ELARA WHITMOOR
Eu não queria estar aqui, não pedi isso, nunca quis um lobo, nunca quis um predestinado, muito menos ele.
Talon Blackthorn.
Riquinho mimado, arrogante, bonito demais para o próprio bem, aquel a cabelos prateados, de sua linhagem de sangue puro, olhos da mesma cor, a pele branca como os pelos de seu lobo, muitos dizem, eu nunca vi, o corpo atletico, era bonito demais para ser real, é arrogante demais para ser pra mim, e filho do lobo mais poderoso de toda a extensão do Norte.
Eles governam como reis, donos de tudo que se vê da floresta à cidade.
E ainda acham que podem governar o destino, que podem mandar até na Lua.
Foi o pai dele quem mandou me buscar, dois homens armados apareceram na porta do chalé onde moro com minha avó, dizendo que o destino tinha me chamado.
Destino nenhum me chamou, fui arrastada, obrigada a vestir esse vestido branco ridículo, amarrada em promessas antigas, lendas velhas e uma profecia que nunca pedi para fazer parte.
Mas agora…
Agora todo mundo viu, viu quando ele me olhou, viu quando ele recuou, viu quando ele me rejeitou.
E eu?
Eu sorri.
Por dentro, claro, por fora, deixei os olhos brilharem e a respiração falhar, como se doesse, era esperado. Ômegas são frágeis, delicadas, submissas.
E eu? Eu sou só fraca, segundo eles, não me transformo, não tenho garras, não uivo, não pertenço a lugar algum.
Mas, ao menos, agora sou livre.
O círculo se desfez depois da rejeição, ls anciões cochichavam sobre desequilíbrio, sobre o vínculo rompido, alguns me olhavam com pena, outros com nojo.
E Talon?
Ah, Talon nem se virou, como um bom príncipe da arrogância que é.
— Sinto muito, Elara — disse o Mestre do Rito, com expressão de falsa compaixão.
— Não sinta — respondi, firme. — Agora posso viver em paz.
Deixei os totens para trás, a fumaça, os olhares, as maldições.
Na saída, o pai dele tentou falar comigo.
Alaric Blackthorn, o Alfa de verdade, um homem duro, de olhar de pedra e honra ancestral, ele acreditava no vínculo. Ainda acredita.
— A deusa sabe o que faz — disse ele, enquanto eu caminhava sozinha até o carro que me traria de volta. — Talon vera.
— Talvez saiba — respondi. — Mas o filho do senhor acha que sabe mais que ela.
Ele não sorriu, mas também não me impediu de ir.
E então voltei. Voltei para minha casa simples, para minha avó, para meus livros, para meu futuro.
Na manhã seguinte, minha bolsa de estudos chegou, na universidade mais renomada do país em estudos biológicos e neurociência aplicada, consegui com minhas notas, minha pesquisa e meus próprios méritos.
— Você ainda quer ir? — perguntou minha avó, hesitante, como se estivesse pisando em gelo fino.
— Agora mais do que nunca.
A carta da universidade está sobre a mesa, meus documentos estão prontos, não pertenço ao mundo dos lobos, nem dos humanos, sou apenas uma ômega, sem lobo, sem utilidade para eles, mas não me importo.
Mas à noite, quando o mundo silencia,
quando as luzes da floresta se apagam…
eu ainda sinto.
Sinto o cheiro dele, sinto o eco do vínculo quebrado, como se uma parte de mim tivesse sido deixada naquele círculo de pedra, sob a Lua da Verdade.
Mas talvez, só talvez…
um dia ele sinta também.
E queime.
E eu vou rir, vou rir deste i****a.
— Elara, trouxe uma sopa.
— Oi, vó, entra.
Chamo a senhora que entra no meu quarto com a sopa, eu pego e começo a comer.
— Como foi?
— Como o esperado né, vó. Quem aqui ou em qualquer lugar vai querer uma ômega que não transforma.
Ela me olha com compaixão, mas não com certo alívio.
— Você não precisa deles.
— Eu sei, vó, vou me concentrar nos estudos apenas, quando eu estiver num bom emprego, vamos morar em alguma cidade onde os humanos são maioria e não vamos mais depender desses lobos idiotas, que só nós vem como pedaço de carne.
— Sim, querida, isso mesmo.
Vovó fica um pouco no quarto e sai, me deito na minha cama, pego um livro para ler, desses que as humanas fazem, sobre nós, como se os lobos fossem os deuses salvadores das lobas, que fazem tudo por ela, só nesses livros mesmo.
Na real é totalmente diferente, ômegas, só servem pra procriar e dar prazer a única e exclusivamente os alfas, nenhum beta tem direito a uma ômega, elas são raras, e só os alfas tem esse direito, e sim, ômegas ficam trancadas, apenas usada no cio, muitos mantém outras parceiras alfas e betas, e usam omega apenas para ter filhotes e manter a linhagem.
Mas o alfa, acredita na União pelo destino, acredita que a Deusa escolhe os casais, foi assim com a omega dele.
Pelo menos é o que ele diz, antes do governo a levar, por ela ter sido dele sem o consenso do governo, ômegas são praticamente objetos do governo, para manter as alcatéias na linha, menos eu.
Fiquei um tempo nas mãos do governo, mas como nunca transformei, eu era apenas um gasto pra eles, e fui dada a minha avó, e agora sou feliz livre, e não é Talon que vai tirar minha paz.