Honda:
Eu ainda me lembrava exatamente do dia em que o Steven trouxe aquela garota para casa.
Seus olhos grandes pareciam assustados.
Ela só tinha sete anos e já havia perdido a mãe tão cedo.
Eu sabia que ela não tinha culpa de ser filha bastarda do Steven, mas olhar para ela ainda me deixava desconfortável, porque ela era a cara da mãe dela.
Mas, eu cuidei dela. Dei um teto, deixei que ela convivesse com a minha Mallena e ainda dei uma boa educação a ela.
O mínimo que ela poderia fazer por todos nós era se casar com o Silas e garantir que empresa dele apoiasse a nossa.
Agora que ela estava casada com ele não precisariamos mais nos preocupar com ela. Foi o que eu pensei.
— Como ela caiu da escada? — perguntei incrédula — Ela está bem?
— Eu não sei! — Steven contou enquanto seguiamos para o hospital — A governanta do Silas disse que ela está na sala de emergência agora.
— E se não resistir? — perguntei preocupada — E se a sua filha morrer?
— Ela não teria coragem de fazer isso comigo! — ele resmungou franzindo o cenho — Não tem um momento como esse em que estou tão perto de fazer da Langford um império.
Silas:
— Silas, filho! — meu pai disse preocupado ao chegar no hospital — Como está a sua esposa?
— Ainda não sabemos, ela ainda está na sala de cirurgia! — contei.
— Como isso foi acontecer apenas um dia depois de se casarem? — ele questionou.
— Provavelmente ela tropeçou no tapete ou em algum degrau da escada, a Judith só viu quando ela já estava rolando escadaria abaixo! — falei — Ela não parecia bem e estava sangrando muito. E se ela não resistir?
— Não diga algo assim, filho! — ele deu um tapinha em meu ombro — Poxa vida, que garota sem sorte!
Eu havia sido bem grosseiro com ela antes dela se acidentar e isso fazia com que eu me sentisse um pouco culpado.
Talvez ela tivesse ficado abalada com a forma como eu falei com ela e por isso não tivesse sido cuidadosa o suficiente e acabou tropeçando.
Ela certamente era uma filha amada e mimada pelo pai, que, mesmo que não a reconhecesse para o público, com certeza nunca havia gritado com ela. Então, por que eu tive que perder a paciência tão rapidamente e por algo tão pequeno?
Demorou quase uma hora até que Steven e Honda Langford chegassem, mas eles não pareciam tão preocupados assim com a filha.
Mesmo que ela fosse a filha bastarda de Steven Langford com uma amante de caráter duvidoso, não era o mínimo estar pelo menos um pouco preocupados com a vida da garota?
E onde estava a Mallena? Elas não eram irmãs? Por que ela não estava ali?
Talvez eu estivesse errado sobre ela, talvez ela não fosse uma filha tão querida assim.
E eu nem sequer poderia dizer que aquele era o jeito deles de demonstrar carinho e preocupação, porque eu já havia visto a Mallena se machucar de forma muito menos grave antes, e o cenário foi totalmente diferente do que aquele que eu estava presenciando agora.
Parecia que a mulher com quem eu me casei não era mais amada pela família do que por mim.
Erica Scott, não, Erica Mckinley, quem era você de verdade e por que o seu pai não parecia tão preocupado assim com você?
Mais de uma hora depois que ela entrou na sala de cirurgia o médico finalmente deixou a sala.
— Quem é a família de Erica Scott? — o médico perguntou.
— É Mckinley, na verdade! — falei me levantando — Ela é a minha esposa, como ela está?
— Ela sofreu uma lesão bem grave na cabeça, mas felizmente conseguimos estancar o sangue e fechar o ferimento! — ele contou — Mas, apesar dela já estar fora de perigo, o quadro dela é estável, e é bem provável que ela fique inconsciente por alguns dias, semanas ou até mesmo meses!
— Está dizendo que ela está em coma? — perguntei incrédulo — Como pode ser isso?
— Sei que está preocupado, senhor Mckinley, mas, sendo bem honesto com o senhor, aquela queda quase matou a sua esposa! — ele contou — Ela pode acordar em breve, mas, tudo depende da força de vontade dela mesma. De qualquer forma, a estaremos transferindo para um quarto agora.
— Obrigada doutor! — agradeci — Sei que fez o melhor que pôde.
