Capítulo 1 – A Herdeira Silenciosa

1033 Palavras
Os lustres de cristal refletiam uma chuva de luz sobre o salão dourado, onde a música de um quarteto de cordas se confundia com o tilintar de taças de champanhe. Homens engravatados conversavam em voz baixa sobre negócios que pareciam conspiratórios; senhoras em vestidos cintilantes competiam em sorrisos ensaiados, exibindo diamantes como troféus de uma guerra silenciosa. Tudo ali transpirava poder. Tudo parecia perfeito. No centro daquela cena, como uma pintura viva, estava Maria Gabriella Portilha. Vestia seda azul-marinho que realçava seus olhos — olhos que sempre despertavam comentários curiosos, porque destoavam do loiro predominante da família. Andava entre os convidados com passos elegantes, cumprimentando cortesmente quem a abordava. O sorriso estava no lugar, mas dentro dela havia apenas silêncio. Para muitos, ela era a “princesa Portilha”, herdeira de uma fortuna invejável, o reflexo da disciplina e da grandeza da família. Para si mesma, era apenas uma peça num tabuleiro que desconhecia. Desde pequena aprendera que seu papel era existir para reforçar a imagem de perfeição da linhagem. Ser bonita, recatada, obediente. Nunca contrariar. Nunca perguntar demais. Enquanto se esforçava para manter a postura naquela noite, seus olhos buscaram instintivamente o olhar da mãe. Eloísa Portilha estava radiante, como sempre. Vestia um vestido prateado, ajustado ao corpo, com joias reluzindo sob a luz do lustre. Falava com um grupo de senhoras influentes, gesticulando com elegância, como se fosse a anfitriã perfeita. Mas quando os olhos de Gabriella cruzaram com os dela, nada se revelou. Nenhum aceno, nenhum sorriso, sequer um olhar de orgulho. Apenas a frieza cortante de sempre. Poucos metros adiante, Camilla, sua irmã mais nova, girava no salão como uma estrela. Loira, carismática, todos os convidados pareciam encantados pela sua vivacidade. Eloísa, claro, acompanhava cada gesto da filha com um brilho de orgulho no olhar. Gabriella observava essa cena com a mesma sensação que a perseguia desde criança: a de ser invisível. Uma lembrança antiga lhe atravessou a mente, tão viva que quase apagava o burburinho do salão. Tinha seis anos quando participou da primeira festa importante. Vestira um vestido rosa de tule, ansiosa para mostrar à mãe como parecia uma boneca. Caminhara até ela no meio dos convidados, buscando aprovação. Mas Eloísa apenas ajeitara a tiara de Camilla, então com apenas dois anos, e dissera em voz alta: — Vejam como a minha menina é perfeita! Gabriella nunca esqueceu. A frase colara-se à sua pele como uma cicatriz invisível. De volta ao presente, sentiu a garganta apertar. Precisava de ar. Com delicadeza, afastou-se do salão, atravessando um corredor de espelhos que duplicava sua figura até o infinito. Abriu discretamente a porta do jardim e deixou-se envolver pela brisa da noite. Ali, entre rosas cuidadosamente podadas, Gabriella permitiu-se soltar o ar preso. A lua iluminava o lago artificial, e o reflexo da mansão parecia uma miragem frágil prestes a desmoronar. Tocou o colar de pérolas no pescoço, presente do pai, e sentiu a estranha dualidade que sempre a acompanhava: tanto luxo, tanta beleza... e tanto vazio. — Senhorita Gabriella? — uma voz grave soou às suas costas. Era Vicente, o mordomo da casa, um homem já de idade, de semblante sereno. — Está tudo bem — respondeu ela, com um sorriso que não enganava ninguém. Ele hesitou, como se quisesse dizer mais, mas limitou-se a inclinar a cabeça e retornar ao salão. Vicente era assim: discreto demais para ser apenas um empregado, leal demais para ser indiferente. Gabriella sempre suspeitara que ele sabia mais do que revelava. Encostou-se à balaustrada de pedra, observando a noite. As perguntas que carregava em silêncio voltaram a latejar. Por que sua mãe nunca a amara? Por que se sentia tão diferente da irmã? Por que, apesar de todos os sorrisos públicos, sua família parecia um teatro vazio? Ao entrar novamente, horas depois, o salão já estava mais silencioso. Os convidados se despediam, e Eloísa acompanhava-os com a graciosidade de uma rainha. Camilla gargalhava com amigas, e Joaquim Portilha, o pai, conversava ao telefone num canto, o semblante tenso. Subindo as escadas em direção ao quarto, Gabriella cruzou com uma porta semiaberta — o escritório do pai. Algo a fez parar. Uma pasta de couro descansava sobre a mesa, como se tivesse sido deixada às pressas. O coração acelerou. Não era costume o escritório estar desarrumado. Avançou lentamente, tomada por um impulso inexplicável. A pasta estava entreaberta, e dentro dela viu papéis antigos, amarelados pelo tempo. O que chamou sua atenção foi um envelope, fechado, mas com uma inscrição no canto: “E., 2002”. E. Eloísa. O ano do seu nascimento. Com mãos trêmulas, pegou o envelope. Estava lacrado, mas uma pequena fissura no canto deixava escapar parte do conteúdo. Forçando delicadamente, retirou uma folha dobrada. Os olhos correram pelas linhas escritas em máquina de datilografia: "O acordo está firmado. A criança será criada como vossa. O pagamento deverá ser feito em parcelas até que o assunto esteja encerrado. O silêncio é o preço da preservação." O coração de Gabriella disparou. Sentiu as paredes do escritório fechar-se sobre ela. A criança. O pagamento. O silêncio. Guardou o papel de volta no envelope, rapidamente, quando ouviu passos no corredor. A porta rangeu, e o pai surgiu, surpreso ao vê-la ali. — Gabriella? — a voz dele misturava espanto e preocupação. — O que está a fazer aqui? Ela ergueu o rosto, tentando disfarçar o turbilhão em que se encontrava. — Nada... só passei para desejar-lhe boa noite. O olhar de Joaquim pousou na pasta aberta. Por um instante, pareceu pálido, quase atordoado. Mas em seguida recompôs-se, como sempre fazia. — Boa noite, filha — disse com doçura forçada, fechando a pasta diante dela. Gabriella subiu para o quarto com passos automáticos. Quando fechou a porta, encostou-se contra ela, ofegante. Olhou o próprio reflexo no espelho: olhos azuis cintilando como lâminas, rosto pálido, expressão perdida. Naquela noite, pela primeira vez, soube que o vazio que a acompanhara desde a infância tinha um nome: mentira. ✨ Neste capítulo, temos: A apresentação do mundo luxuoso e vazio dos Portilha. A frieza materna e a preferência por Camilla. O mordomo como figura silenciosa que sabe mais. O achado inicial do envelope misterioso, plantando o enigma central.
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