CAPÍTULO 3

771 Palavras
O porto de Santa Marina despertava antes do sol. O cheiro de peixe fresco, óleo e sal impregnava o ar, misturando-se ao som das ondas batendo contra os cascos dos barcos. Homens gritavam ordens, redes eram jogadas no chão molhado, motores roncavam com impaciência. Para Caio Moretti, aquele caos controlado era o único lugar onde sua mente conseguia se aquietar , ou pelo menos fingir que conseguia. Mas naquela manhã, nem o mar o obedecia. Ele apoiou as mãos no parapeito de madeira, o olhar perdido no horizonte avermelhado. A imagem de Isadora ainda queimava atrás de suas pálpebras, o beijo, o gosto dela, a forma como o corpo reagira ao dele sem pedir permissão. Maldição. Dez anos tentando esquecer. E bastaram dois dias para tudo desmoronar. — Moretti. A voz de Rafael, seu braço-direito, o trouxe de volta. — O carregamento chega hoje à noite. — continuou. — Mas tem gente estranha rondando. Não são da cidade. Caio franziu o cenho. — Ninguém entra ou sai sem eu saber. — disse, firme. — Redobre a segurança. Rafael assentiu, mas antes de se afastar, hesitou. — E sobre a garota. Caio virou-se num movimento brusco. — Não fale dela. — A cidade inteira fala. — Rafael suspirou. — Quando ela volta, coisas ruins voltam junto. Caio não respondeu. Porque no fundo, ele sabia. Sempre soube. ****** Isadora caminhava pelo calçadão do porto com passos cautelosos, usando óculos escuros e um vestido simples. Mesmo assim, sentia os olhares. Santa Marina nunca esquece. E nunca perdoa. Cada rosto parecia carregar uma pergunta. Cada silêncio, um julgamento. Ela fingiu normalidade, parando em uma pequena barraca de café. — Um expresso, por favor. Enquanto esperava, sentiu o arrepio. Aquela sensação antiga. Como se alguém a observasse de longe. Quando virou o rosto, encontrou os olhos dele. Caio estava do outro lado do porto, parado perto dos contêineres. O corpo rígido, a postura de quem manda sem precisar dizer uma palavra. Ele não sorria. Não desviava o olhar. Apenas a observava. O estômago de Isadora se contraiu. O beijo da noite anterior ainda marcava seus lábios como uma promessa perigosa. Ela pegou o café e seguiu andando, sentindo o olhar dele acompanhá-la. Não era apenas desejo. Era vigilância. Proteção e posse. Quando ela passou por um corredor estreito entre dois galpões, sentiu a presença dele antes mesmo de ouvi-lo. — Você não devia estar aqui sozinha. A voz grave soou atrás dela, próxima demais. Isadora se virou, o coração acelerado. — E você não devia me seguir. Ele se aproximou, encurralando-a contra a parede fria de metal. — Eu não sigo. Eu cuido. — Não pedi isso. — Pediu no momento em que voltou. O olhar dele desceu lentamente pelo corpo dela, sem disfarçar. Não havia gentileza ali apenas necessidade. Isadora engoliu em seco. — A cidade inteira fala que você virou outra pessoa. Ele inclinou a cabeça, o maxilar tenso. — A cidade fala demais. — Fala que você manda aqui. — Eu mantenho ordem. — Com medo? — Com controle. O silêncio se estendeu. Caio ergueu a mão e segurou o queixo dela, forçando-a a encará-lo. — Não volte a me beijar se não souber lidar com o que desperta em mim. — E você? — retrucou ela, a voz trêmula, mas firme. — Sabe? Por um segundo, a muralha dele vacilou. — Não. — admitiu. — E é isso que me assusta. Um barulho de passos interrompeu o momento. Caio se afastou rapidamente, o olhar duro. Do outro lado do porto, um homem observava. Alto, magro, usando um boné puxado sobre o rosto. O olhar era atento demais para ser casual. Isadora seguiu o olhar de Caio. — Quem é ele? — Alguém que não devia estar aqui. — respondeu Caio, em tom baixo. — E agora sabe que você voltou. O peito dela apertou. — Eu estou em perigo? — Desde o momento em que pisou nesta cidade. Ele se aproximou mais uma vez, dessa vez sem tocar. — Fique perto de mim. — Isso não soa como um pedido. — Não é. Caio se afastou, caminhando na direção do homem misterioso, que desapareceu entre os barcos antes que pudesse ser alcançado. Isadora ficou parada, o café esfriando na mão, sentindo o peso daquela verdade. Ela não estava apenas revivendo um amor antigo. Estava entrando num jogo que não entendia , onde segredos, poder e desejo se misturavam perigosamente. E, do alto de um dos galpões, alguém observava os dois com atenção calculada. Um sorriso lento se formou sob o boné. Porque algumas histórias não recomeçam por acaso. Elas voltam para cobrar.
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