As cortinas de seda deixavam entrar um feixe de sol dourado, refletindo-se nos móveis caros e nos detalhes de mármore do quarto de Gabriella. A jovem ainda segurava o diário fechado no colo quando ouviu as batidas suaves à porta.
— Mana, posso entrar? — a voz de Camilla soou, doce como mel, mas sempre carregada daquela autoconfiança que feria Gabriella como pequenas lâminas.
Antes que pudesse responder, a irmã já tinha entrado, espalhando o perfume caro pelo ar. Trazia um celular novo na mão e um sorriso de quem sabia que era a preferida.
— Adivinha só? Mamãe disse que vai deixar eu viajar com as meninas para Ibiza no próximo mês. Você vem, não é?
Gabriella respirou fundo.
— Não sei ainda, Camilla. Tenho compromissos aqui.
— Ah, por favor! — a loira girou em frente ao espelho, ajeitando o cabelo. — Qualquer compromisso pode esperar. Além disso, você vive sempre séria, sempre tão... entediada. Precisa aproveitar a vida, como eu.
O sorriso presunçoso de Camilla foi interrompido pela voz firme de Eloísa, que surgiu no corredor.
— Camilla, não atrapalhes a tua irmã. Gabriella tem responsabilidades.
Por um instante, Gabriella sentiu surpresa. A mãe nunca a defendia. Mas a sensação logo se desfez quando Eloísa, sem sequer olhar para ela, acrescentou:
— Não podemos permitir que fiques m*l vista, Camilla. Precisas escolher melhor as tuas companhias.
Eloísa fechou a porta, deixando Gabriella invisível outra vez.
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Horas depois, Gabriella encontrava-se no café elegante de um clube social, rodeada pelos amigos habituais. Beatriz, sempre efusiva, contava sobre seu novo namorado; Luís Otávio, herdeiro como ela, falava de investimentos em criptomoedas; e Clara, a mais sensível do grupo, olhava para Gabriella com atenção.
— Você está estranha, Gabi — comentou Clara. — Parece... distante.
Gabriella sorriu, tentando disfarçar.
— Só um pouco cansada.
Mas Clara não se convenceu.
— Você sabe que pode confiar em mim, não sabe?
Gabriella hesitou. Por um momento, pensou em falar sobre o envelope, sobre as dúvidas que a consumiam. Mas o peso do segredo era grande demais.
— Claro que sei — respondeu, desviando o olhar.
Enquanto os amigos riam de alguma piada de Beatriz, Gabriella sentia-se cada vez mais deslocada. O mundo que a cercava era feito de conversas superficiais, viagens luxuosas e risos fáceis. Mas dentro dela crescia a certeza de que sua vida era uma encenação, uma peça de teatro escrita por mãos que não eram as suas.
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Na mesma tarde, em outro bairro da cidade, Rosa Helena fechava a loja mais cedo do que de costume. Estava nervosa, mas decidida. Carregava nas mãos uma pequena caixa de madeira — a mesma que guardava os recortes de jornal.
Sentou-se diante da mesa da cozinha, onde a mãe, Dona Amália, costurava calmamente um lenço.
— Mãe... acho que chegou a hora.
Amália ergueu os olhos, cansados, mas atentos.
— Hora de quê, minha filha?
— De procurar Gabriella. Não aguento mais viver apenas de lembranças.
A avó pousou a agulha, respirando fundo.
— Tens certeza? Se mexeres nesse passado, vais mexer com gente poderosa. Eles não vão aceitar fácil.
— Eu já paguei caro demais pelo silêncio deles — murmurou Rosa. — Agora é a vez deles enfrentarem a verdade.
Nesse instante, Luciana entrou, trazendo uma pasta simples nas mãos.
— Falei com uma amiga que trabalha no cartório. Consegui isto. — Estendeu a pasta à irmã. — É a certidão de nascimento de Gabriella. Pode ser o começo.
Rosa pegou o documento com as mãos trêmulas. As lágrimas lhe escorreram ao ler o nome que tantas vezes repetira em silêncio: Maria Gabriella Portilha. Mas os olhos dela pararam no detalhe que confirmava sua dor: o nome da mãe registrado era Eloísa Portilha.
— Eles apagaram-me da história dela... — sussurrou, quase sem voz.
Amália segurou a mão da filha com firmeza.
— Então escreve de novo essa história, Rosa. E traz a tua filha de volta.
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À noite, Gabriella regressava à mansão após mais uma reunião social que nada lhe dizia. Enquanto subia as escadas, ouviu risos vindos da sala. Espiou discretamente e viu o pai, Joaquim, rindo com Camilla e Eloísa, todos reunidos num raro momento de aparente harmonia.
O peito de Gabriella apertou. Ela nunca fazia parte dessas cenas. Nunca era chamada para a roda. Era como se a casa inteira tivesse sido construída para todos, menos para ela.
Entrou no quarto, fechou-se, e diante do espelho murmurou:
— Quem sou eu de verdade?
No mesmo instante, em sua casa simples, Rosa Helena acariciava o documento falso que lhe negava a maternidade. O coração dela, no entanto, gritava com a mesma pergunta:
— Quando a minha filha vai saber quem realmente é?
