CAPÍTULO 2

1226 Palavras
A madrugada caiu silenciosa sobre Santa Marina. A lua cheia espalhava um brilho pálido pela casa antiga, e cada estalo da madeira parecia um sussurro vindo do passado. Isadora não conseguiu dormir. A presença de Caio, o olhar dele, o toque sutil no cabelo, tudo a deixara em um estado de inquietação quase febril. Fazia anos que ela se sentia tão viva e tão em perigo ao mesmo tempo. Deitada na cama que foi da avó, olhou para o teto e lembrou das palavras da carta, “Procure a caixa de madeira no sótão. Nela está tudo o que você precisa saber.” Aquela frase não saía da cabeça. O que a avó Helena poderia ter escondido com tanto cuidado? E o que isso tinha a ver com Caio? Depois de alguns minutos lutando contra a curiosidade, ela se levantou, vestiu uma camisola leve e uma malha por cima, e acendeu uma lanterna antiga. O vento do mar entrava pelas janelas, trazendo o cheiro úmido de sal e nostalgia. Os degraus que levavam ao sótão gemiam a cada passo. O coração dela batia rápido, como se o próprio ar da casa tivesse alma e lembrasse. Lá em cima, o ambiente estava tomado por poeira, teias de aranha e o perfume distante de lavanda, o mesmo que a avó usava. Entre baús, retratos e caixas velhas, ela avistou uma pequena caixa de madeira escura, com um cadeado enferrujado. Era simples, mas havia algo de estranho nela. Uma marca gravada no tampo um símbolo em forma de meia-lua, idêntico ao colar que Isadora usava desde criança. O arrepio foi imediato. — O que é isso, vó? — sussurrou. Ajoelhou-se e passou os dedos sobre o símbolo. O toque pareceu despertar algo, uma lembrança distante de uma noite de tempestade, de vozes alteradas, de um cheiro de fumaça. Tentou abrir o cadeado, mas estava travado. Revirou o sótão e encontrou uma pequena chave dentro de um livro de orações. A coincidência a fez sorrir nervosamente. A chave encaixou. O clique soou alto demais no silêncio. Dentro da caixa, havia fotos antigas, cartas amareladas e um envelope fechado com cera vermelha. No topo, uma fotografia, seu pai e o pai de Caio lado a lado, jovens, sorrindo, com os braços cruzados sobre o ombro um do outro. O coração de Isadora parou por um segundo. Aquilo não fazia sentido. Eles se odiavam. Ou pelo menos foi o que ela acreditou durante toda a vida. Virou a foto, e no verso havia uma frase escrita à mão, - “Santa Marina não perdoa traições.” Aquela frase soava como uma maldição. Isadora folheou as cartas correspondências trocadas entre Helena e o pai de Caio, cheias de palavras cifradas. Falavam de negócios, de terras, de algo que “não podia ser descoberto”. E, nas últimas linhas, uma menção direta ao incêndio que mudara tudo, - “Se a verdade vier à tona, Caio pagará o preço do pai. Proteja Isadora. Ela é a única inocente.” Isadora sentiu as mãos tremerem. Caio o preço do pai. O que aquilo significava? O chão pareceu girar. E, de repente, o som de um carro soou lá fora motor desligando, passos firmes no cascalho. Ela prendeu a respiração. Quem estaria ali a essa hora? Apagou a lanterna e se aproximou da janela. A lua iluminava parcialmente o jardim. Uma figura alta, de terno, caminhava em direção à casa. — Não pode ser — murmurou, o coração disparando. Caio. Outra vez. Como se o universo conspirasse para não deixá-la em paz. Desceu as escadas em silêncio, tentando conter o nervosismo. Quando abriu a porta, ele já estava parado na varanda, de braços cruzados, com o olhar sombrio e a expressão tensa. — Não está tarde demais pra visitas? — perguntou ela, tentando soar fria. — Você anda se metendo onde não devia. — A voz dele era dura, mas havia algo de preocupado nela. — Está me espionando agora? — Eu não preciso espionar. A cidade inteira fala de você. — A cidade… ou você? — rebateu. O maxilar dele travou. — Achei que era melhor avisar, certas coisas devem continuar enterradas, Isadora. — Como o quê? — Como tudo que você acha que quer descobrir. Ela cruzou os braços, desafiando-o. — Então você sabe o que está escondido aqui? — Sei o suficiente pra entender que sua avó tentou te proteger. E que, se continuar fuçando, pode acabar se ferindo de novo. O silêncio que se formou foi denso. A lua refletia no rosto dele, realçando a cicatriz fina perto da sobrancelha uma marca que ela nunca soube de onde veio. Os olhos de Caio pareciam carregar tempestades. — Está com medo de quê, Caio? — perguntou em tom baixo. — De que eu descubra o que realmente aconteceu naquela noite? — Estou com medo de te ver sofrer. A sinceridade o traiu por um segundo, e o olhar dele suavizou. Isadora sentiu o peito apertar, o ar preso nos pulmões. — Você não pode me proteger de algo que eu nem entendo — sussurrou. — E você não entende o que está em jogo. Ele deu um passo à frente. O perfume dele, o calor, o magnetismo , tudo parecia arrastá-la para um abismo familiar. — Não brinque com o passado, Isa. Ele não esqueceu de você. Ela ergueu o rosto, o olhar firme. — Nem você. Caio parou, como se as palavras tivessem o poder de arrancar o ar dos pulmões. A tensão entre os dois era quase palpável. Ele segurou o rosto dela com uma das mãos, o polegar roçando levemente a pele. — Você não tem ideia do que está fazendo comigo. Isadora fechou os olhos por um segundo. — Tenho sim. — respondeu num sussurro. — É o mesmo que você faz comigo desde sempre. O toque virou carícia. A respiração dos dois se misturou. Um instante de hesitação, e o passado pareceu ruir entre eles. O beijo aconteceu , intenso, urgente, proibido. O sabor era o mesmo de dez anos antes: salgado, doce e devastador. E, por um momento, ela esqueceu o motivo da raiva, do medo, do tempo perdido. Só existia ele. O toque das mãos fortes, a boca quente, o corpo que a lembrava de tudo o que tentou esquecer. Mas quando o beijo terminou, Caio se afastou, respirando com dificuldade, como se tivesse cometido um erro imperdoável. — Isso nunca devia ter acontecido — murmurou. — Então por que aconteceu? — a voz dela tremia. Ele desviou o olhar. — Porque com você eu nunca consigo parar. Virou-se e desceu os degraus, desaparecendo na escuridão antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. Isadora ficou ali, imóvel, sentindo o coração bater descompassado. Quando voltou para dentro, o vento havia espalhado os papéis da caixa pelo chão. Entre eles, algo novo, uma carta que ela não lembrava de ter visto. A letra era do pai dela. “Helena, se algo me acontecer, proteja Caio. Ele é inocente.” Isadora ficou pálida. O papel tremia entre os dedos. O pai dela, protegendo Caio? Nada fazia sentido. Mas uma coisa estava clara, a verdade que dormia em Santa Marina era muito mais perigosa do que ela imaginava. E, no meio de tudo, o homem que ela jurou odiar parecia ser a única pessoa que poderia salvá-la ou destruí-la.
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