Silas:
Passava das sete da noite quando retornei a mansão Mckinley.
— Onde está a senhora Mckinley? — perguntei a governanta.
— Está lá em cima, senhor! — ela respondeu.
— Certo! — concordei.
Se eu estivesse correto ela já havia se enfiado debaixo dos cobertores e se apressou em dormir, para que não tivesse que cumprir suas próprias palavras.
Mas, eu estava errado.
Foi só abrir a porta do meu próprio quarto para constatar isso.
Aquela mulher estava sentada aos pés da minha cama vestindo uma peça de seda enquanto seus olhos ainda estavam fixos no chão.
— Quem te deixou entrar aqui? — perguntei ao entrar.
— A governanta, ela...
— Não importa o que a governanta tenha lhe dito! — falei um tanto irritado — Nunca mais ouse entrar no meu quarto sem ser chamada.
— O senhor pediu que eu viesse! — ela disse.
— Eu pedi que você... — estava correto, eu pedi mesmo. Eu queria aterrorizá-la.
Aquela mulher estava mesmo disposta a ir até o fim com aquilo? Ela veio até o meu quarto usando trajes de dormir de seda, ela estava mesmo falando sério?
Tirei o paletó e o colete e os joguei sobre a poltrona e então me aproximei da cama.
— Está mesmo disposta a fazer isso? — perguntei abrindo os botões da manga da camisa ainda incrédulo.
— Sim, senhor!
Impaciente com aquela mania dela de me chamar de senhor e sempre estar com olhos no chão, explodi em fúria.
— Olha para mim quando fala comigo! — exigi segurando em seu queixo e o erguendo.
Seus olhos eram verdes e brilhantes, igual a duas pedras de esmeralda, eram belíssimos.
Eles se fixaram nos meus, me deixando desconcertado.
— Nós já nos vimos antes? — questionei.
— Não senhor! — ela negou.
Estranho, porque ao olhar para ela, eu tive a impressão de já tê-la visto antes.
Soltei seu queixo e me afastei dela.
Seu rosto era bonito, apesar de ser muito pálido, era bonito. Mas ela era branca demais, ela era realmente assim ou estava tão amedrontada que estava branca por fora. Não era isso, ela tinha um aspecto doente.
— Vamos fazer isso então! — falei abrindo os botões da camisa e voltando a me aproximar da cama.
Toquei de leve uma das mechas de seu cabelo e ela se encolheu sobre a cama e seus olhos começaram a marejar.
Lá estava ele, o nojo.
Todas elas sentiam. E ela não era uma exceção.
Eu não teria que ir ao extremo se ela tivesse se mantido afastada de mim, mas foi ela quem veio até ali, foi ela quem pediu por isso.
A deitei sobre a cama e comecei a desatar o nó da peça de seda que cobria sua camisola.
Novamente o cheiro suave de jasmin emanou dela.
Expus seu ombro esquerdo e a toquei ali, beijando de seu pescoço até seu ombro.
Ela não disse nada, não me empurrou, nem suplicou que eu parasse, mas quando eu comecei a erguer a barra de sua camisola, o choro dela ecôou nos meus ouvidos de forma baixa.
Ela soluçava baixinho enquanto as lágrimas rolavam pelo seu rosto.
Me afastei apenas para olhar para ela.
— Saia!! — ordenei me levantando da cama.
Ela se sentou abruptamente sobre a cama e me olhou confusa.
— Você é surda? — perguntei em um tom de voz alto e irritado — Eu disse para sair!
— Perdão, senhor!! — ela suplicou limpando as lágrimas e unindo as mãos uma a outro em um gesto de suplica — Eu não vou mais chorar, vou ficar quentinha, prometo me conter.
Aquela foi a primeira vez desde aquele maldito cartório em que a ouvi dizer tantas palavras ao mesmo tempo.
Ela não parecia enojada, parecia amedrontada, não, aterrorizada.
Ela veio para mais perto e se ajoelhou a minha frente.
— Faça isso, por favor! — ela implorou — Não pode me devolver, eu suplico, senhor.
Agora ela estava ajoelhada a minha frente, como se além de um monstro eu ainda fosse terrível, eu não suportava aquilo.
— Eu disse para você sair! — gritei a segurando pelo peça de seda e a erguendo do chão — Não me faça perder a cabeça, mulher.
— Eu aceito isso, senhor!! — ela disse com os olhos marejados novamente — Contanto que não me mande de volta.
