O amanhecer trouxe consigo um céu enevoado, tingido de cinza, como se a própria natureza refletisse o peso que Gabriella carregava no peito desde a noite anterior. m*l pregara os olhos. Cada vez que fechava as pálpebras, a frase da carta surgia como uma sentença gravada a ferro: “A criança será criada como vossa.”
Levantou-se devagar, ignorando o chamado da criada que lhe trazia o café ao quarto. Precisava de silêncio. Precisava pensar. Caminhou até a janela ampla que dava para os jardins. Ali, entre as árvores meticulosamente podadas, tudo parecia imóvel, artificial — como se até a natureza fosse obrigada a seguir o padrão de perfeição que a mãe tanto exigia.
Gabriella sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. E se aquela criança fosse ela?
Sacudiu a cabeça, tentando afastar a ideia. Talvez fosse apenas uma paranoia. Talvez o documento fosse sobre outra situação, algum acordo de negócios, uma formalidade qualquer. Mas o ano... o ano do seu nascimento. A letra “E.”. O silêncio comprado. Nada lhe parecia casual.
Desceu as escadas em busca de respostas, mas encontrou apenas o eco dos próprios passos. A mansão Portilha, de manhã, era um lugar quase sepulcral. A mãe já havia saído para o clube social; Camilla ainda dormia depois da noite de festejos; e o pai trancara-se no escritório, como sempre.
Ao atravessar o corredor, deparou-se com Vicente, o mordomo. Ele ajeitava discretamente um arranjo de flores na mesa do hall. Parou ao vê-la, inclinando levemente a cabeça.
— Senhorita Gabriella, não descansou bem?
Ela hesitou, como se a pergunta carregasse mais do que parecia. O olhar dele — firme, mas cheio de algo quase paternal — a incomodava e, ao mesmo tempo, a convidava.
— Não... não muito — respondeu. — Vicente... posso perguntar-lhe uma coisa?
O homem endireitou-se, apoiando as mãos atrás das costas.
— Claro, senhorita.
Gabriella molhou os lábios, nervosa. O instinto dizia-lhe que Vicente era diferente dos outros empregados; que guardava memórias escondidas nos olhos cansados.
— O senhor estava aqui... quando eu nasci, não estava?
O silêncio caiu entre eles como uma lâmina. O mordomo piscou lentamente, e por um segundo pareceu hesitar.
— Estava, sim — respondeu, por fim, a voz grave. — Conheço esta casa há mais tempo do que muitos que nela vivem.
— Então... lembra-se de como foi? — insistiu, tentando soar casual, mas sua voz tremia. — Quero dizer... daquele tempo.
Vicente desviou o olhar para o arranjo de flores, como se buscasse ali a coragem que lhe faltava.
— Lembro-me de que foi... um tempo delicado — disse, pausadamente. — A senhora sua mãe... não estava em boas condições naqueles dias.
Gabriella sentiu o coração acelerar.
— Minha mãe? Eloísa?
Vicente fixou nela os olhos, profundos e cansados. Por um instante pareceu querer dizer algo mais, mas conteve-se.
— Perdoe-me, senhorita. Não cabe a mim falar do que não me pertence.
As palavras foram ditas com educação, mas o subtexto era claro: ele sabia de algo. E decidira não revelar.
Gabriella assentiu, forçando um sorriso.
— Eu entendo.
Mas, enquanto subia novamente as escadas, pensava: Ele sabe. Ele estava lá. E guarda a chave.
No quarto, abriu seu diário de capa azul — o único lugar onde ousava ser sincera. Escreveu apressadamente:
"Há algo no passado que todos escondem. Vicente sabe. A carta não deixa dúvidas: houve um acordo. Se eu não descobrir, nunca saberei quem realmente sou."
Fechou o diário e o escondeu no fundo da gaveta. Pela primeira vez, sentiu que a vida estava prestes a mudar. O que até então era apenas uma suspeita tornava-se uma missão.
E, longe dali, no quarto de hóspedes onde guardava suas coisas pessoais, Vicente permanecia de pé, imóvel, olhando uma fotografia antiga que mantinha escondida dentro de um livro de missas. Na imagem desbotada, uma mulher jovem, de traços delicados, segurava um bebê recém-nascido nos braços. A expressão no rosto da mãe era de amor absoluto — e de despedida.
Vicente suspirou, fechando os olhos.
— Perdoe-me, menina Gabriella — murmurou para si mesmo. — Mas ainda não chegou a hora de saber.
✨ Neste capítulo temos:
Gabriella começa a internalizar a dúvida e conecta o documento ao próprio nascimento.
O primeiro diálogo revelador com Vicente, insinuando que ele sabe mais do que mostra.
A confirmação ao leitor (mas não a Gabriella) de que existe, sim, uma mãe biológica com ligação ao passado.
