CAPÍTULO 5

968 Palavras
O nome dele ainda doía. Isadora ficou sozinha na casa da avó quando a noite caiu, o som do mar batendo distante como um coração cansado. Depois do encontro no penhasco, Caio a deixou ali com um aviso silencioso nos olhos , e uma promessa que ele ainda não tinha coragem de cumprir. Ela trancou a porta, apoiou as costas na madeira e fechou os olhos. Caio Moretti. Pronunciar aquele nome em pensamento era como tocar numa ferida que nunca cicatrizou. Durante anos, ela treinou a mente para não lembrá-lo. Evitava músicas, lugares, até cheiros que pudessem evocá-lo. Mas agora, em Santa Marina, tudo conspirava para trazê-lo de volta , mais intenso, mais perigoso e mais dele. Subiu para o quarto antigo, aquele onde passara tantas noites acordada, sonhando com um futuro que nunca aconteceu. A cama ainda rangia do mesmo jeito. A janela dava para o mar. E ali, sentada no colchão, Isadora deixou que as lembranças viessem. ******* Ela tinha dezessete anos quando o beijou pela primeira vez. Caio era só um garoto naquela época, sorriso fácil, olhar inquieto, sempre com cheiro de sal e sol. Ele aparecia à noite na janela dela, assobiando baixo, e ela descia correndo, rindo, com o coração disparado. O penhasco era o refúgio deles. — Um dia eu vou embora daqui — ele dizia, deitado na areia, olhando as estrelas. — E eu vou com você — ela respondia, sem pensar. Ele sorria daquele jeito torto, como se soubesse algo que ela ainda não entendia. — Se você for comigo, Isa, não tem volta. Ela não se importava. Amar Caio era não ter medo. Até a noite em que tudo mudou. ******** Chovia forte. O vento castigava as janelas, e Isadora acordou com gritos vindos da rua. O cheiro de fumaça invadiu o quarto antes mesmo que pudesse entender o que estava acontecendo. O incêndio. A casa do pai de Caio ardia em chamas, iluminando a noite como um inferno aberto. Pessoas corriam, sirenes cortavam o ar. Isadora desceu as escadas descalça, o coração em pânico. Viu Caio de joelhos na lama, o rosto sujo de fuligem, os olhos perdidos. — Caio! — ela gritou, correndo até ele. Ele a olhou como se não a reconhecesse. — Foi tudo culpa deles. — murmurou. — Do seu pai… do meu. Isadora sentiu o chão sumir. Naquela noite, verdades foram ditas pela metade. Acusações. Silêncios. A cidade escolheu um lado. E o amor deles virou pecado. ******* Ela se levantou da cama, sentindo o corpo trêmulo. Abriu uma das gavetas antigas e encontrou algo que não se lembrava de ter guardado ali, um colar simples, com uma meia-lua gravada. O mesmo símbolo da caixa no sótão. — Não pode ser — sussurrou. Segurou o colar com força, sentindo o metal frio contra a pele quente. O passado estava conectado por fios invisíveis que ela começava a enxergar agora e isso a assustava mais do que qualquer ameaça direta. Uma batida na porta a fez sobressaltar. Isadora prendeu a respiração antes de abrir. Caio estava ali. Sem jaqueta. Camisa aberta no colarinho. O olhar carregado de algo que beirava o desespero. — Eu precisava te ver. — disse, direto. — Depois do que aconteceu hoje? — ela retrucou. — Você acha mesmo que isso é uma boa ideia? Ele entrou sem pedir permissão, fechando a porta atrás de si. — Desde quando nós seguimos boas ideias? O silêncio se espalhou entre eles. Isadora segurava o colar na mão. Caio percebeu. O olhar dele escureceu. — Onde você encontrou isso? — No meu quarto. — ela respondeu. — E quero saber por quê eu tenho isso… e por que é igual ao símbolo da caixa da minha avó. Caio passou a mão pelos cabelos, tenso. — Porque nossas famílias estavam ligadas por algo muito maior do que você imagina. — Então é verdade. — a voz dela falhou. — Meu pai e o seu não eram inimigos. Ele a encarou. — Eram aliados. Até tudo dar errado. O coração dela acelerou. — E você sabia disso naquela noite? — Não. — respondeu com firmeza. — Eu descobri depois. Quando já era tarde demais pra salvar qualquer coisa. Ela se aproximou, os olhos marejados. — Você me deixou ir embora sem lutar. O golpe foi direto. Caio se aproximou também, até que apenas centímetros os separavam. — Eu te deixei ir porque te amava. E porque sabia que, se ficasse, você ia acabar destruída como eu. Isadora sentiu as lágrimas escorrerem. — Você não tinha esse direito. Ele tocou o rosto dela com cuidado, como se estivesse lidando com algo frágil demais para quebrar outra vez. — Eu sei. E vou carregar isso pelo resto da vida. O ar entre eles ficou pesado. O passado, o presente, o desejo tudo misturado. Caio se inclinou e encostou a testa na dela. — Você jurou me esquecer. — Eu tentei. — sussurrou. — Não conseguiu. — Não. O beijo veio lento desta vez. Profundo. Cheio de tudo que foi reprimido por anos. Não havia pressa, apenas reconhecimento. O corpo dela reagiu como se nunca tivesse esquecido o dele. As mãos de Caio a puxaram para mais perto, possessivas, famintas. Quando se afastaram, a respiração dos dois estava irregular. — Isso é um erro. — ela murmurou. — O maior da minha vida. — ele concordou. — E mesmo assim eu não vou parar. Isadora sentiu o coração bater descompassado. Porque naquele instante, ela soube: o nome que jurou esquecer era o único que ainda fazia sentido. E do lado de fora da casa, oculto pela sombra das árvores, alguém observava a luz acesa no quarto. Henrique. O sorriso dele era lento e satisfeito. Porque mexer no passado sempre teve um preço. E eles estavam prestes a pagar.
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