✨ Neste capítulo temos:
Gabriella em sua vida social: amigos, festas, mas sentindo-se deslocada.
O convívio com a família Portilha: tensões com Camilla, invisibilidade diante da mãe.
O espelhamento com Rosa: ela dá o primeiro passo concreto, conseguindo a certidão de nascimento adulterada.
Ambas, mãe e filha, terminam a cena com a mesma pergunta: “Quem sou eu de verdade?”
📖 Capítulo 5 – O Reflexo Desconhecido
A tarde estava ensolarada, e o jardim do Museu de Arte Contemporânea fervilhava de visitantes elegantes. Era sábado, e uma nova exposição atraía os jovens da elite. Gabriella caminhava ao lado de Clara e Beatriz, ambas animadas com a ideia de posar para fotos diante das obras mais comentadas.
— Você precisa sorrir mais nas fotos, Gabi — comentou Beatriz, ajeitando o cabelo loiro platinado. — Tem olhos incríveis, mas sempre parece tão... séria.
Gabriella respondeu com um sorriso breve. Séria era a palavra que a descrevia em quase todos os círculos. Mas, naquele dia, sentia-se ainda mais distante da frivolidade que a rodeava.
Enquanto subiam a escadaria do museu, Clara parou de repente. Os olhos dela se fixaram em uma mulher que atravessava o jardim no sentido oposto.
Era Luciana. Vestia roupas simples, mas ajeitadas, carregava uma pasta de couro e parecia apressada. Havia algo no modo como o vento bagunçava seus cabelos castanhos-claros, revelando mechas douradas sob o sol.
Clara arregalou os olhos e puxou o braço de Gabriella.
— Gabi... olha! Aquela moça ali... é impressionante!
— O quê? — Gabriella seguiu o olhar da amiga.
Luciana parou por um instante para verificar um bilhete no celular. O perfil ficou exposto, e os olhos dela — grandes, azuis e intensos — encontraram-se, ainda que brevemente, com os de Gabriella.
O mundo pareceu prender a respiração. Era como se um espelho tivesse se erguido entre elas. Mesma intensidade no olhar. Mesma cor rara, impossível de não notar.
Luciana desviou rapidamente e continuou a andar, desaparecendo entre os visitantes.
— Você viu? — Clara quase sussurrou, fascinada. — Os olhos dela... são iguais aos seus!
Gabriella ficou imóvel.
— Iguais...?
— Iguais! — insistiu a amiga. — E até o jeito de andar, Gabi. Sério, parecia... parecia tua irmã gêmea.
Beatriz riu, sem dar importância.
— Ah, Clara, por favor! Você vê semelhança em todo mundo. Além disso, só existe uma irmã da Gabi, e é a Camilla.
Mas Clara não tirava os olhos da direção em que Luciana desaparecera.
— Não... havia algo diferente. Como se fosse... família.
Gabriella tentou rir, mas o comentário ficou martelando dentro dela. Família. Semelhança. Olhos iguais.
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Do outro lado da rua, Luciana apressava o passo, o coração acelerado. Tinha reconhecido imediatamente quem era a jovem de vestido azul-claro no topo da escadaria: Maria Gabriella Portilha. Não precisava de apresentações; já tinha visto seu rosto dezenas de vezes nos jornais que a irmã Rosa colecionava.
Por um instante, o desejo de correr até ela quase a dominou. De dizer a verdade, de revelar tudo. Mas conteve-se. Não era o momento. Rosa ainda não estava pronta.
Parou na esquina e encostou-se a um poste, tentando recuperar o fôlego. A imagem dos olhos de Gabriella não saía da sua mente.
— Meu Deus... é como se fosse Rosa outra vez... — murmurou.
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Naquela noite, deitada em sua cama, Gabriella recordava cada detalhe do encontro breve. O vento nos cabelos de Luciana. A firmeza no olhar. A sensação estranha de que, por um segundo, tinha visto a si mesma de fora.
Abriu o diário e escreveu:
"Hoje vi alguém que parecia... parte de mim. Não sei explicar. Clara disse que nossos olhos eram iguais. Será coincidência? Ou será mais uma peça desse enigma que começa a me sufocar?"
Fechou o diário, mas não conseguiu dormir. Pela primeira vez, a dúvida não vinha de um documento escondido ou da frieza da mãe. Vinha da rua. Da vida real. Do reflexo inesperado de alguém que carregava os mesmos olhos que ela.
E em algum ponto da cidade, Rosa Helena acariciava os recortes de jornal, sem imaginar que, naquele mesmo dia, sua irmã Luciana já havia cruzado o caminho da filha que ela tanto esperava reencontrar.
Neste capítulo temos:
O primeiro cruzamento indireto entre os dois mundos (Gabriella e Luciana).
A percepção da semelhança destacada por Clara, deixando Gabriella intrigada.
O impacto emocional tanto em Gabriella (sentindo algo inexplicável) quanto em Luciana (quase revelando tudo).
O destino começa a empurrar mãe e filha na direção uma da outra.