Capítulo 3 – A Outra Vida
O sol já se punha quando Rosa Helena de Albuquerque fechou a pequena loja de costura onde trabalhava desde a juventude. Suas mãos, marcadas por agulhas e linhas, descansaram sobre o balcão de madeira já gasto pelo tempo. O dia tinha sido longo, como quase todos, mas ainda lhe restava a rotina de arrumar tecidos e recolher moldes antes de regressar para casa.
Rosa vivia de trabalho árduo e dignidade. Nunca se casara oficialmente; os poucos homens que surgiram em sua vida não resistiram ao peso invisível que ela carregava. Mas, apesar da aparência serena, havia nela uma tristeza profunda, cravada desde os vinte anos de idade: a filha que fora obrigada a entregar.
Enquanto recolhia um rolo de renda, seus olhos caíram sobre uma caixa de madeira guardada no alto da estante. Dentro dela, havia recortes de jornais antigos: colunas sociais com fotografias da família Portilha em bailes e eventos de gala. Rosa observava sempre a mesma figura — uma jovem de olhos azuis intensos, tão familiares, tão dolorosamente seus. Maria Gabriella. Sua filha.
— Estás outra vez a sonhar, mana? — a voz firme de Antônio, o irmão mais velho, que acabava de entrar, trouxe-a de volta à realidade.
— Não é sonho, Antônio — respondeu, num suspiro. — É saudade.
Ele aproximou-se e pousou a mão no ombro da irmã.
— Saudade de quem nunca te pertenceu. Não te faças mais m*l com isso.
Rosa ergueu os olhos, feridos.
— Pertenceu-me, sim. Nasceu de mim. E foi arrancada dos meus braços antes que eu pudesse dar-lhe um beijo.
Antônio fechou o rosto. O ódio que nutria pelos Portilha queimava-lhe o sangue.
— Eles roubaram-te, Rosa. Roubaram-nos a todos. E o pior é que continuam lá, a viver como reis, como se nada tivesse acontecido.
Antes que a discussão se prolongasse, a campainha da porta soou. Luciana, a irmã mais nova, entrou sorridente, trazendo consigo uma sacola com pão fresco.
— Boa tarde! Trouxe o jantar.
Luciana tinha uma doçura que contrastava com a dureza de Antônio e a amargura de Rosa. Era conciliadora, sempre acreditando que o amor ainda podia curar feridas antigas. Ao ver os recortes de jornal sobre o balcão, suspirou.
— Ainda olhas para isso, Rosa?
— Não consigo evitar — murmurou. — Cada vez que vejo aqueles olhos... são os meus.
Luciana pousou a sacola e tomou as mãos da irmã.
— Um dia ela vai saber, Rosa. A verdade sempre encontra caminho.
Nesse instante, a porta rangeu novamente. Uma voz trêmula, mas carregada de firmeza, ecoou pelo espaço:
— Que verdade?
Era Dona Amália, a matriarca. A idade dobrara-lhe o corpo, mas não lhe quebrara o espírito. Usava um xale escuro sobre os ombros e apoiava-se na bengala, os olhos marejados. Aproximou-se do balcão e, sem pedir permissão, pegou os recortes de jornal.
— Ela está tão crescida... tão bonita — disse, quase num sussurro. — Minha neta... minha primeira neta, e eu nunca a abracei.
As três gerações da família Albuquerque permaneceram em silêncio por alguns segundos, cada uma mergulhada em suas próprias dores. Até que Antônio, impaciente, ergueu a voz:
— E nunca vais abraçá-la, mãe. Não vês? Eles compraram o silêncio. Compraram a vergonha. Gabriella pertence a eles, não a nós.
— Não digas isso! — interrompeu Rosa, lágrimas brotando nos olhos. — Pertence a mim, pertence a nós! Um papel pode dizer o contrário, mas o sangue... o sangue é meu!
Amália aproximou-se da filha, acariciando-lhe o rosto.
— Um dia ela virá, Rosa. Um dia a mentira não aguentará mais. E quando isso acontecer, estarei pronta para recebê-la.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som de um relógio antigo marcando as horas. Rosa voltou a guardar os recortes na caixa, como quem devolve um pedaço do coração ao esconderijo. Mas, antes de fechar a tampa, permitiu-se um último olhar à fotografia de Gabriella sorrindo em um baile.
— Espera por mim, minha filha — murmurou, com a voz embargada. — Eu ainda vou encontrar-te.
✨ Neste capítulo temos:
A introdução da família Albuquerque, com Rosa (a mãe biológica), Antônio (o irmão protetor), Luciana (a conciliadora) e Dona Amália (a avó ansiosa).
O contraste entre a vida simples, marcada pela saudade, e o luxo da família Portilha.
A confirmação de que Gabriella é mesmo filha de Rosa, mas também a dor de nunca tê-la conhecido.
O prenúncio de que a verdade está prestes a atravessar o caminho de todos.