CAPÍTULO 9

900 Palavras
Santa Marina sabia celebrar como sabia esconder pecados, com música alta, sorrisos forçados e luzes suficientes para cegar consciências. A praça central estava tomada por bandeirolas coloridas, barracas de comida típica e um palco montado em frente à igreja antiga. O cheiro de fritura, açúcar e álcool se misturava ao som das risadas. Para qualquer visitante, parecia apenas mais uma festa tradicional. Para quem conhecia a cidade, era um palco perfeito para mentiras. Isadora sentiu isso no instante em que pisou ali. — Se quiser ir embora — Caio murmurou ao lado dela. Ela segurou a mão dele com firmeza. — Não. — respondeu. — Se o passado vai nos encarar, que seja à luz de todos. Caio a observou por um segundo a mais do que o necessário. Havia orgulho no olhar dele. E algo mais perigoso: decisão. Ela vestia um vestido azul-escuro, simples, mas que abraçava o corpo de um jeito que fazia os olhares se voltarem. Caio percebeu cada um deles. O maxilar dele se contraiu. — Não gosto quando olham pra você assim. — Santa Marina sempre olhou. — ela respondeu. — A diferença é que agora eu olho de volta. Eles caminharam pela praça, e os sussurros começaram imediatamente. — É ela, — A neta da Helena. — Voltou com o Moretti. — Coragem ou loucura? Isadora manteve a cabeça erguida. Mas sentia. Cada palavra era uma lâmina invisível. No palco, a banda afinava os instrumentos. Crianças corriam, casais dançavam, mas havia algo errado no ar. Uma tensão sutil, quase imperceptível, como o silêncio antes da tempestade. — Ele está aqui. — Caio disse de repente, em tom baixo. — Quem? — Henrique. Isadora seguiu o olhar dele. Henrique estava perto da barraca de bebidas, elegante demais para o lugar, o sorriso fácil, os olhos atentos demais. Quando percebeu que fora visto, ergueu o copo num brinde irônico. — Ele não mudou nada. — ela murmurou. — Mudou. — Caio respondeu. — Agora ele não finge mais. Henrique se aproximou com passos tranquilos, como se estivesse indo cumprimentar velhos amigos. — Isadora Ferraz. — disse, abrindo um sorriso ensaiado. — Santa Marina fica mais bonita quando você aparece. — Não posso dizer o mesmo de você. — ela respondeu, sem baixar os olhos. O sorriso dele vacilou por um segundo. — Sempre direta. Gostei disso em você desde o olhar dele deslizou lentamente sempre. Caio deu um passo à frente. — Fala o que quer e sai. Henrique riu baixo. — Ainda mandando em tudo, Moretti? Ou só no que você acha que é seu? O clima ficou pesado. Pessoas começaram a perceber a tensão, mas ninguém se afastava. Santa Marina adorava um escândalo , desde que não fosse seu. Henrique se inclinou levemente em direção a Isadora. — Sua avó tinha muitos segredos. Alguns não deveriam ter voltado à superfície. O coração dela acelerou. — Você não toca no nome dela. — Ou o quê? — provocou. — Vai contar à cidade quem realmente causou aquele incêndio? O silêncio caiu como um golpe. Caio agarrou o braço de Henrique com força. — Chega. — Cuidado. — Henrique sussurrou. — A verdade é frágil. Às vezes explode. Ele se afastou, misturando-se à multidão como se nada tivesse acontecido. Isadora respirava com dificuldade. — Ele sabe. — ela disse. — Sabe que encontramos algo. — Sim. — Caio respondeu. — E quer nos testar. A música começou. Uma canção lenta, antiga, conhecida por todos. Casais se formaram na praça. Caio virou-se para ela. — Dance comigo. — Aqui? Agora? — Principalmente agora. Ele a puxou para perto, a mão firme em sua cintura. O corpo dele era uma âncora. Um aviso silencioso. Enquanto dançavam, Isadora sentia cada batida do coração dele, cada músculo tenso, cada gesto possessivo disfarçado de cuidado. — Eles estão olhando. — ela murmurou. — Que olhem. — ele respondeu. — Quero que vejam. — Ver o quê? — Que você não está sozinha. Nunca esteve. O olhar deles se prendeu. O desejo ali não era leve. Era intenso, carregado de passado, culpa e promessas não ditas. De repente, as luzes da praça piscaram. Uma explosão seca ecoou perto do palco. Não grande o suficiente para ferir, mas forte o bastante para espalhar pânico. Gritos. Correria. Crianças chorando. Caio envolveu Isadora com o próprio corpo, protegendo-a instintivamente. — Fique atrás de mim! — ordenou. A energia voltou segundos depois. O prefeito tentou acalmar a multidão, dizendo que fora apenas um problema técnico. Mas Caio sabia. — Isso foi um aviso. — disse, sério. Isadora sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. — Ele quer nos assustar. — Não. — Caio respondeu, o olhar duro, procurando Henrique entre as pessoas. — Ele quer mostrar que pode nos alcançar em qualquer lugar. Henrique não estava mais ali. A festa continuou, forçada, artificial. Mas algo havia mudado. A cidade sentira o gosto do medo outra vez. Caio segurou o rosto de Isadora entre as mãos. — A partir de agora, você não dá um passo sem eu saber. — Isso soa como controle. — É proteção. — corrigiu. — E eu não vou pedir desculpas por isso. Ela não recuou. — Então esteja preparado. Porque eu não vou mais fugir. Ele encostou a testa na dela. — Nem eu. Ao longe, o mar rugia, invisível, mas atento. A festa terminou. Mas a guerra tinha acabado de começar.
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