CAPÍTULO 6

923 Palavras
Santa Marina acordou inquieta. A notícia da volta de Isadora já não era mais apenas um sussurro era assunto aberto, comentado sem pudor nos corredores do mercado, no salão de beleza, no porto e, principalmente, no Clube Náutico, onde os nomes importantes da cidade se reuniam. Era ali que tudo ia acontecer. Isadora parou diante do espelho, respirando fundo. Vestia um vestido simples, mas elegante, que abraçava o corpo na medida certa. Não queria chamar atenção, mas sabia que chamaria. Em Santa Marina, ela nunca passara despercebida. — Só resolve o que precisa e vai embora — murmurou para si mesma. Mas no fundo, sabia que não era tão simples. Não quando ele estava ali. ****** Caio entrou no Clube Náutico como se fosse dono do lugar porque era. Conversas cessaram. Olhares se voltaram. Respeito e medo caminhavam juntos quando o nome Moretti cruzava um ambiente. Ele não procurava Isadora. Mentira. Ele sentia. Quando a viu atravessar o salão, o impacto foi físico. O estômago se contraiu. O sangue ferveu. Ela estava diferente. Mais mulher. Mais consciente do próprio poder. E ainda assim era a mesma garota que o desarmava com um simples olhar. O choque entre os olhares foi imediato. O mundo diminuiu. Isadora sentiu o corpo inteiro reagir ao vê-lo ali, cercado de homens de terno, copos caros e conversas sussurradas. Caio parecia maior, mais perigoso um rei entre súditos. E aquilo a assustou e atraiu. Ela tentou ignorá-lo. Sentou-se à mesa oposta, conversando com o advogado da família. Mas cada palavra parecia vazia. Porque ela o sentia. E Caio a observava. Não com curiosidade. Com posse. — Quem é ela? — perguntou Laura, uma mulher elegante ao lado dele, pousando a mão em seu braço com i********e demais. Caio não desviou o olhar de Isadora. — Ninguém que te interesse. Laura franziu o cenho. — Você nunca olha assim pra ninguém. Ele finalmente a encarou. — Então não se acostume. Do outro lado do salão, Isadora viu o gesto. A mão da mulher. O sorriso insinuante. Algo queimou em seu peito. Antes que pudesse se controlar, levantou-se. E foi direto até ele. O silêncio foi imediato quando ela parou à frente de Caio. — Precisamos conversar. — disse, firme. Os homens ao redor trocaram olhares tensos. Ninguém interrompia Caio Moretti. Mas ninguém também ignorava Isadora Ferraz. — Agora não. — ele respondeu, a voz baixa, controlada. Ela inclinou-se levemente, aproximando-se o suficiente para que apenas ele ouvisse. — Então pare de me observar como se eu fosse sua propriedade. O maxilar dele travou. Caio se levantou devagar, imponente, e encarou os presentes. — Com licença. Sem pedir permissão, segurou o pulso dela e a conduziu para fora do salão. O toque não era bruto era firme. Definitivo. — Está louco? — ela sussurrou quando chegaram ao corredor vazio. — Todo mundo viu isso! Ele a encostou na parede, os braços ao redor do corpo dela, aprisionando sem tocar. — Era essa a intenção. — Você gosta de me expor agora? — Gosto de deixar claro que você não está sozinha. — Eu não preciso da sua proteção! — Precisa sim. — a voz dele desceu, perigosa. — E não brinque com isso. O olhar dele percorreu o rosto dela, os lábios, o pescoço. — Você não faz ideia do que provoca quando me encara daquele jeito. — E você não tem o direito de agir como se ainda tivesse controle sobre mim. Ele sorriu. Um sorriso lento, sombrio. — Eu nunca perdi. O choque entre eles era elétrico. Desejo e raiva se misturavam até não haver mais distinção. — Aquela mulher — Isadora começou. — Não significa nada. — ele cortou. — Diferente de você. O silêncio que se seguiu foi quebrado por passos no corredor. Henrique surgiu do nada, como uma sombra materializada. — Que reunião interessante. — comentou, fingindo casualidade. O corpo de Caio ficou rígido instantaneamente. — Você não foi convidado. Henrique olhou para Isadora com interesse calculado. — Mas ela foi. Isadora sentiu o estômago revirar. — O que você quer? — perguntou, fria. Henrique sorriu. — Conhecer melhor quem voltou pra mexer em feridas m*l cicatrizadas. Caio avançou um passo. — Afaste-se. — Ou o quê? — Henrique provocou. — Vai repetir o passado? O choque foi visível. Isadora percebeu que havia algo ali , algo grande demais para ser dito em público. — Chega. — ela disse. — Não aqui. Henrique ergueu as mãos em falsa rendição. — Claro. Mas lembrem-se Santa Marina sempre cobra o que deve. Ele se afastou, deixando um rastro de tensão. Caio respirou fundo, passando a mão pelo rosto. — Eu disse que isso ia acontecer. Isadora o encarou, o coração acelerado. — Então pare de me tratar como um problema. Ele se aproximou, a voz baixa, intensa. — Você não é um problema. Você é o meu ponto fraco. As palavras caíram como uma confissão perigosa. Por um segundo, tudo silenciou. — Esse foi o nosso primeiro encontro depois de dez anos. — ela murmurou. — E já parece uma guerra. Caio tocou o queixo dela, obrigando-a a encará-lo. — Porque entre nós nunca foi paz. Sempre foi incêndio. Ele se afastou, abrindo espaço. — Vá pra casa. Hoje. — E você? — Eu vou garantir que ninguém ouse chegar perto de você. Isadora saiu com o coração em chamas. E Caio ficou ali, observando-a partir, sabendo que aquele reencontro não tinha sido apenas um choque. Tinha sido uma declaração de guerra. E desta vez, ele não perderia.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR