O vento uivava no alto do penhasco como um aviso.
Isadora parou o carro à beira da estrada estreita e desceu devagar, sentindo o vestido colar às pernas por causa da brisa fria do mar.
O céu estava cinza, pesado, e as ondas se chocavam violentamente contra as rochas lá embaixo, como se a própria natureza estivesse inquieta.
Ela não sabia por que tinha vindo ali.
Só sentia.
Desde o porto, a sensação de estar sendo observada não a abandonara.
Um peso constante na nuca, um arrepio insistente que nenhum raciocínio conseguia afastar.
O penhasco sempre fora o lugar de Caio.
Ali eles se encontravam quando eram jovens, longe dos olhos da cidade.
Ali trocaram promessas que o tempo não cumpriu.
aAli tudo começou e talvez tudo tivesse terminado.
— Você nunca soube ficar longe daqui.
A voz masculina surgiu atrás dela, baixa, carregada de algo que não era apenas saudade.
Isadora se virou num sobressalto.
Caio estava alguns passos atrás, usando uma jaqueta escura, o rosto sério, os olhos atentos ao redor antes de se fixarem nela.
Ele parecia parte da paisagem perigoso, firme, indomável.
— Está me seguindo agora? — perguntou ela, tentando esconder o nervosismo.
— Estou garantindo que ninguém mais esteja.
Ele se aproximou da beira do penhasco, olhando para o mar revolto.
— Tem alguém nos observando desde ontem.
O coração dela disparou.
— O homem do porto?
Caio assentiu.
— E não é a primeira vez que o vejo.
Ele voltou para Santa Marina antes de você.
Isadora sentiu o frio se espalhar pelo peito.
— Voltar de onde?
— Do passado.
O silêncio que se instalou foi pesado.
O vento levantava os cabelos dela, e Caio estendeu a mão, segurando um dos fios com cuidado quase contraditório à dureza do olhar.
— Você não devia andar sozinha. — murmurou.
— Não posso viver com medo.
— Pode viver. — ele corrigiu. — Desde que me escute.
Ela o encarou, sentindo o conflito interno crescer.
— Desde quando você manda na minha vida, Caio?
Ele deu um passo à frente, encurtando o espaço entre eles.
— Desde sempre. Só demorou pra perceber.
Antes que pudesse responder, um movimento no topo do penhasco chamou a atenção deles.
Uma silhueta.
Um homem parado a poucos metros de distância, imóvel, observando o mar e a eles.
Usava um sobretudo escuro e mantinha as mãos nos bolsos.
O rosto não era visível, mas a postura.
A postura denunciava i********e demais com aquele lugar.
Isadora sentiu o estômago revirar.
— Tem alguém ali.
Caio ficou tenso instantaneamente, o corpo se colocando sutilmente à frente dela.
— Fique atrás de mim.
— Você o conhece? — sussurrou.
— Infelizmente.
O homem se virou lentamente, revelando um rosto anguloso, marcado pelo tempo e por um sorriso torto que não chegava aos olhos.
— Caio Moretti. — a voz ecoou contra o vento.
— Ainda gosta de olhar o mar como se ele fosse te dar respostas?
Caio cerrou o maxilar.
— Achei que tivesse ido embora para sempre, Henrique.
O nome caiu como um peso.
Henrique deu uma risada curta.
— Santa Marina sempre chama de volta quem deve algo a ela.
O olhar dele se moveu para Isadora, avaliando-a sem pudor.
— Então você é a menina que fugiu.
Isadora sentiu a mão de Caio fechar em torno do braço dela, firme demais para ser apenas proteção.
— Não fale com ela.
Henrique arqueou a sobrancelha.
— Ainda tão possessivo. Imagino que ela não saiba metade do que aconteceu aqui.
— Não é da sua conta. — Caio respondeu, frio.
Henrique deu alguns passos, aproximando-se perigosamente da beira.
— Nada aqui deixa de ser minha conta. Não depois do incêndio. Não depois do que o pai dela fez.
O sangue de Isadora gelou.
— O que você sabe sobre o meu pai?
Caio se virou para ela, o olhar alertando silenciosamente, não agora.
Mas Henrique sorriu, satisfeito.
— Sei que heranças não são apenas casas e terras. Às vezes, são dívidas. Segredos. Culpa.
Caio avançou um passo.
— Dê o fora daqui antes que se arrependa.
— Sempre foi assim. — Henrique suspirou.
— Você apagando incêndios que não começou. Protegendo quem não merece.
O vento aumentou, as ondas rugiram.
Henrique recuou um pouco, mas antes de se virar, deixou a ameaça no ar:
— A verdade vem à tona, Caio. E quando isso acontecer ela vai saber quem você realmente é.
Ele se afastou, desaparecendo pela trilha estreita que levava ao outro lado do penhasco.
O silêncio que ficou era sufocante.
Isadora se virou para Caio, o olhar cheio de perguntas e medo contido.
— Você me deve explicações.
Ele fechou os olhos por um instante, como se reunisse forças.
— Eu te devo proteção. E isso vai ter que bastar… por enquanto.
— Ele falou do meu pai. Do incêndio.
— Eu sei.
— Então me diga a verdade! — a voz dela falhou.
Caio segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a encará-lo.
O toque era firme, quase desesperado.
— Se eu te contar tudo agora, você vai querer fugir de novo. E desta vez, não haverá para onde ir.
O coração dela martelava no peito.
— E se eu já estiver presa?
O olhar dele escureceu, intenso.
— Então eu vou te manter viva.
O beijo veio rápido, urgente, como se ambos precisassem daquilo para não desmoronar.
O vento, o mar, o perigo tudo desapareceu por um instante.
Quando se afastaram, Caio encostou a testa na dela.
— Prometa que vai confiar em mim.
Isadora hesitou.
— Não sei se consigo.
— Prometa mesmo assim.
Ela respirou fundo.
— Eu prometo tentar.
Ao longe, escondido entre as rochas, Henrique observava.
Os olhos frios brilhavam com antecipação.
Porque o jogo tinha começado.
E desta vez, ninguém sairia ileso.