— Eu não quero ver a sua cara hoje! — a soltei e empurrei de leve para a porta — Saia agora e não volte nunca mais sem ser chamada. Nunca mais invada o meu espaço pessoal, você me dá nos nervos.
Ela me encarou novamente por alguns segundos e tornando a fechar a peça que cobria-lhe a camisola ela abaixou novamente a cabeça.
— Perdoe-me por não ser o que o senhor queria! — ela disse em um tom baixinho — Peço perdão por não ser do seu agrado, eu vou melhorar, eu prometo.
E sem dizer mais nada ela abriu a porta e deixou o meu quarto.
Aquela maldita mulher queria me dar nos nervos, só podia ser.
Foi ela quem veio até o meu quarto, por que ela estava agindo como se eu a tivesse forçado?
Eu estava furioso, possesso de raiva.
Para concluir aquele dia terrível, ela ainda teve que me deixar ainda mais irritado.
Tirei os sapatos, me despi da calça e fui para o banho, para tentar esfriar a cabeça e aliviar o stress que aquela mulher havia me causado.
Me sentei a mesa e me servi de um pedaço de pão e uma xícara de café.
— Onde está a sua senhora? — perguntei ao ver o lugar vazio na mesa.
— Ainda não desceu, senhor! — a governanta respondeu.
— Não me diga que além de interesseira ela ainda é o tipo preguiçosa que só acorda depois das dez da manhã? — questionei irritado novamente.
— Eu devo chamá-la, senhor? — ela perguntou.
— Não! — me levantei da mesa e caminhei em direção a escadaria — Eu mesmo vou.
Subi a escadaria apressadamente e bati com força na porta do quarto dela.
Depois de alguns segundos ela abriu a porta.
— Sim, senhor! — ela disse sem se atrever a olhar nos meus olhos.
— O que há de errado com você? — perguntei irritado — Não é uma mulher para a cama, certo, mas não poderia ao menos ser um enfeite de casa? Não foi para isso que veio até aqui? Por que está trancada até tão tarde nessa porcaria de quarto se fazendo de vítima?
— Perdão, senhor! — ela disse simples.
— Você é mesmo uma inútil! — reclamei furioso — Qual a razão da sua existência nessa casa se não pode agir como o esperado. É bem a cara das Langford's serem miseráveis que sempre fogem de sua obrigação. E você é ainda pior que a sua irmã mais velha!
Sem esperar que ela se desculpasse novamente, deixei o lugar e voltei a descer a escadaria. Peguei o paletó sobre o sofá e segui para a empresa.
Aquela mulher estava elevando os meus picos de mau humor a um nível elevado.
Eu odiava tudo nela, aquela pele pálida, o corpo magro, a voz sempre baixa e contida como se eu a tivesse intimidando o tempo todo, a forma como ela sempre me chamava de senhor no final das frases e aquele maldito olhar no chão.
Não bastava ser uma maldita interesseira ela ainda tinha que me deixar furioso.
— Senhor!!!! — a voz da governanta se fez ouvir tão logo eu deixei a casa — Senhor, por favor, venha rápido!
— O que é agora, Judith? — questionei irritado — Não venha me dizer agora que aquela mulher desprezível e inútil está mortaz algo tão bom assim não teria acontecido.
— Eu não sei, senhor! — ela disse afobada — Eu não sei, mas ela não está se mexendo.
— O que quer dizer? — perguntei confuso — Ela desmaiou? Ela é desse tipo que finge desmaios para ser sempre a vítima da história.
— Não senhor, a senhora, ela caiu da escada! — ela disse nervosa.
— Tem certeza que ela caiu da escadaria? — questionei incrédulo.
— Sim senhor, eu a vi rolar escadaria abaixo! — ela contou — A senhora não está respondendo. Acho que ela...
Antes que ela completasse a frase retornei para casa correndo e então a vi caída no chão.
Me aproximei rapidamente dela e vi o chão de porcelanato branco se tingir de vermelho.
Me abaixei ao seu lado e chequei se ela ainda estava respirando.
— Ela está morta? — Judith perguntou assustada.
— Chame uma ambulância! — gritei para ela — Seja rápida!
Ela ainda estava viva, mas respirava muito fraco.
Não demorou muito até que o socorro viesse e a levasse rapidamente até o hospital mais próximo.
Uma equipe médica já aguardava a entrada do hospital Sidney Day, e após a tirarem da ambulância a levaram rapidamente para a emergência.
— Ligue para a família dela! — pedi a governanta — Os Langford's deveriam ser avisados sobre o acidente da filha mais nova.