O mar nunca dormia.
Mesmo antes do amanhecer, ele murmurava ondas quebrando, recuando, voltando outra vez, como se tentasse dizer algo que ninguém queria ouvir.
Isadora acordou com esse som, o corpo ainda envolto pelo calor de Caio atrás dela.
Por um segundo, esqueceu onde estava.
Por um segundo, esqueceu o medo.
Depois lembrou.
A casa invadida.
As cartas mexidas.
Henrique.
Ela se moveu devagar, tentando não acordá-lo. Mas Caio despertou no instante em que o corpo dela se afastou.
Era como se estivesse sempre em alerta quando se tratava dela.
— Vai aonde? — a voz rouca, ainda pesada de sono.
— Preciso de ar. — respondeu em tom baixo.
Ele se levantou também, vestindo a camisa sem abotoá-la.
— Não vá sozinha.
Eles saíram pela porta dos fundos, descendo a trilha estreita que levava até a pequena faixa de areia escondida entre as rochas.
A luz pálida do amanhecer tingia o céu de cinza e azul, e o vento carregava o cheiro salgado que sempre fez Isadora se sentir pequena e viva.
Ela parou perto da água, os pés afundando na areia fria.
— Minha avó costumava dizer que o mar guarda vozes. — murmurou.
— Que ele devolve o que foi jogado nele.
Caio a observava em silêncio.
— Helena sabia demais. — respondeu. — E pagou um preço por isso.
Isadora se virou, o olhar firme.
— Ela deixou pistas. Não queria que tudo morresse com ela.
O vento soprou mais forte, e o barulho das ondas pareceu crescer. Isadora fechou os olhos por um instante e então ouviu.
Não era imaginação.
Um som diferente.
Como um estalo metálico sendo arrastado pela água.
— Você ouviu isso? — perguntou.
Caio assentiu.
— As marés baixas revelam coisas enterradas.
Eles caminharam mais à frente, entre as pedras escorregadias. Algo escuro se movia entre as ondas rasas. Caio entrou primeiro, puxando aquilo para fora.
Era uma corrente enferrujada, presa a um pequeno cofre metálico, gasto pelo tempo.
O coração de Isadora disparou.
— Não… — sussurrou.
Caio a encarou.
— Helena jogou isso no mar há anos. Eu achei que nunca fosse aparecer.
— Você sabia disso?!
— Eu sabia de parte. — respondeu, tenso. — Não do conteúdo.
Com esforço, ele abriu o fecho enferrujado. Dentro havia um embrulho envolto em pano grosso, protegido da água. Isadora pegou com cuidado, sentindo as mãos tremerem.
Quando abriu, encontrou um gravador antigo… e um envelope lacrado.
O nome dela estava escrito ali.
Isadora Ferraz.
O ar pareceu faltar.
— Ela deixou isso pra você. — disse Caio, em voz baixa.
Isadora apertou o envelope contra o peito antes de abri-lo. A letra da avó era firme, mas havia urgência nas palavras.
> “Minha menina,
Se você está lendo isto, significa que o passado voltou a respirar.
Confie no mar. Confie em Caio. Ele errou, mas nunca te traiu.
A verdade sobre o incêndio não é o que a cidade contou.
E o sangue que manchou Santa Marina não começou naquela noite.
Ouça a gravação. Depois decida se fica… ou se foge.
Com amor, Vó Helena.”
Isadora sentiu as pernas fraquejarem.
— Confie em você — murmurou, olhando para Caio. — Ela pediu pra confiar em você.
O olhar dele se fechou por um segundo.
— Sua avó me conhecia melhor do que eu mesmo.
Eles voltaram para casa em silêncio. O peso do que carregavam era quase físico.
No quarto, Isadora colocou o gravador sobre a mesa. As mãos tremiam quando apertou o botão.
A voz de Helena preencheu o ambiente — firme, serena cansada.
— Se alguém ouvir isso além de mim, significa que falhei em proteger todos.
— O incêndio foi provocado.
— Não por Caio. Nem pelo pai dele.
— Mas por alguém que ainda anda livre por Santa Marina.
Isadora levou a mão à boca.
— O pai de Isadora tentou impedir. Pagou com a vida.
— E Caio assumiu uma culpa que não era dele para que a verdade não recaísse sobre a menina que ele amava.
As lágrimas escorreram sem controle.
Caio virou o rosto, os punhos cerrados.
— Henrique sabe de tudo. Sempre soube.
— E nunca vai parar enquanto não recuperar o que perdeu naquela noite.
A gravação terminou com um clique seco.
O silêncio que ficou era devastador.
— Você — Isadora tentou falar, mas a voz falhou.
— Você deixou que todos acreditassem que foi culpado.
Caio assentiu lentamente.
— Se a verdade viesse à tona naquela época, você teria sido o próximo alvo.
Ela se levantou e o abraçou com força, o corpo tremendo.
— Você me salvou me destruindo.
Ele apertou os braços ao redor dela, possessivo, protetor.
— Eu faria tudo de novo.
Isadora ergueu o rosto, os olhos cheios de lágrimas e fogo.
— Então agora não foge. Agora luta comigo.
O olhar dele se incendiou.
— Eu nunca lutei por nada como luto por você.
Lá fora, o mar rugiu, violento, como se aprovasse a decisão.
Mas longe dali, escondido entre os barcos do porto, Henrique ouvia uma ligação no viva-voz.
— O cofre reapareceu. — disse alguém.
Henrique sorriu.
— Então está na hora de lembrá-los que o mar também engole.
Desligou.
As vozes do mar tinham começado a falar.
E nenhuma delas traria paz.