Com um breve aceno de cabeça ele se foi.
— Ela vai ficar bem, filho! — meu pai me tranquilizou — Ela é jovem e com certeza tem muita força dentro de si para superar isso.
— Bem, já que não podemos fazer nada pela Erica, vamos retornar para casa! — Steven Langford declarou se levantando — Espero que ela acorde logo.
Após dizer apenas isso, ele foi embora seguido de perto pela esposa.
— Esses dois abutres! — papai reclamou — Pobre garota!
Aquela era a segunda vez que ele dizia algo daquele tipo.
Como se aquela mulher fosse uma coitada.
Que diabos ele queria dizer com "que garota sem sorte" e "pobre garota". Será que ele sabia de algo que eu não sabia?
Aquilo era estranho, muito estranho.
Após assinar os papéis liberando para que ela ficasse internada naquele hospital, pedi a governanta para que ficasse com ela até que ela acordasse.
Sempre que me sobrava algum tempo eu ligava ou ia pessoalmente até lá para saber do estado dela.
Mas não havia evoluido muito, ela continuava inconsciente e segundo o médico um coágulo havia se formado em sua cabeça e talvez por isso ela ainda não tivesse acordado.
A equipe médica do hospital já estava tratando do quadro dela, ministrando medicamentos como anticoagulantes e trombolíticos nas veias. E se o tratamento não resolvesse, teriam que optar por uma cirurgia ou drenagem.
Felizmente, depois de mais de duas semanas de tratamento, as notícias foram mais positivas, o coágulo estava finalmente diminuindo, os remédios estavam fazendo efeito. O que me deixava menos preocupado, porque, embora eu ainda gostasse nada dela, tudo havia acontecido dentro da minha casa, sob a minha tutela, e algo assim não deveria se repetir novamente, mesmo ela sendo uma interesseira e materialista sem escrúpulos. Ainda assim, algo desse patamar não deveria acontecer sob o meu teto.
Por precaução, pedi que os empregados retirassem o carpete da escadaria e corrigissem os degraus para que esses se tornassem mais seguros.
Quase três semanas depois, fui até o hospital para ver como ela estava, e para a minha surpresa a irmã dela estava lá, olhando para ela enquanto ela dormia.
— Mallena? — o que ela estava fazendo sozinha com a irmã no quarto? Onde estava a Judith?
— Silas! — ela sorriu fraco ao me ver — O que está fazendo aqui?
— Como assim "o que eu estou fazendo aqui"? — indaguei — Ela é a minha esposa.
— Oh, eu sei, só não esperava que... — ela fez uma pausa e olhou em volta — Eu estava preocupada com a Erica, e por isso eu vim visitá-la. Só não esperava que você a estivesse tratando tão bem.
— De qualquer forma, ela é uma Mckinley agora! — declarei — Eu sou o responsável por ela. Não precisa se preocupar.
O que era aquilo? Por que eu estava agindo daquela forma? Por que eu estava sendo tão protetivo com ela?
— Tem razão, você é! — ela concordou — Bem, eu só vim ver se ela estava bem, já vou indo embora.
Após ela se retirar, chamei Judith de volta e retornei a empresa.
— Como está a sua esposa? — Henry questionou.
— Ela não está falando muito! — respondi.
— Por Deus Silas, eu sei que você não gosta dela, mas, será que pode ser um pouco menos c***l? — ele questionou — Ela está em coma.
— E é exatamente isso que eu odeio! — reclamei — Se fosse para ela cair de uma escada e ficar em coma, por que ela não fez isso na casa dos pais? Tinha que ser justo na minha casa?
— É, eu acho que você não tem um coração batendo dentro do peito! — ele disse — Eu estou começando a sentir pena dessa garota.
Já havia me ficado no trabalho quando o meu celular tocou.
O nome "Judith" piscava no visor.
Deslizei o botão verde para o lado e levei o aparelho ao ouvido.
— Fale!
— Senhor Mckinley, a senhora acordou! — ela disse animada.
— Que bom! — falei simplesmente.
Apesar de não gostar dela, eu estava aliviado por ela ter acordado, assim, eu não precisaria me sentir culpado sempre que olhasse para ela naquele leito de hospital.
— Quando ela acordou pediu que retornassemos para a mansão. — Judith contou —Então, eu estou levando a senhora para casa, senhor!
— Como é? — perguntei me levantando abruptamente.