitando cada detalhe - tudo precisava estar perfeito para o aniversário de Camilla. Eloísa supervisionava tudo com mão de ferro, como se a festa fosse mais uma oportunidade de reafirmar o prestígio da família.
Gabriella observava de longe, sentada numa poltrona do salão, folheando distraidamente um livro. Desde pequena, aprendera que os aniversários eram palcos exclusivos de Camilla. Para a mãe, Gabriella nunca passava de uma sombra elegante a ser exibida, mas nunca celebrada.
Camilla desceu as escadas como uma estrela. O vestido branco justo realçava a juventude e a autoconfiança.
- Gabi, como estou? - perguntou, girando diante da irmã, embora a pergunta fosse apenas um pretexto para ouvir elogios.
- Está bonita - respondeu Gabriella, serena.
- Bonita? - Camilla arqueou a sobrancelha, fingindo indignação. - Estou deslumbrante. E, ah, não esquece: hoje é o meu dia. Nem tenta ofuscar-me, entendido?
Gabriella apenas sorriu. Mas no fundo, algo dentro dela começava a mudar. Já não estava disposta a ser humilhada em silêncio.
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À noite, o salão da mansão encheu-se de convidados. Música alta, gargalhadas, flashes de fotógrafos sociais. Camilla circulava como uma rainha coroada, recebendo cumprimentos. Eloísa a acompanhava de perto, orgulhosa. Joaquim, como sempre, mantinha-se discreto em conversas de negócios.
Gabriella tentava passar despercebida, até que seus olhos encontraram um desconhecido entre os convidados. Alto, de traços marcantes, olhar intenso. Conversava com um grupo de jovens advogados, mas, quando seus olhos cruzaram os de Gabriella, algo a atravessou como uma descarga elétrica.
Clara, que estava ao lado dela, murmurou:
- Viste? Ele não tirou os olhos de ti.
Gabriella sentiu o coração acelerar. Era raro sentir-se notada em meio àquele mundo artificial.
Pouco depois, o rapaz aproximou-se, apresentando-se com um sorriso seguro.
- Leonardo Monteiro. Um prazer conhecê-la.
- Gabriella Portilha - respondeu, tentando soar natural, embora sua voz denunciasse o nervosismo.
O diálogo fluía leve, cheio de risos discretos. Mas a cena não passou despercebida por Camilla, que logo se aproximou, interrompendo com naturalidade ensaiada.
- Ah, vejo que já conheceu a minha irmã - disse, pousando a mão no braço de Leonardo. - Mas não se engane: a estrela da noite sou eu.
Leonardo sorriu educadamente, mas Gabriella percebeu o desconforto. Camilla não apenas se insinuava; tentava apagá-la como sempre.
Gabriella respirou fundo. Sentiu a velha raiva que sempre sufocara crescer dentro de si. Mas, desta vez, não se calaria.
- Camilla - disse, em tom firme, olhando-a nos olhos - esta é a tua festa, sim. Mas não é preciso roubar o brilho dos outros para sentir-se importante.
O silêncio ao redor foi imediato. Alguns convidados próximos ouviram a frase, e o rosto de Camilla endureceu.
- Estás a insinuar o quê, Gabriella? - a voz dela soava venenosa.
Gabriella deu um passo à frente, o olhar firme, intimidando a irmã pela primeira vez.
- Estou a dizer que não tenho medo de ti. Nem hoje, nem nunca mais.
Leonardo observava em silêncio, admirado pela coragem dela. Camilla, pela primeira vez, não encontrou resposta. Limitou-se a virar as costas, tentando recuperar o controle da festa.
Gabriella sentiu uma estranha libertação. Olhou para Leonardo, que lhe sorriu, como se tivesse acabado de testemunhar não apenas um gesto, mas uma revolução.
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Enquanto isso, longe dali, Rosa Helena entrava na pequena sacristia da igreja. O ambiente era simples, iluminado por velas. Padre Miguel a recebeu com expressão serena, mas os olhos revelavam que já sabia o peso daquela visita.
- Minha filha, finalmente vieste. Há muito tempo espero que tivesses coragem de falar.
Rosa hesitou, mas abriu a caixa com os recortes de jornal.
- Esta é minha filha. Roubaram-na de mim há vinte anos. Quero a verdade de volta.
O padre suspirou, passando a mão pela barba grisalha.
- Sempre soube que os Portilha guardavam um segredo. Ouvi rumores... uma criança entregue, um acordo escandaloso abafado com dinheiro. Nunca tive provas.
- Então ajuda-me - pediu Rosa, quase em lágrimas. - Preciso que Gabriella saiba quem é.
Padre Miguel assentiu lentamente.
- Não será fácil. Eles são poderosos, e a mentira é a muralha que os protege. Mas eu ficarei do teu lado. A verdade merece ver a luz.
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Na mansão, enquanto a música ecoava e Camilla tentava recuperar o brilho roubado, Gabriella e Leonardo conversavam num canto reservado. Ela sentia-se viva como nunca, como se finalmente tivesse encontrado alguém que a via além da máscara de herdeira.
E, pela primeira vez, Gabriella percebeu que não estava apenas atrás da verdade sobre o passado. Também começava a descobrir quem queria ser no futuro.
✨ Neste capítulo temos:
A festa de Camilla, marcada pela ostentação.
A entrada de Leonardo, o futuro amor de Gabriella.
O primeiro confronto direto entre Gabriella e Camilla - e Gabriella vence, intimidando a irmã.
Em paralelo, Rosa encontra Padre Miguel, que confirma os rumores e se torna seu aliado.