CAPÍTULO 8

884 Palavras
O mar nunca dormia. Mesmo antes do amanhecer, ele murmurava ondas quebrando, recuando, voltando outra vez, como se tentasse dizer algo que ninguém queria ouvir. Isadora acordou com esse som, o corpo ainda envolto pelo calor de Caio atrás dela. Por um segundo, esqueceu onde estava. Por um segundo, esqueceu o medo. Depois lembrou. A casa invadida. As cartas mexidas. Henrique. Ela se moveu devagar, tentando não acordá-lo. Mas Caio despertou no instante em que o corpo dela se afastou. Era como se estivesse sempre em alerta quando se tratava dela. — Vai aonde? — a voz rouca, ainda pesada de sono. — Preciso de ar. — respondeu em tom baixo. Ele se levantou também, vestindo a camisa sem abotoá-la. — Não vá sozinha. Eles saíram pela porta dos fundos, descendo a trilha estreita que levava até a pequena faixa de areia escondida entre as rochas. A luz pálida do amanhecer tingia o céu de cinza e azul, e o vento carregava o cheiro salgado que sempre fez Isadora se sentir pequena e viva. Ela parou perto da água, os pés afundando na areia fria. — Minha avó costumava dizer que o mar guarda vozes. — murmurou. — Que ele devolve o que foi jogado nele. Caio a observava em silêncio. — Helena sabia demais. — respondeu. — E pagou um preço por isso. Isadora se virou, o olhar firme. — Ela deixou pistas. Não queria que tudo morresse com ela. O vento soprou mais forte, e o barulho das ondas pareceu crescer. Isadora fechou os olhos por um instante e então ouviu. Não era imaginação. Um som diferente. Como um estalo metálico sendo arrastado pela água. — Você ouviu isso? — perguntou. Caio assentiu. — As marés baixas revelam coisas enterradas. Eles caminharam mais à frente, entre as pedras escorregadias. Algo escuro se movia entre as ondas rasas. Caio entrou primeiro, puxando aquilo para fora. Era uma corrente enferrujada, presa a um pequeno cofre metálico, gasto pelo tempo. O coração de Isadora disparou. — Não… — sussurrou. Caio a encarou. — Helena jogou isso no mar há anos. Eu achei que nunca fosse aparecer. — Você sabia disso?! — Eu sabia de parte. — respondeu, tenso. — Não do conteúdo. Com esforço, ele abriu o fecho enferrujado. Dentro havia um embrulho envolto em pano grosso, protegido da água. Isadora pegou com cuidado, sentindo as mãos tremerem. Quando abriu, encontrou um gravador antigo… e um envelope lacrado. O nome dela estava escrito ali. Isadora Ferraz. O ar pareceu faltar. — Ela deixou isso pra você. — disse Caio, em voz baixa. Isadora apertou o envelope contra o peito antes de abri-lo. A letra da avó era firme, mas havia urgência nas palavras. > “Minha menina, Se você está lendo isto, significa que o passado voltou a respirar. Confie no mar. Confie em Caio. Ele errou, mas nunca te traiu. A verdade sobre o incêndio não é o que a cidade contou. E o sangue que manchou Santa Marina não começou naquela noite. Ouça a gravação. Depois decida se fica… ou se foge. Com amor, Vó Helena.” Isadora sentiu as pernas fraquejarem. — Confie em você — murmurou, olhando para Caio. — Ela pediu pra confiar em você. O olhar dele se fechou por um segundo. — Sua avó me conhecia melhor do que eu mesmo. Eles voltaram para casa em silêncio. O peso do que carregavam era quase físico. No quarto, Isadora colocou o gravador sobre a mesa. As mãos tremiam quando apertou o botão. A voz de Helena preencheu o ambiente — firme, serena cansada. — Se alguém ouvir isso além de mim, significa que falhei em proteger todos. — O incêndio foi provocado. — Não por Caio. Nem pelo pai dele. — Mas por alguém que ainda anda livre por Santa Marina. Isadora levou a mão à boca. — O pai de Isadora tentou impedir. Pagou com a vida. — E Caio assumiu uma culpa que não era dele para que a verdade não recaísse sobre a menina que ele amava. As lágrimas escorreram sem controle. Caio virou o rosto, os punhos cerrados. — Henrique sabe de tudo. Sempre soube. — E nunca vai parar enquanto não recuperar o que perdeu naquela noite. A gravação terminou com um clique seco. O silêncio que ficou era devastador. — Você — Isadora tentou falar, mas a voz falhou. — Você deixou que todos acreditassem que foi culpado. Caio assentiu lentamente. — Se a verdade viesse à tona naquela época, você teria sido o próximo alvo. Ela se levantou e o abraçou com força, o corpo tremendo. — Você me salvou me destruindo. Ele apertou os braços ao redor dela, possessivo, protetor. — Eu faria tudo de novo. Isadora ergueu o rosto, os olhos cheios de lágrimas e fogo. — Então agora não foge. Agora luta comigo. O olhar dele se incendiou. — Eu nunca lutei por nada como luto por você. Lá fora, o mar rugiu, violento, como se aprovasse a decisão. Mas longe dali, escondido entre os barcos do porto, Henrique ouvia uma ligação no viva-voz. — O cofre reapareceu. — disse alguém. Henrique sorriu. — Então está na hora de lembrá-los que o mar também engole. Desligou. As vozes do mar tinham começado a falar. E nenhuma delas traria paz.
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