O nome dele ainda doía.
Isadora ficou sozinha na casa da avó quando a noite caiu, o som do mar batendo distante como um coração cansado.
Depois do encontro no penhasco, Caio a deixou ali com um aviso silencioso nos olhos , e uma promessa que ele ainda não tinha coragem de cumprir.
Ela trancou a porta, apoiou as costas na madeira e fechou os olhos.
Caio Moretti.
Pronunciar aquele nome em pensamento era como tocar numa ferida que nunca cicatrizou.
Durante anos, ela treinou a mente para não lembrá-lo.
Evitava músicas, lugares, até cheiros que pudessem evocá-lo.
Mas agora, em Santa Marina, tudo conspirava para trazê-lo de volta , mais intenso, mais perigoso e mais dele.
Subiu para o quarto antigo, aquele onde passara tantas noites acordada, sonhando com um futuro que nunca aconteceu.
A cama ainda rangia do mesmo jeito. A janela dava para o mar. E ali, sentada no colchão, Isadora deixou que as lembranças viessem.
*******
Ela tinha dezessete anos quando o beijou pela primeira vez.
Caio era só um garoto naquela época, sorriso fácil, olhar inquieto, sempre com cheiro de sal e sol.
Ele aparecia à noite na janela dela, assobiando baixo, e ela descia correndo, rindo, com o coração disparado.
O penhasco era o refúgio deles.
— Um dia eu vou embora daqui — ele dizia, deitado na areia, olhando as estrelas.
— E eu vou com você — ela respondia, sem pensar.
Ele sorria daquele jeito torto, como se soubesse algo que ela ainda não entendia.
— Se você for comigo, Isa, não tem volta.
Ela não se importava.
Amar Caio era não ter medo.
Até a noite em que tudo mudou.
********
Chovia forte. O vento castigava as janelas, e Isadora acordou com gritos vindos da rua.
O cheiro de fumaça invadiu o quarto antes mesmo que pudesse entender o que estava acontecendo.
O incêndio.
A casa do pai de Caio ardia em chamas, iluminando a noite como um inferno aberto.
Pessoas corriam, sirenes cortavam o ar. Isadora desceu as escadas descalça, o coração em pânico.
Viu Caio de joelhos na lama, o rosto sujo de fuligem, os olhos perdidos.
— Caio! — ela gritou, correndo até ele.
Ele a olhou como se não a reconhecesse.
— Foi tudo culpa deles. — murmurou.
— Do seu pai… do meu.
Isadora sentiu o chão sumir.
Naquela noite, verdades foram ditas pela metade. Acusações. Silêncios. A cidade escolheu um lado.
E o amor deles virou pecado.
*******
Ela se levantou da cama, sentindo o corpo trêmulo.
Abriu uma das gavetas antigas e encontrou algo que não se lembrava de ter guardado ali, um colar simples, com uma meia-lua gravada.
O mesmo símbolo da caixa no sótão.
— Não pode ser — sussurrou.
Segurou o colar com força, sentindo o metal frio contra a pele quente.
O passado estava conectado por fios invisíveis que ela começava a enxergar agora e isso a assustava mais do que qualquer ameaça direta.
Uma batida na porta a fez sobressaltar.
Isadora prendeu a respiração antes de abrir.
Caio estava ali.
Sem jaqueta. Camisa aberta no colarinho. O olhar carregado de algo que beirava o desespero.
— Eu precisava te ver. — disse, direto.
— Depois do que aconteceu hoje? — ela retrucou.
— Você acha mesmo que isso é uma boa ideia?
Ele entrou sem pedir permissão, fechando a porta atrás de si.
— Desde quando nós seguimos boas ideias?
O silêncio se espalhou entre eles.
Isadora segurava o colar na mão. Caio percebeu.
O olhar dele escureceu.
— Onde você encontrou isso?
— No meu quarto. — ela respondeu.
— E quero saber por quê eu tenho isso… e por que é igual ao símbolo da caixa da minha avó.
Caio passou a mão pelos cabelos, tenso.
— Porque nossas famílias estavam ligadas por algo muito maior do que você imagina.
— Então é verdade. — a voz dela falhou. — Meu pai e o seu não eram inimigos.
Ele a encarou.
— Eram aliados. Até tudo dar errado.
O coração dela acelerou.
— E você sabia disso naquela noite?
— Não. — respondeu com firmeza.
— Eu descobri depois. Quando já era tarde demais pra salvar qualquer coisa.
Ela se aproximou, os olhos marejados.
— Você me deixou ir embora sem lutar.
O golpe foi direto.
Caio se aproximou também, até que apenas centímetros os separavam.
— Eu te deixei ir porque te amava. E porque sabia que, se ficasse, você ia acabar destruída como eu.
Isadora sentiu as lágrimas escorrerem.
— Você não tinha esse direito.
Ele tocou o rosto dela com cuidado, como se estivesse lidando com algo frágil demais para quebrar outra vez.
— Eu sei. E vou carregar isso pelo resto da vida.
O ar entre eles ficou pesado.
O passado, o presente, o desejo tudo misturado.
Caio se inclinou e encostou a testa na dela.
— Você jurou me esquecer.
— Eu tentei. — sussurrou.
— Não conseguiu.
— Não.
O beijo veio lento desta vez. Profundo.
Cheio de tudo que foi reprimido por anos. Não havia pressa, apenas reconhecimento.
O corpo dela reagiu como se nunca tivesse esquecido o dele.
As mãos de Caio a puxaram para mais perto, possessivas, famintas.
Quando se afastaram, a respiração dos dois estava irregular.
— Isso é um erro. — ela murmurou.
— O maior da minha vida. — ele concordou.
— E mesmo assim eu não vou parar.
Isadora sentiu o coração bater descompassado.
Porque naquele instante, ela soube:
o nome que jurou esquecer
era o único que ainda fazia sentido.
E do lado de fora da casa, oculto pela sombra das árvores, alguém observava a luz acesa no quarto.
Henrique.
O sorriso dele era lento e satisfeito.
Porque mexer no passado sempre teve um preço.
E eles estavam prestes a pagar.